POV SANA
A arte deveria ser subjetiva, mas as obras do KingPun são objetivamente boas. Já a minha é objetivamente capenga, e na pior hora possível: neste momento eu preciso estar no meu melhor para entrar no programa de verão da CalArts, que é simplesmente a faculdade dos meus sonhos.
"Ao seu critério de escolha, mostre o seu momento mais feliz"
- Tá de sacanagem comigo? Mas que tema vago e absurdo. - Falo indignada enquanto olho para o computador.
Um tema vago e absurdo que vai determinar se eu tenho alguma chance de conseguir uma vaga em uma das universidades mais competitivas do país, o que vai determinar se eu tenho futuro na arte ou não.
- Mas sem pressão. - Falo, levantando da cama e pegando meu tablet.
Então como eu respondo à pergunta mais impossível de todas? E se esse momento mais feliz foi quando me assumi para a minha mãe?
8 anos atrás
- Pronto, agora vire à direita. - Falo, olhando para o manual. - E também... acho que eu sou gay. Na verdade, eu tenho certeza.
Minha mãe, que estava consertando o cano, acabou batendo a cabeça na pia ao levantar o rosto.
- Ai... A Bárbara aqui do lado é gay. - Diz minha mãe, erguendo a cabeça para me olhar. - Desculpa, foi o meu instinto citar outras pessoas gays que conhecemos. - Fala minha mãe. - Estou tão feliz por você! - Diz ela, levantando a mão para bater palma com a minha.
Ela sempre me deu todo o apoio do mundo.
ATUALMENTE
- Sana? Sana! - Acabo de sair do transe e vejo minha mãe no meu quarto. - Ah, qual é? Nada de maconha antes da aula, combinamos isso! E a Nayeon já está chegando, você vai se atrasar.
- E se eu pulasse o resto do ensino médio e fosse direto para a CalArts? - Me levanto e vou direto para o meu closet.
- Poderia, sim... Mas aí não vai ganhar um monte de coisinhas legais que eu comprei para você. - Fala minha mãe, mexendo no bolso traseiro da calça.
- Já estou com medo.
- Deixa de ser boba, olha só. - Ela mostra pacotes de... camisinhas? - Camisinhas que brilham no escuro! Elas deixam a sua xoxota brilhar, é tão lindo... Só um brilho suave, claro.
- Mãe! - Falo, voltando até ela.
- Quando eu era adolescente... - Lá vem história. - A gente usava essas camisinhas que brilham no escuro, e isso dava um toque de leveza em uma situação que sempre era tensa.
- Mãe, a gente não usa essas coisas. - Falo, já cansada de ouvir esse tipo de conversa.
- "A gente"? Até que enfim! Aí, caramba, Sana... É a vizinha aqui do lado? Porque ela é tão alta, eu gosto! É imponente. - Fala minha mãe, toda animada.
- Meu Deus, mãe, não é ninguém! É que na comunidade queer não usa essas coisas. - Explico, olhando indignada para ela.
- Quer dizer que só vibradores? Isso não é um pouco limitado?
- Provavelmente. - Concordo, só para acabar logo com esse assunto.
- Bom, então tá. Vou deixar aqui na sua estante, caso mude de ideia. - Diz ela, guardando os pacotes. - Se precisar de mais, avisa, porque eu tenho a notinha da loja.
Tá... Talvez ela me apoie até demais.
- AI SANA! - Escuto a buzina do carro lá fora.
É a minha melhor amiga Nayeon, minha alma gêmea platônica. Sempre compartilhei tudo com ela - talvez esse tenha sido o meu momento mais feliz.
12 anos atrás
Eu estava sentada no balanço do parque, ao lado da Nayeon, comendo Cheetos.
- Então... eu gosto de garotas. - Falo, lambendo os dedos cobertos de queijo.
- Eu também. - Responde Nayeon, me oferecendo mais um punhado de salgadinho.
Até hoje dividimos tudo, inclusive a conta do Spotify.
ATUALMENTE
Assim que abro a porta do carro, vejo Momo, Mina e Chaeyoung estão todas acomodadas no banco de trás.
- Aí, o Spotify disse que você ouviu Phoebe Bridgers por oito horas seguidas. O que é preocupante, já que ela só tem dois álbuns... Você está bem? - Pergunta Nayeon, enfiando mais um Cheetos na boca.
- Música lésbica de sofrência é parte integral da minha identidade. - Respondo, fechando a porta e me acomodando no banco.
- Então suponho que a inscrição não está indo nada bem. - Diz Chaeyoung.
- É que... eu não sei o que enviar. E sei como as faculdades amam histórias de garotas que se assumem. - Falo, mexendo sem parar no meu tablet.
