Capítulo 1: O Tratado de Papel

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A calmaria que Konoha vivia após a Quarta Guerra Mundial Shinobi era, na verdade, uma fachada para intensas negociações de bastidores. O Conselho da Vila e os Anciãos do Clã Hyuuga viam com extrema preocupação duas forças incalculáveis: o poder destrutivo do último Uchiha vivo e o monopólio ocular do Byakugan, que precisava de estabilidade política.

Foi em uma reunião ministerial à portas fechadas que a ideia nasceu. Não como um romance, mas como um tratado de paz de linhas frias.

O documento oficial na mesa do Rokudaime Hokage, Kakashi Hatake, tinha um título burocrático: Acordo de Estabilização e Coesão de Linhagens Nobres.

Para o Conselho de Konoha, a justificativa era estratégica. Sasuke Uchiha precisava provar sua lealdade e reintegração à vila, aceitando viver sob a vigilância indireta do clã mais tradicional de Konoha. Para os anciãos Hyuuga, era a chance de manter a primogênita, Hinata, sob um status de proteção que acalmaria as tensões políticas da ramificação secundária, além de garantir que o clã tivesse voz direta sobre as ações do portador do Rinnegan.

Quando Kakashi apresentou o pergaminho a Sasuke na cela de isolamento antes de sua soltura definitiva, o Uchiha apenas leu as cláusulas com seu olho esquerdo de forma apática.

— Um casamento arranjado? — a voz de Sasuke saiu fria, desprovida de emoção. — Vocês realmente acham que papéis vão me prender a esta vila?

— Não são os papéis, Sasuke. É a oportunidade de recomeçar — explicou Kakashi, sério. — A outra parte aceitou os termos sem protestar. Hinata sabe o peso que carrega como primogênita e o que isso significa para a paz de Konoha. O Distrito Uchiha será devolvido a você, mas você não viverá lá sozinho.

No Complexo Hyuuga, o cenário não foi diferente. Hiashi apresentou o decreto à filha no salão principal. Hinata, mantendo as mãos postas sobre o quimono, ouviu tudo em silêncio. Ela sabia que sua transição para a liderança do clã estava sendo questionada pelos anciãos devido à sua personalidade gentil. Unir-se ao homem que ajudara a salvar o mundo, mas que ainda carregava a sombra da rebeldia, era o sacrifício que a vila pedia a ela.

— Eu aceito, meu pai — respondeu Hinata, a voz baixa, mas firme. — Se este compromisso garante a segurança de Konoha e a estabilidade do nosso clã, eu cumprirei o meu dever.

Duas semanas antes da cerimônia, o primeiro encontro formal entre os dois aconteceu em uma sala neutra no palácio do Hokage. O clima era de uma tensão sufocante.

Sasuke permanecia de pé, encostado na parede com os braços cruzados, a capa preta cobrindo sua silhueta. Hinata sentou-se à mesa, mantendo a postura impecável de uma nobre. Eles mal se olharam nos olhos.

— Não espere que eu seja o marido tradicional que seu clã deseja — disse Sasuke, quebrando o silêncio com sua habitual rispidez analítica. — O distrito é grande. Nós manteremos quartos separados. Você cuida dos seus assuntos com os Hyuuga, e eu cuido das minhas missões para o Hokage. O casamento é apenas uma assinatura para os conselheiros pararem de perturbar.

Hinata ergueu os olhos perolados, encarando a frieza dele sem vacilar. A timidez que costumava demonstrar na infância deu lugar à dignidade de uma kunoichi que havia enfrentado deuses.

— Eu não exijo nada de você, Sasuke-san — ela respondeu com uma calma que surpreendeu o Uchiha. — Compreendo perfeitamente a natureza deste acordo. Respeitarei seu espaço e seu silêncio. Só peço que, perante a vila, mantenhamos o respeito mútuo.

