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Prólogo

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          Quando me pego pensando em Poughkeepsie, eu sinto o cheiro da minha casa. Ela era velha, não tanto para ser considerada um artefato histórico, mas o suficiente para você sentir o cheiro de mofo quando o inverno ficava mais úmido. O aquecedor não funcionava direito, as janelas estalavam quando abertas e o piso foi trocado duas vezes, mas sempre voltava a ranger. 

          Eu morava num típico bairro, com as casas bem arrumadas - ei, não é porque minha casa era velha que ela era feia, ok? - as cercas brancas no jardim, os carros simples na garagem. No halloween pedíamos doces e nenhum de nós foi sequestrado, no natal acendíamos velas na rua para iluminar o caminho do Papai Noel. Toda essa bobagem infantil que a gente odeia quando vira adolescente e ama quando entra na vida adulta.

          Poughkeepsie não era notável, nem linda, era só Poughkeepsie, mas claro que eu não veria beleza nela depois de tantos anos afundado nas escolas, só lendo e se preparando para vestibulares e toda aquela besteira acadêmica que nunca combinou comigo. 

          Meu sonho sempre tinha sido ser grande. Eu me olhava no espelho e imaginava como seria estar em um palco cantando, ou como era assistir seu próprio filme no cinema. Eu fazia discursos no chuveiro, usando o frasco de shampoo como microfone, acenando enquanto agradecia pelo prêmio de melhor cantor ou ator do ano. Na minha cabeça eu ia fazer muito sucesso, mas temos que ser pé no chão.

          Por isso, quando completei meus catorze anos e entrei na Poughkeepsie High School, decidi que queria me formar e virar veterinário. Nada mal, né?

          Foi naquele ano que os Foster se mudaram para a Califórnia e a casa do Michael ficou vazia por alguns meses. Nós não éramos melhores amigos, mas convivíamos juntos desde criança, ele tinha me ajudado a fazer uma maquete do sistema solar para a feira de ciências quando tínhamos dez anos, e eu ganhei o terceiro lugar. 

          Naquele verão, um pouco antes da gente voltar às aulas, uma família se mudou. Eu já tinha visto eles na cidade, mas não os conhecia. Minha mãe disse que eram uma boa família e que o pai, Yaser, tinha conseguido emprego como segurança no banco da cidade, por isso eles tinham comprado a casa dos Foster. Os Malik tinham quatro filhos: Doniya, que já estava na faculdade, Zayn, que ia na Poughkeepsie High School, Waliyha e Safaa, que eram mais novas e ainda estavam no fundamental. Minha mãe, depois de especular muito a vida alheia com as amigas no salão, que me deu a informação.

          Faziam dois anos que eu tinha me descoberto ômega, assim como meu melhor amigo Louis, então alguns alfas me chamavam um pouco de atenção, e Zayn era um deles. Não que eu já tivesse feito alguma coisa no sentido sexual, eu só imaginava como seria. Por muitas vezes me peguei espionando ele pela janela do meu quarto, escondido entre as cortinas enquanto ele lavava o carro do pai ou ensinava a irmã mais nova a andar de bicicleta. O auge tinha sido quando ele e um amigo ficaram jogando basquete na frente da garagem, em pleno verão. Uma pena que meu irmão tenha me visto admirando aquela cena e tenha feito piada disso durante bons anos.

          O primeiro dia de aula foi como deveria ser: um completo saco. Felizmente Louis e eu nos safamos dos trotes, porque ele tinha uma fama não muito boa de ter dado para o time de futebol inteiro, então eles não nos incomodaram. Louis nunca me disse se aquilo era verdade, mas usava o fato com muita credibilidade. Isso também nos gerava bastante estresse, como o nosso grudento Bryan, que ficava dando em cima da gente o tempo todo e nos apalpando, como se não fossemos nada além de objetos. As maravilhas de ser um ômega.

          A primeira semana foi corrida, e só depois de um mês eu descobri que Zayn tinha uma aula comigo. Ele era mais velho, tinha quase dezesseis já, mas tinha reprovado em sociologia, o que me deu boas visões dele fazendo anotações e rindo com o amigo ruivo dele. Passei a maior parte das aulas assistindo os movimentos maravilhosos que ele fazia.

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