- Para com isso! Que tal você desenhar o meu retrato como presidente estudantil? - Brinca ela, piscando para mim.
- Até que é uma ideia legal, Nay... Mas suas ambições políticas não são o meu momento mais feliz, entende?
- Claro, claro... Mas acha que a sua paixão pela Park Jihyo é digna da CalArts? - Nayeon cai na risada, escandalosa como sempre.
- O quê? Amor não correspondido é fonte de muita arte boa! - Me defendo, sentindo o rosto esquentar.
E nada é menos correspondido do que a minha paixão pela Park Jihyo.
7 anos atrás
Era uma tarde ensolarada de primavera, e a sala de aula estava cheia de desenhos coloridos pregados nas paredes.
Eu estava sentada ao lado da irmã da Jihyo, a Park Tzuyu. Quando o lápis dela quebrou, ela se levantou para apontar.
- Certo, crianças! Tá na hora do projeto desta semana: formem duplas. - Anuncia a professora, pegando uma caixa cheia de ovos de galinha.
- Você quer ser minha dupla? - Pergunta uma voz que surge do nada.
Essa é a Jihyo
- Claro! - Respondo, vendo ela se sentar ao meu lado.
- Como vamos chamar o nosso ovo? - Pergunta ela.
- Que tal... Lentilha?
- Lentilha, o ovo... Tão bobo... Adorei! - Fala Jihyo, sorrindo. - As suas mães vão te amar muito. - Completa, colocando a mão por cima da minha.
ATUALMENTE
Ela foi a primeira garota que me fez achar que a vida poderia ser tão bonita quanto a arte. Entendem? - Pergunto para as meninas.
- Amor não correspondido até inspira coreografias incríveis, mas não resolve o que a banca quer ver. - Diz Momo, se inclinando um pouco para frente. - Pensa direito: não precisa ser algo grandioso ou romântico! É só o que realmente fez os seus olhos brilharem de verdade.
- A Momo tem toda razão. - Diz Mina, com a sua voz calma, olhando pela janela. - Muitas vezes a gente busca algo enorme, mas o momento mais especial é aquele pequeno, que guardamos com carinho sem nem perceber.
- E além disso... - Completa Chaeyoung, batendo levemente no encosto do meu banco - você desenha com muito mais verdade quando fala de coisas que te fazem bem. Se vier do coração, vai ficar perfeito, não importa o que escolher. Se precisar, a gente bate um papo e organiza as ideias juntas!
- Obrigada, meninas... - Suspiro, mas ainda sinto o coração apertado. - Mas ainda não faço ideia do que seja esse momento.
- Pode parando aí. - Nayeon estala os dedos na minha frente. - Não vou deixar a minha melhor amiga passar o ensino médio chorando por uma garota que não tá nem aí para você. - Ela desvia o olhar da estrada por uns três segundos só para me encarar firme.
- EI, OLHA A ESTRADA! - Gritamos quase ao mesmo tempo.
- Calma, sou uma motorista excelente! E além disso: se estão comigo, estão com Deus! - Diz Nayeon, dando de ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo.
- Se Deus viu você pegando a chave do carro ontem, acho que ele já tá ocupado com outra coisa. - Resmunga Momo, apertando o cinto de segurança até quase sumir.
- Então é melhor eu começar a rezar agora. - Murmura Mina, fechando os olhos rapidamente antes de abri-los bem para o trânsito. - Amém.
- Ou já escrevo o epitáfio no meu caderno mesmo. - Brinca Chaeyoung, mostrando uma página em branco. - "Agradeço à Nayeon por ter me levado mais rápido do que eu esperava".
- Suas ingratas! - Nayeon ri, mas acaba freando mais devagar para não nos assustar. - Voltando o assunto, você sabe que eu não uso todo o meu poder de presidente estudantil, mas se continuar assim vou ter que usar!
- A Jeongyeon vai ganhar essa eleição. - Falo, e Nayeon fica de boca aberta, sem palavras.
- Além disso, você sabe que presidente estudantil não tem poder de verdade, né? - Digo, olhando para ela.
- Traidora! Que jeito triste de ver a democracia. - Resmunga, voltando a comer Cheetos.
Sorrio de lado, olhando para as três no espelho retrovisor. Com certeza vai ser um dia longo.
YOU ARE READING
CRUSH: AMOR COLORIDO - SATZU
FanfictionSana sempre acreditou que seu coração pertencia a Jihyo, a garota mais admirada da escola. Alegre e criativa, ela começa um novo ano letivo cercada por suas melhores amigas - Nayeon, Jeongyeon, Momo, Mina, Dahyun e Chaeyoung - enquanto tenta encontr...
