CAPÍTULO 1 - Clara

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O despertador começou a tocar às seis da manhã.

Não era um som suave, daqueles que vão acordando a gente devagar. Era um alarme agudo, cortante, insistente, como se ele mesmo soubesse que aquele dia era diferente, como se estivesse gritando para ela não desperdiçar nem um segundo.

Piiii...
Piiii...
Piiii...

Clara ouviu. Ou melhor, uma parte pequena e cansada do seu cérebro percebeu o som. Com os olhos ainda pesados de sono, esticou um braço sem rumo pela mesa de cabeceira. Derrubou um caderno de desenho meio aberto, o carregador do celular, uma garrafa de água quase vazia e um lápis de carvão que mordera na noite anterior, até finalmente tocar na superfície fria do aparelho.

Sem nem abrir os olhos direito, apertou qualquer botão que aparecesse sob os dedos.

O silêncio voltou de repente, quentinho e convidativo.

Ela sorriu para o nada, abraçando o travesseiro mais forte contra o peito.

- Só mais cinco minutinhos... prometo.

Virou para o outro lado, enrolou-se no cobertor como se ele fosse um escudo contra o mundo lá fora e voltou a fechar os olhos.

Cinco minutos. Era o que ela sempre dizia. Cinco minutos que quase nunca eram apenas cinco.

...

No meio do sono, ela já estava ali: dentro dos salões altos da Academia Belas Artes de Noctis, as mãos cheias de tinta, o ar cheirando a óleo e papel novo. Pessoas olhavam para os seus desenhos e sorriam.

- Que traço incrível, Clara!
- Você pertence aqui.

Ela sorria de volta, sentia o peito inflar de um orgulho tão grande que doía um pouco, a certeza de que todo o esforço tinha valido a pena. Então o som voltou, mais alto, mais forte, como se estivesse gritando bem no ouvido dela.

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Ela abriu um olho devagar, piscou contra a luz que já invadia o quarto. Olhou para o teto manchado de antigas infiltrações que a mãe nunca teve dinheiro para arrumar direito.

- Hã...?

Pegou o celular com a mão ainda mole. A tela acendeu de uma vez, iluminando seu rosto amassado de sono.

07:17

Ela ficou parada por dois segundos inteiros, o cérebro demorando a processar o que via. Depois os olhos se arregalaram tanto que pareciam saltar do rosto.

- MERDA, MERDA, MERDA!

Pulou da cama num impulso só, sem pensar duas vezes. O cobertor enrolou firme no tornozelo esquerdo.

- AAAAAH!

Quase bateu o queixo na beira da escrivaninha, só se segurando ali por puro reflexo. Uma pilha de cadernos de desenho despencou com um baque surdo, espalhando folhas de rascunho, carvão e giz de todo lado.

- Não, não, não... por favor, não...

Olhou ao redor, e o caos que sempre fora o seu mundo parecia ainda maior naquela hora. Se alguém entrasse ali sem saber quem ela era, juraria que um furacão passara pela última vez. Mas para Clara, cada coisa tinha o seu lugar, mesmo que esse lugar fosse o chão, a beira da cama ou o encosto da cadeira.

Camisetas de bandas que amava estavam espalhadas por todos os cantos. Uma jaqueta jeans velha, manchada de tinta azul, ocupava metade do colchão. Lápis de cor espalhados, folhas soltas com desenhos de rostos, paisagens, ideias que surgiam do nada, post-its grudados na parede:

"NÃO DESISTA NEM HOJE."
"PRATICAR SOMBRAS DEPOIS DO ALMOÇO."
"VOCÊ É CAPAZ, MESMO QUE ACHE QUE NÃO."

E bem no meio da parede, escrito com letras enormes e tortas, feito para ela não esquecer:

NÃO SE ATRASE NO PRIMEIRO DIA NA NOCTIS.

Clara encarou aquele papel por um segundo. Depois soltou uma risada seca, meio nervosa, meio de desespero. Era o tipo de piada que a vida fazia só com ela.

- Eu sou uma completa idiota...

Correu até o guarda-roupa, abriu as portas de uma vez e as roupas despencaram na sua cabeça como uma avalanche.

- Sério? Comigo mesmo?

Empurrou tudo de volta para dentro, bagunçando ainda mais, e agarrou a primeira calça jeans que não parecia suja. Vestiu às pressas, depois uma camiseta preta um pouco larga, com a estampa de um pintor que admirava muito. Levou ao nariz: cheirava a sabão e sol.

- Tá limpa, tá bom.

Procurou as meias: uma azul, uma preta. Olhou para as duas, deu de ombros.

