Billie, uma jovem de 24 anos que vive cercada de histórias em uma editora, nunca imaginou que a sua própria história seria escrita nas margens.
Tudo começa com uma anotação anônima em um manuscrito. Depois, outra. Uma conversa silenciosa e clandesti...
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O trânsito da Sunset Boulevard parecia especialmente cruel naquela manhã de terça-feira, mas Billie mal prestava atenção no mar de para-choques vermelhos à sua frente. Seus dedos tamborilavam no volante no ritmo de uma linha de baixo distorcida que saía dos alto-falantes do carro, enquanto seus olhos castanhos semicerrados pelo sol forte de Los Angeles imploravam mentalmente para que o sinal abrisse. Quando finalmente estacionou no subsolo da "𝑬𝒗𝒆𝒓𝒈𝒓𝒆𝒆𝒏 𝑷𝒖𝒃𝒍𝒊𝒔𝒉𝒊𝒏𝒈", uma das editoras independentes mais prestigiadas de L.A, Billie soltou um suspiro de alívio. Ela adorava o caos da cidade, mas o caos dos livros era o único que realmente a confortava.
Aos 24 anos, Billie ocupava o cargo de assistente editorial júnior. Na prática, isso significava que ela era a pessoa que passava horas soterrada por calhamaços de papel, xícaras de café frio e manuscritos que a maioria das pessoas nunca chegaria a ler. Mas ela não reclamava. Havia uma magia estranha em ser a primeira pessoa a dar uma chance para a história de alguém.
— Se você demorasse mais cinco minutos, eu ia começar a responder os e-mails dos autores rudes fingindo ser você, e confie em mim, eu seria bem menos educada — uma voz melodiosa ecoou assim que Billie passou pelas portas de vidro do terceiro andar.
Era Lana. Lana Carter era a designer gráfica chefe da editora, responsável pelas capas que faziam os livros venderem só pela estética. Ela estava encostada na mesa de Billie, segurando um copo de "iced latte" que estendeu como uma oferenda de paz. Com seus cabelos escuros perfeitamente alinhados e um batom vermelho impecável às nove da manhã, Lana era o completo oposto de Billie, que vestia uma calça cargo preta larga, um moletom três vezes maior que seu tamanho e os fios de cabelo presos em um coque deliberadamente bagunçado.
— O trânsito estava um inferno, Lana — Billie agradeceu, pegando o café e dando um gole generoso. — E por favor, não responda meus e-mails. Da última vez você quase causou um processo judicial com aquele autor de ficção científica.
— Aquele homem era um misógino que achava que sabíamos menos de literatura que ele — Victor surgiu de trás de uma divisória, brotando como um fantasma elegante.
Victor era o editor de aquisições de não-ficção, o cérebro afiado do andar e, acima de tudo, o melhor amigo gay que Billie poderia pedir. Ele usava um terno de linho bege que parecia imune ao calor de Los Angeles e óculos de armação fina que ele ajustava no nariz toda vez que estava prestes a fofocar ou julgar alguém. — Bom dia para você também, Vic — Billie riu, sentando-se em sua cadeira giratória e ligando o computador.
— Bom dia, querida. Só estou dizendo a verdade. Mas mudando de assunto... a mesa do chefe está um vulcão hoje. Chegou a pilha final de manuscritos físicos enviados por agências literárias para a seleção de outono. E adivinha em quem sobrou a triagem?
Billie olhou para o canto de sua mesa e visualizou o monstro. Uma pilha de quase meio metro de papéis impressos, presos por elásticos ou encadernados de forma simples, esperava por ela.
— Eu amo meu trabalho, eu amo meu trabalho, eu amo meu trabalho — Billie cantarolou ironicamente, fechando os olhos.
— Te vejo no almoço, sobrevivente — Lana deu um tapinha solidário no ombro de Billie e se afastou em direção ao estúdio de design.
— Se encontrar algo que preste, me avise. Se for ruim, queime na trituradora — Victor piscou, desfilando de volta para sua sala. Billie respirou fundo, arrumou os fones de ouvido e deu o primeiro play na sua playlist de leitura. O mundo ao redor sumiu. Pelas próximas quatro horas, sua vida se resumiu a ler sinopses, os três primeiros capítulos de romances policiais genéricos, biografias não autorizadas de subcelebridades de Hollywood e poesias melancólicas demais para uma manhã ensolarada.
Passava das duas da tarde quando a fome começou a apertar. Billie decidiu ler apenas mais um antes de fazer uma pausa. Ela puxou um manuscrito do meio da pilha. Não tinha capa, apenas uma folha de rosto simples com um título provisório: "O Peso do Vidro". Não havia nome de autor, apenas o carimbo da agência literária. Era um drama contemporâneo sobre a solidão nas grandes cidades.
Ela começou a folhear as páginas, lendo os parágrafos com os olhos treinados. A escrita era boa, densa e envolvente. Mas na página catorze, algo chamou sua atenção. Não no texto impresso. Mas na margem direita. Escrito à caneta preta, com uma caligrafia ligeiramente inclinada, elegante e firme, havia um comentário. Alguém do departamento de triagem prévia, ou talvez um estagiário da própria agência, tinha deixado uma nota ao lado de um parágrafo onde o protagonista descrevia o pôr do sol em Santa Monica de forma excessivamente poética e clichê.
> *"O autor claramente nunca pegou a Pacific Coast Highway às 18h se ele acha que o pôr do sol traz paz. Traz ódio e fumaça de escapamento."* > Billie soltou uma risada genuína, que ecoou pelo seu cubículo vazio. Era exatamente o que ela tinha pensado ao ler o parágrafo. Ela continuou lendo, agora prestando mais atenção nas margens do que na própria história. Três páginas depois, o protagonista do livro tomava um café preto puro em uma cafeteria chique e filosofava sobre o amargor da vida. Na margem, a mesma caligrafia preta havia anotado:
> *"Ele finge ser profundo, mas aposto que chora se o leite de aveia dele não for vaporizado na temperatura certa. Cafona."* > Billie estava fascinada. O manuscrito, que era para ser um drama sério, tinha se transformado em uma comédia ácida por causa daquela pessoa anônima. Era como se ela estivesse assistindo a um filme ruim no cinema ao lado de alguém sussurrando as piadas mais inteligentes no seu ouvido.
Antes que pudesse processar o que estava fazendo — violando a regra número um de não rasurar ou alterar manuscritos em avaliação —, Billie pegou uma caneta esferográfica de tinta azul que estava em cima de sua mesa. Ela deslizou a ponta da caneta até a margem inferior da página vinte, logo abaixo de uma piada que o anotador misterioso tinha feito sobre o vocabulário rebuscado do autor.
Com o coração batendo um pouco mais rápido do que o normal por estar fazendo algo teoricamente proibido, Billie escreveu com sua letra redonda e despojada:
> *"Pelo menos ele não usou a palavra 'efêmero'. Dou pontos por isso. E concordo sobre o leite de aveia."* > Ela fechou o manuscrito com um estalo seco, sentindo uma descarga de adrenalina boba. Era só uma brincadeira. Ninguém veria aquilo além do revisor final, que provavelmente apagaria ou jogaria o manuscrito fora se fosse recusado. Mal sabia Billie, enquanto caminhava para o almoço com Lana e Victor, que aquela pequena anotação em tinta azul seria a primeira linha da história mais importante de sua vida. Uma história que seria escrita inteiramente nas entrelinhas...