O ar no quarto parecia ter se transformado em chumbo. Petúnia Evans acordou com um sobressalto, o peito subindo e descendo violentamente, enquanto o suor frio colava os lençóis de algodão à sua pele de treze anos. Ela não gritou — sua garganta estava travada pelo terror —, mas as lágrimas desciam quentes e descontroladas, ardendo em seus olhos.
Sua mente parecia uma tela de cinema rasgada, onde imagens violentas e desconexas piscavam em uma velocidade insuportável.
Um clarão de luz verde-esmeralda que iluminava as paredes de um berço. O corpo de sua irmãzinha, Lily, caído de mau jeito no chão, os cabelos ruivos espalhados como sangue e os olhos verdes opacos, olhando para o nada. Um homem de cabelos longos e negros, chorando sobre o cadáver. Um castelo em chamas. Jovens gritando. Monstros encapuzados que sugavam a alma. E, pairando sobre toda aquela miséria, um par de olhos azuis por trás de óculos de meia-lua, gélidos e calculistas sob uma barba infinitamente longa e branca. Um homem que observava o massacre com a tranquilidade de quem move um peão em um tabuleiro de xadrez.
Petúnia levou as mãos à cabeça, cravando os dedos nos cabelos castanhos.
— Um pesadelo... foi só um pesadelo — ela sussurrou para a escuridão do quarto, a voz trêmula.
Mas não parecia um pesadelo. A dor no peito era real. O cheiro de ozônio e morte que sentira na mente ainda parecia impregnado em suas narinas. Ela passou o resto da madrugada acordada, encolhida na cama, olhando para a janela enquanto o céu de Cokeworth mudava lentamente do preto para o cinza pálido da manhã industrial. *Eu enlouqueci*, pensava. *A esquisitice da Lily está me afetando. É isso.*
Quando o relógio na parede marcou sete horas, Petúnia se forçou a levantar. Lavou o rosto com água gelada, tentando apagar as olheiras profundas e o palor cadavérico. Ela precisava ver a rotina. Precisava da normalidade para se curar daquela loucura.
Ao descer as escadas, o cheiro de torradas e café fresco a recebeu. Na cozinha, a cena era perfeitamente comum. Seu pai lia o jornal da manhã, sua mãe cantarolava enquanto mexia os ovos na frigideira, e Lily — com seus irritantes e fascinantes onze anos — tentava fazer uma colher flutuar um centímetro acima da mesa, rindo quando a mãe a repreendia brandamente.
— Bom dia, Petunia querida — disse a mãe, olhando de relance. — Céus, você está pálida! Dormiu mal?
— Estou bem — Petúnia mentiu, sentando-se à mesa. Seus olhos se fixaram em Lily. Ver a irmã viva, saudável e sorrindo fez um nó apertar sua garganta. *Ela vai morrer. Vão matá-la em um quarto de bebê*, a voz em sua mente repetiu.
Para se distrair, Petúnia esticou o braço e ligou o pequeno aparelho de televisão que ficava no canto do balcão da cozinha. A imagem em preto e branco chiou antes de focar no âncora do telejornal local.
*"...e começamos o dia com uma notícia trágica vindas das rodovias do sul. Nas primeiras horas desta manhã, um grave acidente envolvendo um caminhão de carga e um ônibus de turismo na estrada de ferro resultou em quatro fatalidades confirmadas e..."*
O garfo caiu da mão de Petúnia, batendo contra o prato de porcelana com um estalo agudo.
O mundo ao redor dela pareceu perder o som. O jornalista na TV usava exatamente as mesmas palavras. O número de mortos era o mesmo. O nome da rodovia era o mesmo. A imagem do caminhão retorcido na tela era idêntica ao flash secundário que ela tinha visto em sua mente poucas horas antes, um detalhe insignificante no meio do massacre bruxo.
Não tinha sido um pesadelo. Ela não estava louca.
Sua mente, sem que ela jamais tivesse acendido uma única faísca de magia nas pontas dos dedos, tinha rasgado o véu do tempo. Ela era uma trouxa. Uma garota comum de uma cidade cinzenta. Mas ela via.
Petúnia olhou novamente para Lily, que agora mastigava uma torrada, completamente alheia ao fato de que já era uma condenada à morte pelo mundo que tanto ansiava conhecer. Olhou para o futuro e viu que o garoto esquisito da rua de baixo, Severus Snape, seria o carrasco e a vítima. Viu que o tal Lorde das Trevas era apenas o monstro definitivo criado por aquele velho de barba branca e olhar benevolente, Alvo Dumbledore, que usaria a todos como bucha de canhão para sua própria glória.
Uma onda de medo ameaçou sufocá-la, mas Petúnia a engoliu. Se o destino tinha lhe dado aqueles olhos, não era para que ela chorasse.
*Eles acham que eu sou comum*, pensou Petúnia, seus olhos castanhos se estreitando enquanto uma frieza calculista, muito além dos seus treze anos, começava a se enraizar em sua postura. *Dumbledore acha que tem o controle de tudo. Ele nem sabe que eu existo. Ele não olha para os trouxas.*
Ela seria exatamente o que eles esperavam. A irmã trouxa amarga, invejosa e sem magia ativa. Ela se apagaria de qualquer radar do mundo bruxo. Seria o ponto cego perfeito. E, das sombras, ela começaria a mover as peças para rasgar o roteiro daquele diretor de Hogwarts.
Naquela mesma tarde, enquanto Lily brincava no quintal, Petúnia comprou um caderno de capa preta e começou a escrever, em uma caligrafia minuciosa e codificada, o plano que levaria anos para se concretizar. O plano para salvar sua família.
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A Vidente Inesperada
FanfictionO destino não é injusto mas também gosta de complicar... Dumbledore acha que é o mestre do xadrez e o mundo é seu tabuleiro...será??
