Vila dos Anjos, 2006
Existem lugares onde o tempo parece nunca passar.
Vila dos Anjos era um deles.
As manhãs sempre começavam do mesmo jeito. O cheiro de café fresco escapava pelas janelas de madeira, o canto dos galos atravessava os morros e a neblina permanecia deitada sobre as plantações até que o sol decidisse tomá-las de volta. As estradas eram de terra batida, riscadas pelos pneus de tratores e carroças que passavam todos os dias pelos mesmos caminhos, nos mesmos horários, como se toda a vila obedecesse a uma rotina silenciosa.
Ali, quase nada mudava.
E era justamente por isso que ninguém imaginava que aquele sábado seria lembrado para sempre.
Luan Victor acordou antes mesmo que a avó o chamasse.
Tinha sete anos, era baixinho, de pele parda e cabelos cacheados que insistiam em cair sobre a testa sempre que corria. O pequeno espaço entre os dentes da frente aparecia toda vez que sorria, e ele sorria por quase tudo.
Naquela manhã, como em quase todos os sábados, levantou animado.
Gostava de acompanhar a avó até a feira da cidade.
Enquanto ela preparava os doces na cozinha desde antes do amanhecer, Luan observava tudo sentado sobre um banquinho de madeira, roubando uma cocada sempre que ela fingia não perceber.
- Menino... - dizia ela sem sequer olhar para trás. - Se continuar beliscando desse jeito, vou chegar na feira sem mercadoria.
Ele apenas ria.
Sabia que ela deixava.
Era quase uma tradição entre os dois.
Quando o relógio da parede marcou pouco depois das sete, a mulher colocou cuidadosamente as broas, as cocadas e os pedaços de rapadura dentro de uma cesta de palha, cobrindo tudo com um pano xadrez.
- Consegue levar?
Luan estufou o peito.
- Consigo.
- Tem certeza? Está pesada.
- Eu já levei outras vezes.
Ela sorriu.
- Então vá na frente. Eu termino de organizar as coisas e encontro você lá na barraca.
Ele segurou a cesta com as duas mãos.
Pesava mais do que gostaria de admitir.
Ainda assim, saiu de casa com o mesmo orgulho de sempre.
A feira ficava na cidade, depois dos morros que cercavam a Vila dos Anjos. O caminho era longo, mas Luan já o conhecia de cor. Fazia aquele trajeto praticamente todos os sábados.
Cumprimentava quem encontrava pelo caminho.
Chutava pequenas pedras.
Parava para observar passarinhos pousados nas cercas.
Às vezes imaginava que, quando crescesse, compraria uma bicicleta vermelha para nunca mais precisar fazer aquele percurso a pé.
Naquela manhã, porém...
alguma coisa parecia diferente.
Talvez fosse apenas impressão.
Talvez fosse o vento.
Ou talvez fosse o silêncio.
Os passarinhos haviam parado de cantar.
Até os insetos pareciam ter desaparecido.
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As crianças da capa vermelha
ActionToda cidade tem uma história que os adultos evitam contar. Na Vila dos Anjos, ela começava às cinco da tarde. Era nesse horário que o Canal 00 deixava de ser apenas uma tela tomada por estática. Por quinze minutos, nenhuma vinheta. Nenhum anúncio. N...
