Para Yeon Si-eun, a escola não era um lugar de aprendizado; era um problema de física aplicado.
A trajetória dos punhos dos valentões, a densidade do ar em corredores lotados, o ângulo exato de uma cadeira para bloquear uma porta.
Tudo era cálculo. E, acima de tudo, o cálculo mais importante: a dosagem exata de seus supressores para que o mundo o visse apenas como um Beta comum e irrelevante.
Ele odiava ser percebido. Ser notado significava ser analisado, e ser analisado era o primeiro passo para ter seu segredo exposto.
Sentado no fundo da sala, Si-eun ajustou a gola da camisa. O dia estava abafado, úmido demais. O adesivo que ele usava na glândula do pescoço, projetado para conter qualquer rastro de feromônios, parecia estar perdendo a aderência devido ao suor.
Ele sentiu uma pontada de ansiedade, mas forçou seus batimentos cardíacos a desacelerarem.
Cinco segundos para inspirar. Cinco para expirar.
— Você está olhando para a página dez há dez minutos, Si-eun. A menos que a gramática tenha se tornado um exercício de meditação, acho que você está com algum problema.
A voz era descontraída, acompanhada pelo som de uma cadeira sendo arrastada sem cerimônia para o lado da dele.
Si-eun não precisou olhar para saber quem era. Ahn Su-ho. O Alfa que, para a infelicidade de Si-eun, parecia ter um sensor radar embutido para qualquer coisa que fugisse ao comum.
— Cuide da sua vida, Su-ho — Si-eun respondeu sem tirar os olhos do livro.
— Difícil quando meu instinto insiste em vibrar toda vez que você se aproxima — Su-ho respondeu, baixando a voz o suficiente para que apenas os dois ouvissem.
Ele se inclinou, o cheiro de madeira e ozônio — um cheiro Alfa quente, porém limpo — invadindo o espaço de Si-eun.
Si-eun sentiu um calafrio percorrer sua espinha, e seu corpo, traindo sua mente lógica, reagiu com um espasmo instintivo de submissão que ele odiou profundamente. Ele fechou o livro com um estrondo, irritado.
— Eu não preciso da sua atenção.
— Você não precisa, mas parece que seu corpo pede — Su-ho soltou uma risada baixa, mas o brilho em seus olhos não era de deboche. Era de uma observação cortante. — Seu adesivo está falhando. Eu consigo sentir o cheiro de chuva e eletricidade de novo. É um cheiro estranho para um "Beta".
Si-eun sentiu seu rosto queimar. O "vento" ao seu redor, aquele campo de força invisível que ele construíra para manter todos afastados, acabara de ser violado.
Ele se levantou abruptamente, a cadeira raspando contra o chão de azulejo, um barulho alto que fez a sala inteira silenciar por um segundo.
— Escute bem — Si-eun sussurrou, inclinando-se para Su-ho, seus olhos gelados encontrando os de Su-ho. — Se você quer manter sua paz, não diga isso de novo. Eu dou conta de mim mesmo.
Su-ho não se encolheu. Pelo contrário, ele abriu um sorriso preguiçoso, como se estivesse diante de uma diversão rara.
— Você dá conta de muita coisa, Si-eun. Mas, quando a tempestade chegar — e eu sinto que ela está perto —, você vai precisar de um lugar onde o vento pare. E eu pretendo ser esse lugar.
Si-eun deu as costas e saiu da sala, o coração disparado e o instinto gritando algo que ele se recusava a processar: ele não estava fugindo de Su-ho. Ele estava fugindo de si mesmo.
O banheiro do último andar era o único lugar onde Si-eun conseguia pensar.
O silêncio ali era quase absoluto, quebrado apenas pelo pingar ritmado de uma torneira mal fechada.
Ele trancou a porta da cabine com um clique metálico e encostou as costas na parede fria, deslizando até o chão.
Sua respiração estava errática. O cheiro de ozônio — metálico e cortante — parecia saturar o ar confinado da pequena cabine.
Suas mãos tremiam enquanto ele tateava o bolso interno da jaqueta, procurando o estojo de emergência.
Droga. Cadê?
Seus dedos encontraram o estojo, mas, ao puxá-lo, o conteúdo espalhou-se pelo chão úmido. O adesivo reserva, o inibidor em spray... tudo fora de alcance.
Um soluço seco escapou de sua garganta. Ele não chorava por tristeza; ele chorava de pura raiva por perder o controle. Ele era Yeon Si-eun, o garoto que calculava tudo. Por que seu corpo era uma variável tão imprecisa?
De repente, dois toques suaves, mas decididos, soaram na porta da cabine.
Si-eun congelou. O cheiro dele o denunciou antes mesmo de qualquer palavra. Madeira, sol e aquele rastro de ozônio que, ironicamente, agora parecia envolver o seu próprio.
— Eu sei que você está aí, Si-eun — a voz de Su-ho estava abafada pela porta, mas o tom era inconfundivelmente baixo e calmo. — E sei que você derrubou tudo.
— Vai embora, Su-ho — Si-eun sibilou, sua voz falhando. Ele tentou se levantar, mas as pernas cederam. — Eu não pedi sua ajuda.
— Você não precisa pedir. Você é um desastre quando está sob pressão, esqueceu? — Houve um silêncio breve. — Eu vou deixar os supressores debaixo da porta. E vou ficar aqui fora, de guarda. Ninguém entra.
— Por que você faz isso? — Si-eun perguntou, a pergunta saindo como uma confissão involuntária. — Por que você se importa com um Ômega que nem sequer deveria estar nesta escola?
Houve uma pausa longa. Pôde-se ouvir o som de Su-ho encostando as costas na porta da cabine, criando uma barreira sólida entre Si-eun e o resto do mundo.
— Talvez porque, em um mundo onde todo mundo tenta ser o mais forte ou o mais esperto, você é o único que é genuinamente real — Su-ho respondeu, com uma sinceridade que assustou Si-eun. — Agora, pega os supressores. Se você não se cuidar, esse seu cheiro vai atrair todos os Alfas do corredor, e eu não quero ter que quebrar mais narizes hoje.
Si-eun estendeu a mão trêmula para o vão sob a porta e sentiu os dedos de Su-ho roçarem levemente nos seus ao entregar o frasco de spray e o adesivo novo.
O contato foi eletrizante. Pela primeira vez, Si-eun não sentiu o medo habitual de ser descoberto; ele sentiu, quase assustadoramente, uma sensação de segurança.
— Depois que você terminar — a voz de Su-ho voltou a ficar relaxada, com aquele toque de humor habitual —, você pode sair e me agradecer comprando um almoço. Ou, se preferir, pode continuar me odiando.
Mas, por favor, só certifique-se de que o adesivo esteja bem colado desta vez. O vento aqui fora está começando a ficar muito forte para você.
Si-eun encostou a cabeça na porta, fechando os olhos. O Alfa estava ali, do outro lado, bloqueando o mundo inteiro. Pela primeira vez em meses, o vento ao redor dele parou.
ESTÁS LEYENDO
Onde o vento para | ShSe | ABO
Fanfiction"Eles eram opostos em tudo, exceto na forma como o destino (e os feromônios) insistia em uni-los."