- Hoje ninguém vai olhar para os meus pés. E se olhar, que olhem.

Calçou os tênis, tentou amarrar os cadarços três vezes seguidas e só conseguiu fazer um nó apertado que provavelmente ia soltar no meio do caminho. Respirou fundo, sentiu o coração batendo forte na garganta, e foi para o banheiro.

Acendeu a luz branca e dura, olhou para o espelho e quase não se reconheceu. O cabelo castanho apontava em todas as direções possíveis, como se tivesse brigado com ele mesmo a noite toda. Pegou a escova, puxou forte, tentou alinhar - e cinco minutos depois estava pior do que antes.

- Desisto. Ganharam de mim.

Prendeu tudo num rabo de cavalo torto, onde vários fios teimavam em escapar. Lavou o rosto com água gelada, que fez todo o seu corpo estremecer e acordou o resto do sono que ainda restava. Escovou os dentes tão rápido que quase machucou a gengiva, cuspiu a espuma e olhou de novo para o seu reflexo.

Aquele sorriso nervoso sumiu devagar. Ali estava ela: Clara Mendes, dezenove anos. A menina que passara toda a adolescência desenhando em tudo quanto é lugar , cadernos, folhas de caderno, a parte de trás de provas, paredes de casa, repetindo para si mesma e para quem quisesse ouvir: "Eu vou entrar na Academia Belas Artes de Noctis. É a melhor de todas. E eu vou conseguir." A menina que ouviu tantas vezes: "É difícil demais, não é para você." "Arte não dá futuro." "Você é muito bagunceira para uma coisa tão séria."

Ela não desistiu. Dormiu menos do que devia, desenhou até a mão doer, deixou de ir a festas e passeios para ficar aperfeiçoando o traço, chorou escondida quando achou que não era boa o suficiente, mas na manhã seguinte estava lá de novo, com o lápis na mão e o sonho no peito.

E agora... ele estava ali, ao alcance das mãos. O primeiro dia. O começo de tudo o que ela lutou tanto para ter.

O coração disparou. Ela levou a mão ao peito, sentiu as batidas fortes e descompassadas.

- Calma, Clara. Respira. Você consegue. Você já passou por pior.

- Clara! - A voz da mãe cortou o silêncio da casa, doce e firme como sempre. - Você já levantou mesmo?

- Já já já! - mentiu, ainda amarrando o cadarço do segundo pé.

- O café já está pronto e o pão está quente!

- Tô indo agora!

Saiu do banheiro quase escorregando no chão frio, atravessou o corredor pequeno e entrou na cozinha. O cheiro de café recém-passado tomou conta dela de uma vez - aquele cheiro que era sinônimo de casa, de colo, de todas as manhãs que a mãe acordara antes dela para preparar algo quente enquanto ela terminava um desenho.

A mulher estava de pé na frente do fogão, avental florido já um pouco desbotado, o cabelo preso num coque que também não era nada perfeito, alguns fios soltos ao redor do rosto. Mesmo cansada, com as olheiras profundas de quem trabalha demais, sorriu assim que viu a filha.

- Bom dia, minha menina.

- Bom dia, mãe.

A mãe olhou primeiro para o rosto dela, depois para o relógio na parede, e depois de volta para Clara. Nenhuma palavra foi dita por uns segundos, mas aquele olhar dizia tudo.

- Você perdeu a hora.

Clara coçou a nuca, envergonhada.

- Um pouquinho só...

- Um pouquinho? - A mãe cruzou os braços, mas não havia raiva na voz, só uma mistura de cansaço e carinho. - Clara, eu te acordei três vezes. Você disse "já vou" em todas elas.

- Eu lembro da primeira... acho que dormi de novo sem perceber.

A mãe soltou uma risada baixa, tentou esconder com a mão, mas não conseguiu.

- Você é a coisa mais impossível que eu já conheci na minha vida.

Clara riu junto, mas o sorriso morreu no rosto quando viu a expressão séria voltar aos olhos da mãe.

- Filha... hoje não é qualquer dia. É o dia que você esperou por anos. O dia em que você vai para a Noctis, o lugar que você sempre disse que pertencia. Não estou aqui para dizer que você tem que ser perfeita, ou que tem que deixar de ser quem você é. Você pode rir alto, pode falar pelos cotovelos, pode ser essa menina cheia de vida e de cor... mas não deixe que essa sua mania de deixar tudo para depois, de viver correndo, tire o seu direito de estar ali. Você merece esse lugar. Merece mais do que ninguém.

