Eu era o tipo de pessoa que vivia leve demais para pensar no amanhã.
Na escola, eu chegava sem pressa, rindo alto pelos corredores, cumprimentando meio mundo como se todos fossem meus amigos.
— “Oi! Como tu estás hoje?”
— eu dizia para quase toda gente, mesmo sem ter muita intimidade.
E era verdade… eu tinha muita gente ao meu redor.
Mas, ao mesmo tempo, também tinha quem eu simplesmente não suportava.
— “Não gosto dela, nem me perguntes porquê.” — eu dizia para as minhas amigas, como se isso fosse normal.
E elas riam. Porque naquela fase, tudo parecia leve, até os sentimentos mais confusos.
Os estudos? Quase não existiam na minha cabeça.
Eu abria o caderno, olhava para ele por alguns segundos e já estava distraída outra vez.
— “Depois eu estudo… ainda há tempo.” — eu repetia para mim mesma, acreditando nisso sem pensar muito.
Mas o “depois” quase nunca chegava.
E sobre sentimentos… eu era meio bagunçada também.
Gostava rápido, esquecia rápido, e às vezes nem sabia bem o que era gostar de verdade.
— “Tu gostas dele?” — perguntavam-me.
Eu dava um sorriso e encolhia os ombros.
— “Talvez… não sei. Só sei que é divertido.”
Naquele tempo, tudo era leve, tudo era agora.
Eu não pensava nas consequências, não pensava no futuro, e muito menos imaginava a pessoa que eu ainda ia me tornar.
Eu só vivia.
Sem medo. Sem peso. Sem perceber que essa fase não durava para sempre.
Na preparação para o vestibular.
Na aula!
Pensando"No início, nada parecia realmente diferente.
Era como se a vida estivesse só a repetir os mesmos dias, sem aviso nenhum de que algo estava prestes a mudar.
Eu continuava na escola de preparação para o vestibular, do mesmo jeito leve de sempre. Ainda ria alto, ainda falava com muita gente, ainda deixava os estudos em segundo plano.
— “Hoje eu começo a estudar a sério.” — eu dizia, às vezes até acreditando nisso por alguns minutos.
Mas logo o dia passava, e eu voltava ao meu normal.
Só que aos poucos… começaram a aparecer pequenas coisas.
Professores a corrigirem mais vezes o mesmo erro.
— “Tu precisas prestar mais atenção.” — ouvi uma vez.
Eu sorria, meio sem jeito.
— “Sim, professor.”
Mas por dentro eu achava que não era nada demais.
Em casa, também começaram algumas perguntas.
— “Como estão os estudos?” — perguntavam.
— “Estão bem… mais ou menos.” — eu respondia rápido, tentando encerrar o assunto.
E seguia a minha vida como se tudo ainda estivesse sob controlo.
Mas não estava.
Comecei a notar que algumas pessoas já estavam à minha frente. Faziam exercícios, entendiam mais rápido, tinham mais segurança nas respostas.
Eu olhava e pensava:
— “Eu também consigo… só preciso me organizar.”
Só que organizar parecia sempre uma coisa para “depois”.
E foi aí que começou a aparecer uma sensação estranha. Não era medo ainda… era só um incômodo pequeno, quase ignorado.
Às vezes, durante a aula, eu ficava em silêncio por alguns segundos a mais do que o normal. Já não era só distração. Era como se algo começasse a pesar levemente.
— “Será que eu estou mesmo acompanhando?” — pensei uma vez, mas logo afastei a ideia.
Eu não queria dar importância.
Porque admitir isso significava mudar.
E mudar, naquela época, ainda não parecia urgente.
Mas as mudanças já tinham começado… mesmo que eu ainda não quisesse ver.
E foi nesse instante que a minha distração foi interrompida.
— “Tu aí.” — a voz do professor cortou o ar da sala.
Levantei o olhar rapidamente, como quem volta de um lugar distante.
— “Sim, professor?”
— “O que eu acabei de explicar?”
Silêncio.
Senti o rosto a aquecer por dentro, mas tentei manter a calma por fora.
— “Eu… estava a pensar.”
— respondi, meio sincera, meio perdida.
A sala ficou em silêncio por um segundo.
O professor respirou fundo.
— “Pensar é bom. Mas aqui, tu precisas estar aqui de verdade.”
Baixei o olhar, mexendo na caneta sem necessidade.
— “Sim…”
Mas naquele momento, algo diferente ficou em mim.
Não era vergonha apenas.
Era a primeira vez que eu percebia, de verdade, que estar ali sem estar ali… já estava a me custar mais do que eu imaginava.
Eu ajeitei o caderno na mesa, como se isso pudesse organizar também a minha cabeça.
— “Continua, por favor.” — disse o professor, retomando a explicação.
E a aula seguiu.
Eu tentei acompanhar. Desta vez, de verdade. Os olhos fixos no quadro, a caneta a correr mais devagar, como se cada palavra tivesse um peso novo.
Mas a minha mente ainda escapava de vez em quando.
“Foca… foca agora…” — eu repetia para mim mesma.
O professor escrevia fórmulas, explicava passos, fazia perguntas.
E eu tentava segurar cada pedaço do conteúdo antes que ele escapasse.
Ao meu lado, alguém respondia com confiança.
— “É assim, professor?” — dizia uma colega.
E o professor confirmava com um aceno.
Eu olhei para o meu caderno… e havia partes incompletas, ideias soltas, buracos onde eu devia ter estado atenta.
Engoli em seco.
“Eu devia estar a acompanhar isto melhor…”
Mas não disse nada.
A aula continuou a avançar, e eu senti uma coisa estranha: não era só dificuldade… era a sensação de estar um pouco atrasada em relação ao resto.
Mesmo assim, não desisti de tentar.
Copiei mais rápido, prestei mais atenção, fiz perguntas baixas quando não entendia.
— “Professor… pode repetir essa parte?” — perguntei, desta vez com mais seriedade.
Ele explicou outra vez, sem pressa.
E eu ouvi. Desta vez, ouvi mesmo.
Quando a aula terminou, já não saí da sala com a mesma leveza de sempre.
Guardei o material devagar, enquanto os outros já falavam e riam de novo.
Eu fiquei um pouco mais em silêncio.
Antes de sair, olhei para o caderno aberto.
E pensei, quase sem perceber:
“Talvez… eu esteja mesmo a começar a ficar para trás.”
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Entre Quem Fui, E Quem Estou Me Tornando.
Non-FictionEntre quem fui e quem estou me tornando. Alcinna_Alicia narra os dias silenciosos entre crescer e tentar não se perder no caminho. Entre provas, noites cansativas de estudo, amizades que mudaram com o tempo e a pressão de construir um futuro, ela co...
