Naquela noite, eu estava feliz. Era um sentimento tão raro e tão leve que quase me fazia acreditar que o universo tinha decidido, por um instante, descansar as tempestades que sempre pareciam me acompanhar.
Virei o rosto para o rapaz sentado ao meu lado. Os seus olhos azuis, tão claros quanto o mar em dias de verão, encontraram os meus sem esforço. Desde o dia em que nos conhecemos, ele dizia que os meus olhos tinham a cor do pôr do sol. Eu sempre ria daquela comparação, mas ele insistia que nunca tinha visto um castanho tão quente, tão dourado, como se o céu tivesse escolhido esconder o último raio de luz dentro deles.
- Estás a olhar outra vez.
- sorri.
- Nunca me vou cansar.
Corei, desviando o olhar para a estrada.Os meus cachos castanhos estavam soltos naquela noite, caindo livremente sobre os ombros, algo que eu quase nunca fazia. O vento que entrava pela janela aberta fazia alguns fios dançarem ao redor do meu rosto. Vestia um longo vestido lilás, delicado, que se movia suavemente sempre que o carro fazia uma curva. Era uma das poucas vezes em que me sentia bonita sem precisar fingir perfeição.
A mão dele encontrou a minha.
Os seus dedos entrelaçaram-se nos meus com tanta naturalidade que parecia que tinham sido feitos para isso. Com a outra mão, segurava o volante do carro desportivo vermelho.
Não era um carro qualquer.
Era o primeiro carro que ele tinha desenhado. O primeiro projeto que saiu do papel. A concretização do sonho que carregava desde criança.
Vermelho. A sua cor favorita.
Cada detalhe daquele automóvel contava um pedaço da história dele.
Estávamos a percorrer a estrada costeira de Newport, regressando para a casa junto ao mar onde passaríamos alguns dias.
O oceano estendia-se ao nosso lado, escuro e infinito.As ondas batiam contra os penhascos com uma força quase hipnótica.
Sempre amei o mar. Quando o meu coração insistia em lembrar-me que era diferente, era ali que eu encontrava paz. O som das ondas fazia-me esquecer, por alguns instantes, a síndrome que carregava desde o nascimento e que fazia toda a minha família olhar para mim como se eu fosse feita de vidro.
Naquela noite, porém, eu não queria pensar na doença.
Queria pensar apenas nele.
No jantar que acabáramos de ter. No anel que agora brilhava discretamente no meu dedo. No facto de estarmos noivos. As reações das nossas famílias não tinham sido exatamente como sonhávamos.
Os nossos pais trocaram olhares frios. As palavras foram cuidadosamente escolhidas, mas escondiam décadas de rivalidade.
Nenhum deles celebrou. Nenhum deles sorriu verdadeiramente.
Mas nós sorrimos.
Porque acreditávamos que o amor podia vencer tudo.
Que duas pessoas podiam quebrar guerras iniciadas por gerações anteriores.
Éramos jovens. E, talvez por isso, ainda acreditássemos que o mundo podia ser salvo.
As primeiras gotas de chuva começaram a cair sobre o para-brisas. O limpa-vidros moveu-se lentamente.
Depois outra gota. E outra.
O céu escureceu ainda mais.
Foi então...
Que tudo aconteceu.
Uma pancada violenta atingiu a traseira do carro.
O impacto lançou-nos para a frente.
- Segura-te!
Os pneus perderam completamente a aderência.
Ouvi o som do asfalto a desaparecer debaixo de nós.
O carro girou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Durante um segundo...
Ou talvez uma eternidade...
Ficámos suspensos no ar. O tempo parou.Olhei para ele.
Ele olhou para mim.
Nenhum de nós gritou.
Depois...
A gravidade venceu.
Enquanto caíamos, outro estrondo ecoou atrás de nós.
Outro carro.
Outro impacto.
Mas já era tarde demais para perceber o que estava a acontecer. A água.
Nunca pensei que a água pudesse ser tão dura. O carro atingiu o oceano com uma violência impossível de descrever. Senti o meu corpo ser lançado contra o banco.
Depois...
Uma dor.Uma dor tão intensa que parecia rasgar cada parte de mim.O meu pescoço ardia. Olhei para baixo. Um pedaço de ferro atravessava-o. O sangue misturava-se lentamente com a água gelada que começava a invadir o carro.
Instintivamente, tentei mover a mão.
- Não.
A voz dele.
Calma.
Serena.
A mesma voz que sempre conseguia acalmar o caos dentro de mim.
- Olha para mim.
Os nossos olhares voltaram a encontrar-se.Ele tinha conseguido posicionar-se de forma que eu pudesse vê-lo sem mover a cabeça. Eu sabia.Se me mexesse...
Morreria.Os seus olhos estavam diferentes.
Pela segunda vez desde que o conhecia, vi medo neles.
Medo verdadeiro. A água já nos chegava à cintura. O meu pé estava preso entre as ferragens. Eu não conseguia sentir os dedos.
Só conseguia sentir frio.
Muito frio.
Ele continuava a olhar para mim.E, enquanto a água subia lentamente, a minha mente começou, de forma estranha, a recordar o primeiro dia em que nos conhecemos.Como se o meu coração tivesse decidido revisitar a origem da nossa história antes que ela terminasse.Não sei quanto tempo passou.
Segundos.
Minutos.
Horas.
Tudo parecia desfocado.
Até ouvir sirenes. Gritos.
Luzes vermelhas refletidas na chuva. Depois, o som de uma serra cortando metal.
Mãos desconhecidas. Vozes dizendo para eu permanecer acordada. Vi levarem-no primeiro.
Quis chamar por ele.
Quis dizer o nome dele.
Quis dizer que o amava.
Mas...
Nenhum som saiu.
A minha voz tinha desaparecido.
Enquanto era colocada numa maca, a chuva misturava-se às lágrimas que já não conseguia controlar.
Foi naquela noite que descobri a verdade mais cruel da vida. Às vezes, basta um único instante...
...para tudo aquilo que amamos deixar de existir.
E, sem que eu soubesse, aquela não era apenas a noite em que perdi o amor da minha vida.Era a noite em que o destino de dois desconhecidos se cruzava para sempre.
Porque, muito antes de eu compreender o que realmente aconteceu naquele penhasco...
Alguém já tinha decidido quem viveria.
E quem morreria.
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O luto que nos une
RomanceHá pessoas que entram nas nossas vidas para ficar. Outras partem cedo demais, deixando apenas memórias, perguntas e um vazio difícil de preencher. Na noite em que tudo terminou, o destino escreveu uma história que ninguém estava preparado para viver...