Clara sentiu os olhos arderem de lágrimas que tentou segurar. Sabia que aquilo não era uma bronca. Era o amor de quem conhece cada defeito seu e ainda assim acredita mais em você do que você mesma.

- Obrigada - disse baixo, segurando as mãos da mãe sobre a mesa. - Obrigada por nunca duvidar de mim, nem quando eu mesma duvidei.

Os olhos da mãe brilharam. Ela apertou os dedos da filha com força.

- Eu nunca deixaria de acreditar. Nem nos dias em que você achou que não ia aguentar, eu carreguei essa fé por nós duas.

Clara não segurou mais. Abraçou a mãe com toda a força que tinha, escondeu o rosto no ombro dela e sentiu o cheiro de sabão e carinho que sempre a acalmou. Ficaram assim em silêncio, na cozinha pequena, com o café esfriando na mesa, como se aquele abraço fosse dar a ela toda a força que precisava.

Quando se afastaram, a mãe começou a encher a mochila dela sem parar: primeiro um sanduíche quente embrulhado em papel-alumínio, depois uma maçã vermelha, duas barrinhas de cereal, uma garrafa de água gelada, e até um estojo novo que comprara escondido para ela.

- Mãe, assim não cabe mais nada! - riu Clara, vendo a mochila ficar cada vez mais cheia.

- Melhor sobrar do que faltar. E não esqueça: a arte é o seu jeito de mostrar ao mundo quem você é. Não deixe ninguém mudar isso.

Clara pegou a alça e quase caiu para trás com o peso.

- Nossa... você colocou um tijolo escondido aqui dentro?

- Não. Só o suficiente para você não passar fome. E para lembrar que, onde quer que você vá, eu estou com você.

Antes de sair, Clara parou na porta e olhou para dentro da casa: as paredes um pouco riscadas pelos seus desenhos de criança, o sofá de tecido desbotado, a mesa onde passara noites em claro aperfeiçoando o portfólio, o fogão onde a mãe sempre fazia o melhor café do mundo. Tudo ali tinha uma parte dela.

Respirou fundo, abriu a porta e o sol da manhã bateu forte no seu rosto. O bairro já estava acordado: crianças com mochilas nas costas caminhando para a escola, pessoas abrindo as lojas, o cheiro de pão saindo da padaria da esquina, um senhor varrendo a calçada enquanto assobiava uma música antiga. Tudo parecia exatamente igual a todos os outros dias. Mas para Clara, nada nunca mais seria o mesmo.

Começou a andar rápido, depois a correr, a mochila batendo nas costas, o cabelo soltando mais fios, os olhos grudados no relógio a cada três passos. Quando finalmente avistou o ponto de ônibus, o coração dela despencou.

O veículo estava saindo devagar, as portas já fechadas.

- NÃO! ESPERA, POR FAVOR!

Gritou com toda a força que tinha, acenou com os dois braços, correu mais rápido do que conseguia, mas o motorista seguiu em frente, sem ouvir, sem ver. O ônibus dobrou a esquina e desapareceu.

Clara parou ali, ofegante, as mãos apoiadas nos joelhos, o peito doendo. Olhou para o céu azul, depois fechou os olhos e soltou um suspiro longo e cansado.

- Claro... tinha que ser comigo mesmo.

Não adiantava chorar. Não adiantava reclamar. O próximo ônibus só passaria em vinte minutos.

Sentou-se no banco de madeira do ponto, abriu o sanduíche e comeu devagar, olhando a vida passar na rua. Pensou em tudo: no medo, na ansiedade, na alegria que ainda parecia um sonho, na responsabilidade que carregava nos ombros, na mãe que ficara ali na porta esperando ela sumir de vista.

Talvez ela nunca fosse a pessoa mais organizada do mundo. Talvez continuasse perdendo horários, misturando meias, manchando roupas de tinta e deixando o quarto uma bagunça. Mas havia uma coisa que ninguém jamais poderia tirar dela: a vontade de desenhar o seu próprio caminho, a coragem de recomeçar mesmo quando tudo dava errado.

Quando o ônibus finalmente apareceu ao longe, Clara limpou a boca na manga da camiseta, ajeitou a mochila nos ombros, respirou fundo mais uma vez. Não sabia o que a esperava na Academia Belas Artes de Noctis, não imaginava que aquele primeiro dia iria mudar não só o seu futuro, mas todo o seu mundo. Mas naquele momento, ela tinha uma certeza:

Ela estava pronta. Mesmo bagunçada, mesmo atrasada, mesmo com o coração batendo descompassado.

Ela estava indo ao encontro do seu sonho. E não iria voltar atrás por nada.

Entre Traços E CaosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora