01; A primeira gota.

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Quando me dei conta, sangue quente escorria pelos meus dedos, estava em meu rosto e em toda parte. O desespero já estava se instaurando em mim e não havia nada que eu pudesse fazer para anular minha ação impulsiva.

Fugir não era uma escolha ou uma opção, era uma obrigação.

O meu destino era aquele, e eu sabia disso. Mas, como a vida muda em instantes, nem sempre o futuro é correspondente ao que nós esperamos.

4 meses antes.

Era início de primavera de 1984. Gwangju, Coreia do Sul. O clima era propício para o que estava começando a me atormentar; o vento frio entrava na minha pele, fazendo-a rasgar e me dando espasmos arrepiantes.

- Jeongie, acho que você deveria vir comigo para Seul. Você teria mais oportunidades: fazer sua faculdade dos sonhos, ir a festas, trabalhar, viver a sua vida! Você já tem 20 anos, deveria largar mão de Gwangju, essa cidade não tem nada de mais! Seul é o futuro, Minjeong - ela diz, choramingando.

- Você sabe, Ning... eu tenho minha mãe para cuidar, mas assim que tudo der certo, estarei lá 'pra te acompanhar nas suas ideias malucas! Não se preocupe.

- Eu sei, mas poxa... sua vida aqui é TÃO chata! Você não faz nada além de ir ao mercado comprar bebidas, e seu emprego aqui também é uma merda, você recebe menos de um salário. Vamos, Min, eu te imploro... - ela coloca seu braço entrelaçado ao meu.

Olhei para ela e soltei um riso soprado, balançando a cabeça. A empolgação de Ning era contagiante, mas a realidade nos meus ombros pesava mais do que qualquer sonho que eu pudesse alimentar.

- Um salário que mal dá para pagar os remédios, para ser exata - corrigi, ajustando o casaco para me proteger da ventania. - Mas é o que tem 'pra hoje. E alguém precisa garantir que a minha mãe esteja bem.

Ning suspirou, derrotada, pois sabia da minha realidade. Continuamos caminhando pelas ruas silenciosas de Gwangju, o barulho do vento misturando-se aos nossos passos.

Mais tarde, naquela mesma noite.

O cheiro de arroz tostado no fundo da panela preenchia a pequena cozinha. O silêncio da casa só era quebrado pelo estalido suave do fogo e pelo som ritmado da minha faca cortando os vegetais sobre a tábua de madeira.

- Minjeong-ah... a comida já está pronta? - a voz fraca da minha mãe veio do quarto, acompanhada por uma sequência de tosses secas.

- Quase, mãe. Só mais uns minutinhos - respondi, elevando o tom de voz para que ela me ouvisse.

Servi duas tigelas simples de sopa e me sentei à mesa bamba. Minha mãe apareceu logo depois, caminhando devagar e ajeitando o xale sobre os ombros. Ela puxou a cadeira e nos sentamos para comer.

Hesitei por alguns segundos, encarando o vapor que subia do meu prato, antes de tomar coragem para falar:

- Mãe, estava conversando com a Ningning hoje mais cedo, e ela me fez uma proposta de ir para Seul. Sei que é um pouco longe, mas seria melhor para nós duas, construir uma vida longe de Gwangju... O meu salário quase não paga os seus remédios e as contas de casa, fora que estamos ficando sem comida. E você sabe que a Ningning poderia nos ajudar até que nós pudéssemos nos estabilizar financeiramente...

Minha mãe parou a colher no meio do caminho, o olhar fixo na sopa quente, enquanto absorvia cada palavra.

- Minjeong... Seul é uma cidade gigante. A Ningning é uma boa menina, mas não podemos virar um fardo na vida dela - disse ela, com a voz embargada, passando a mão trêmula pelo rosto. - Eu sei como as coisas estão difíceis aqui e me dói ver você sacrificando a sua juventude por minha causa. Se você quiser ir, vá... mas não se prenda a mim. Eu só não sei se o meu corpo aguenta uma mudança como essa.

Lágrimas Negras - WinRina Cerita yang bikin terobses. Temukan sekarang