Eu não lembro do momento exato em que eu decidi correr.
Só lembro do som.
Passos.
Gritos.
Meu nome sendo chamado como se eu não fosse uma pessoa... mas uma propriedade tentando escapar.
O vestido vermelho pesava como se estivesse tentando me puxar de volta. Cada camada de tecido era luxo. Mas, naquele momento... parecia algema.
Eu corri.
Segurando a barra do vestido com força, como se isso fosse impedir o mundo de me alcançar. O salto batendo no chão molhado da rua. O vento arrancando parte do meu penteado.
Fios soltos caindo no meu rosto.
Maquiagem começando a quebrar.
Eu devia estar linda.
Noiva perfeita.
Entrega final.
Mas tudo em mim gritava errado.
Eu olhei pra trás.
E vi eles.
Três homens.
Capangas da Lua Carmesim.
Eles não corriam como pessoas normais.
Eles caçavam.
E isso foi o que me fez correr mais rápido.
Meu coração batia tão forte que eu achei que fosse sair pela garganta.
-VOLTA! -A voz ecoou atrás de mim.
Mas eu não voltei.
Eu nunca mais voltaria.
A rua parecia infinita.
Luzes da cidade borradas.
Carros passando como sombras.
Tudo em câmera lenta na minha mente... mas rápido demais na realidade.
Eu só pensava uma coisa:
não me deixa voltar.
não me deixa voltar.
não me deixa voltar.
Foi então que eu virei a esquina.
Rápido demais.
E bati em alguém.
Forte.
O impacto me fez perder o ar.
O mundo girou por um segundo.
E mãos firmes seguraram meus braços antes que eu caísse.
Seguros demais para alguém que parecia tão errado naquele momento.
O impacto me tirou o ar por um segundo.
E quando consegui respirar de novo... eu levantei o olhar.
E vi ele.
Um homem desconhecido.
Perigoso de um jeito silencioso.
Cabelos negros, caindo levemente sobre a testa, como se o caos ao redor dele nunca conseguisse encostar.
O rosto era bonito demais pra ser ignorado... mas frio demais pra ser confiável.
Um olhar escuro.
Profundo.
Daqueles que não pedem permissão pra invadir ninguém.
No canto da boca, um detalhe sutil - uma pequena marca que só deixava tudo mais impossível de esquecer.
Eearrings discretos refletindo a luz da rua.
E ali, por um segundo... eu tive certeza de uma coisa:
aquele homem não pertencia ao mundo comum.
Ele pertencia a algo maior.
E mais perigoso.
Atrás de mim, passos.
Gritos.
-ELA ESTÁ ALI! -Meu corpo travou.
O pânico voltou inteiro.
Eu tentei me afastar, mas ele segurou meu braço com calma, como se eu não fosse uma ameaça... nem uma escolha difícil.
-Você tá fugindo de quem? -ele perguntou.
A voz dele não era alta.
Mas dominava tudo ao redor.
Eu engoli seco.
-Por favor... minha voz saiu quebrada. -Eu não posso voltar com eles.
Ele olhou por cima do meu ombro.
Só um segundo.
E foi o suficiente.
Como se ele entendesse tudo sem precisar de explicação.
Eu não sabia quem ele era.
Mas eu sabia o que ele não era.
Ele não parecia assustado.
Ele parecia... acostumado.
Como se aquilo já tivesse acontecido antes.
E isso foi pior.
Ele abriu a porta de um carro preto ao lado dele com um movimento calmo da mão.
-Entra.
Eu pisquei.
-Você não vai....
-Entra.
A palavra cortou minha frase no meio.
Não foi grito.
Não foi ameaça.
Foi decisão.
Os passos ficaram mais próximos.
Eu não pensei.
Eu entrei.
Ele entrou logo depois.
E a porta fechou com um som seco.
Definitivo.
-Vai -ele disse.
O motorista acelerou.
E a rua explodiu em movimento.
Eu me encostei no canto do banco.
O vestido vermelho ocupando espaço demais.
Minha respiração falhando.
Lágrimas surgindo sem permissão.
Maquiagem quebrando.
Eu não era mais uma noiva.
Eu era uma fuga.
Ele não olhava pra mim.
Só pra frente.
Mas a presença dele preenchia o carro inteiro.
Pesada.
Constante.
Perigosa.
Depois de alguns segundos, ele falou:
-Eles não estão te perseguindo por diversão. -Eu fechei os olhos.
-Eu não fiz nada...
Ele finalmente virou o rosto pra mim.
Só um pouco.
O suficiente pra me fazer sentir pequena.
-Todo mundo que foge... sempre acha isso.
Silêncio.
E pela primeira vez desde que tudo começou...
eu percebi algo que me arrepiou por dentro.
Eu não tinha sido salva.
Eu tinha sido levada por alguém que conhecia esse tipo de fuga melhor do que eu.
O carro continuava atravessando as ruas iluminadas de Seul.
Ninguém dizia uma palavra.
Eu permaneci encolhida no canto do banco, abraçando o próprio corpo enquanto as lágrimas escorriam sem que eu tivesse forças para enxugá-las.
Meu vestido vermelho já não parecia um vestido de noiva.
Parecia uma lembrança de tudo aquilo que eu tentava deixar para trás.
Fechei os olhos por alguns segundos.
As imagens começaram a surgir uma após a outra.
Minha infância.
O olhar frio do meu pai.
A marca gravada em meu ombro desde o dia em que nasci.
"Ela pertence ao Rei da Lua Carmesim."
Foi isso que ouvi durante toda a minha vida.
Nunca fui tratada como filha.
Eu era uma dívida.
Uma promessa.
Uma moeda de troca.
Meu pai dizia que aquela marca havia salvado nossas vidas.
Mas, para mim... ela sempre significou o fim da minha liberdade.
Quando completei dezoito anos, a data do casamento foi marcada.
Ninguém perguntou se eu aceitava.
Ninguém perguntou o que eu queria.
Minha vida já havia sido vendida muito antes de eu aprender a escolher.
As lágrimas continuavam caindo.
Eu não fazia ideia de para onde aquele homem estava me levando.
Não sabia quem ele era.
Não sabia se podia confiar nele.
Tudo o que eu sabia era que não podia voltar.
Jamais.
O cansaço começou a pesar sobre minhas pálpebras.
Meu corpo inteiro doía.
Minha respiração foi ficando lenta.
Sem perceber, minha cabeça acabou tombando para o lado.
A última coisa de que me lembro foi sentir um calor confortável ao meu lado... e, logo depois, a escuridão tomou conta de tudo.
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Entre Duas Luas
FanfictionVendida pelo próprio pai para a organização mais perigosa da Coreia, S/n sempre soube que sua vida nunca lhe pertenceu. Marcada desde o nascimento com uma lua vermelha cercada por flores de cerejeira negras, ela foi prometida ao futuro Rei da Lua Ca...
