i will survive

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Para entender o peso que repousava sobre os ombros de Victoria de Borbón naquela primavera de 1983, era preciso compreender primeiro as feridas da terra que ela fora destinada a reinar.

A Espanha dos anos oitenta era um país que tateava no escuro, aprendendo a caminhar após quase quarenta anos sob as botas pesadas da ditadura franquista. Quando o General Francisco Franco morreu, em 1975, ele deixou para trás um Reino sem Rei, uma nação dividida pelo medo e uma família real que retornava do exílio com a missão quase impossível de curar um país partido.
O Rei Juan Carlos I assumira o trono sob o olhar desconfiado dos generais saudosos do regime e a vigilância ansiosa de um povo que clamava por liberdade. Em 1981, quando tanques rebeldes invadiram o Parlamento em uma tentativa de golpe de Estado, foi a firmeza de Juan Carlos - vestindo seu uniforme militar diante das câmeras de televisão - que salvou a jovem democracia espanhola. Naquela noite, a Coroa provou que não era apenas um adorno de luxo, mas o escudo da nação.

Mas a maior revolução de Juan Carlos não aconteceu nos quartéis; aconteceu dentro de seu próprio palácio, em 1978, durante a redação da nova Constituição. Pela tradição secular da Casa de Borbón, a linha de sucessão privilegiava o homem. O herdeiro natural deveria ser Felipe, o caçula. No entanto, Juan Carlos olhava para sua primogênita, Victoria, nascida em 1963, e enxergava nela algo raro. Victoria tinha a disciplina de aço necessária para os dias difíceis, a erudição dos diplomatas e, acima de tudo, uma conexão magnética com o povo que nenhuma estratégia de relações públicas poderia fabricar.

Para tomar sua decisão mais ousada, o Rei buscou inspiração além-mar, na figura de sua prima distante, a Rainha Elizabeth II do Reino Unido. Juan Carlos admirava como a jovem Elizabeth, mesmo assumindo o trono em um mundo pós-guerra devastado e puramente masculino, havia se tornado a rocha inabalável de seu império através de um senso cirúrgico de dever e dignidade. O monarca espanhol compreendeu que a modernidade não exigia apenas democracia; exigia o simbolismo de uma liderança feminina forte.

Contra a vontade da Igreja, dos aristocratas mais conservadores e dos velhos generais, Juan Carlos alterou as regras da coroa. Victoria foi oficialmente proclamada a Princesa das Astúrias. A herdeira legítima.
Com a coroa, veio o maior dos desafios. Em uma época em que as mulheres espanholas sequer tinham o direito legal de ingressar nas Forças Armadas, Juan Carlos decretou uma exceção de Estado: como futura Rainha e Capitã-General, Victoria teria que passar pelas academias militares.
Ela se tornou a pioneira absoluta, a única silhueta feminina em um mar de homens na Academia Geral Militar de Zaragoza. Sob o olhar severo e machista de generais da velha guarda que viam sua presença como uma heresia, Victoria aprendeu a engolir o choro, a travar o maxilar e a ser cirurgicamente impecável. Cada continência que recebia era uma batalha política vencida.

Nasceu assim a Victoriamanía. Para os jovens que dançavam ao som do rock nas ruas de Madrid, ela era o rosto de um futuro livre; para os militares, era uma força que precisava ser respeitada. Perfeita em sua farda de gala, com a insígnia da Ordem do Tosão de Ouro no peito, Victoria tornou-se uma figura intocável, quase sagrada.
O mundo inteiro olhava para ela com admiração. Mas o mundo não fazia ideia de que, por trás da postura milimetricamente ensaiada e da rigidez militar, a futura Rainha da Espanha era uma jovem de vinte anos que sufocava na solidão de uma gaiola de ouro. Uma jovem armada para governar um país, mas completamente desarmada para o que aconteceria quando as portas do palácio finalmente ficassem para trás.

MADRID - MICHAEL JACKSONStories to obsess over. Discover now