Kalid
Youssef pediu uma reunião privada.
Não por meio de um secretário. Não por escrito.
Pessoalmente.
Vindo dele, isso equivale a um sinal de fumaça surgindo no meio de uma cidade.
Aceito.
Recusar seria admitir que ele me preocupa.
E ele me preocupa.
O gabinete reservado fica na ala leste do palácio.
Meu pai escolheu esse cômodo para reuniões que jamais apareceriam em qualquer ata oficial.
Eu o mantive pelo mesmo motivo.
Quando entro, Youssef já está lá.
De pé.
Outro sinal.
Quem espera sentado chegou antes e se acomodou.
Quem espera em pé está pronto para partir... ou para atacar.
— Alteza. — Ele inclina discretamente a cabeça. Um gesto respeitoso na forma, e nada além disso.
— Youssef.
Caminho até a janela e permaneço de costas para ele durante exatamente três segundos.
Tempo suficiente para deixar claro que não tenho pressa.
— Você pediu esta reunião. O tempo é seu.
Ele cruza as mãos atrás das costas.
— Os representantes das províncias do norte me procuraram depois do conselho.
— Eu sei.
Uma breve pausa.
— Sabe?
— Soube antes do jantar. — Viro-me para encará-lo. — Continue.
Ele reajusta a postura.
Quase imperceptível.
Para a maioria.
Não para mim.
— Estão insatisfeitos com o ritmo das mudanças, Alteza. Não com as mudanças em si — acrescenta rapidamente, como se temesse que eu confundisse as duas coisas. — O problema é a ausência de consulta prévia. O conselho existe para que decisões dessa magnitude sejam debatidas antes de serem executadas, não depois.
Deixo o silêncio respirar.
— Está me dizendo que destituir um homem que mantinha crianças em condições de escravidão deveria ter sido submetido a votação?
— Estou dizendo que o processo importa tanto quanto o resultado.
— Importa para quem o processo protege.
Ele sequer pisca.
— O senhor corre o risco de afastar os aliados de que precisará quando chegar o momento de consolidar o trono. Governar sozinho é uma ilusão que seduz reis jovens... e os destrói.
Dou dois passos em sua direção.
Sem pressa.
Sem qualquer ameaça aparente.
— Youssef.
Paro perto o bastante para que minha voz permaneça baixa.
— Você serviu ao meu avô. Serviu ao meu pai. Me viu nascer, crescer e voltar do exterior com ideias que lhe tiraram o sono durante semanas.
Faço uma breve pausa.
— Então me faça o favor de não me tratar como alguém que não percebe o que está fazendo.
Pela primeira vez, algo muda em seu rosto.
Não é surpresa.
É recalibração.
— Não sei ao que o senhor se refere.
— Foi você quem procurou os representantes antes que eu pudesse. Enquadrou minhas decisões como impulsividade. Plantou a ideia de que sou instável.
Sustento seu olhar.
— É uma estratégia antiga. Funciona com reis inexperientes. Comigo, vai funcionar muito menos do que você espera.
YOU ARE READING
Areias do Tempo
General FictionEntre as dunas infinitas do deserto, onde os ventos sopram segredos antigos e as tradições são inquebráveis, vive Amira - uma jovem moldada pelas leis rígidas de sua tribo nômade. Crescida entre mercadores de cavalos e camelos, ela conhece o valor d...