Sasuke descruzou os braços sutilmente, fixando os olhos escuros nela por alguns segundos antes de desviar o olhar e assentir com um leve aceno de cabeça. O pacto silencioso estava selado.

O dia do casamento não teve grandes festividades públicas. Por exigência dos anciãos Hyuuga e pelo desejo de privacidade de Sasuke, a cerimônia ocorreu no santuário privado do clã Hyuuga, ao amanhecer.

Hinata vestia o tradicional Shiromuku — o quimono de casamento totalmente branco, simbolizando a pureza e a prontidão para assumir as cores da nova casa. Sasuke usava uma túnica escura de alta nobreza, com o símbolo do leque Uchiha discretamente bordado nas costas, a pedido de Kakashi para manter a formalidade.

Naruto estava presente na primeira fileira, com uma expressão que misturava preocupação e um sorriso amarelo, sem saber ao certo como reagir ao ver dois de seus amigos mais próximos se unindo por um contrato de papel. Ao seu lado, Sakura observava em silêncio, desejando genuinamente que a paz encontrasse o coração de seu antigo companheiro de equipe.

Diante do altar, Sasuke e Hinata compartilharam o San-san-kudo — o juramento ritualístico onde beberam saquê em três cálices diferentes, simbolizando a união de seus destinos perante os deuses.

As mãos de ambos se tocaram de leve ao trocar os pergaminhos de compromisso. A pele de Hinata estava fria, mas seu chakra era de uma estabilidade impressionante. Sasuke sentiu aquela energia suave roçar a sua por um milésimo de segundo, e algo no fundo de sua mente registrou aquela sensação.

— Eu os declaro marido e mulher perante as leis de Konoha — anunciou o celebrante.

Não houve beijo, não houve promessas sussurradas de amor. Apenas um olhar firme trocado entre o último Uchiha e a herdeira Hyuuga.

Quando a noite caiu, eles cruzaram juntos os portões de ferro do Distrito Uchiha. As ruas estavam desertas, as casas vazias e escuras. Sasuke caminhou até a varanda da casa principal.

Agora, diante da antiga residência de Sasuke no reconstruído Distrito Uchiha, a realidade batia à porta.

A casa era funcional, minimalista e envolta em uma quietude quase fantasmagórica. Hinata carregava apenas uma mala pequena com seus pertences.

— Há dois quartos — disse Sasuke, sem olhar para trás enquanto entrava e deixava a capa de viagem sobre o suporte de madeira. — O principal é seu. Eu fico com o menor. Não mude as coisas de lugar sem necessidade.

— Tudo bem, Sasuke-kun — Hinata respondeu, usando o sufixo por pura força do hábito e da educação.

Ele parou por um instante ao ouvir o tom suave dela. Era estranho ter alguém ali. Alguém que não o olhava com medo, nem com a adoração cega do passado, mas com uma resignação pacífica.

— Não precisa me chamar assim — ele murmurou, virando-se de perfil. — Não somos amigos, Hinata. Somos um acordo político.

Hinata sustentou o olhar dele, os olhos perolados brilhando com uma determinação que Sasuke não esperava ver na garota que ele lembrava ser tão tímida.

— Eu sei exatamente o que somos, Sasuke. Mas partilhamos o mesmo teto e o mesmo destino agora. Podemos fazer isso com respeito mútuo, ou transformar esta casa em uma prisão. A escolha é sua.

Pela primeira vez em muito tempo, o canto dos lábios de Sasuke esboçou uma reação que quase parecia respeito. Ele deu de ombros, sumindo pelo corredor escuro.

— O jantar é por sua conta — foi a resposta que ecoou do corredor.

Hinata respirou fundo, fechando a porta principal atrás de si. O silêncio do distrito Uchiha parecia um pouco menos assustador agora. O casamento estava arranjado, as regras estavam postas, mas a história deles estava apenas começando.

Acordo entre clãs de Konoha Stories to obsess over. Discover now