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Amber Williams

A água da piscina desliza devagar pela minha pele enquanto fico parada na borda, só os dedos atravessando a superfície brilhante. O sol da tarde bate forte, reflete umas ondas douradas na água clara e faz uns desenhos luminosos pequenos dançarem pelo meu braço inteiro.

O cheiro de cloro mistura com o perfume doce das flores do jardim da minha mãe. E por um instante, minha cabeça finalmente fica em silêncio.

Sem protocolo. Sem treinamento. Sem vozes no rádio. Sem ninguém me dizendo o que fazer.

Eu tinha vinte anos naquela época. Fazia quase dois anos desde que tinha sido recrutada pelo Serviço Secreto - bem, não exatamente o Serviço Secreto que todo mundo conhece. A A.R.E.S. ninguém conhecia. Ninguém mesmo. Só o governo, algumas agências de inteligência e quem trabalhava lá. Era o tipo de lugar que não existia nos documentos, e toda vez que eu voltava pra casa parecia que tava entrando numa vida que eu já não sabia mais viver direito.

É estranho, isso. Como eu ainda conhecia cada canto daquela casa. Cada degrau que rangia. Cada cheiro que vinha da cozinha. Mas ao mesmo tempo eu me sentia completamente deslocada dentro dela. Como se uma parte de mim tivesse ficado pra trás no dia em que aceitei abandonar a vida comum.

Emily tinha cinco anos e tava sentada na parte rasa da piscina usando aquelas boias cor-de-rosa nos braços, chutando água sem coordenação nenhuma enquanto cantava alguma música inventada completamente sem sentido. O cabelo escuro dela tava preso num coque torto que claramente minha mãe tinha feito às pressas e, ela tinha aqueles dentinhos pequenos aparecendo toda vez que sorria.

Crianças pequenas têm um jeito curioso de parecerem frágeis e barulhentas ao mesmo tempo.

- Amber! - ela grita, animada, levantando um brinquedo de mergulho em formato de estrela. - Olha! Eu achei no fundo igual sereia!

Eu sorrio automaticamente enquanto apoio os braços na borda quente da piscina, observando ela erguer o brinquedo como se tivesse encontrado um tesouro perdido no oceano. Emily sempre transformava qualquer coisa em aventura. Um copo virava castelo. Um lençol virava caverna. Um brinquedo perdido no fundo da água virava missão secreta.

- Nossa, impressionante mesmo - eu respondo, entrando na brincadeira, a voz saindo mais leve do que deveria. - Acho que você devia trabalhar procurando tesouro.

Ela arregala os olhos na hora, levando aquilo totalmente a sério. A boia cor-de-rosa escorrega um pouco no braço esquerdo enquanto ela segura a estrela com as duas mãos contra o peito, como se alguém fosse roubar.

- Posso mesmo? - a voz dela sai num tom meio sem fôlego, meio maravilhado.

- Pode.

O sol bate exatamente no rosto dela nesse momento. Os olhos escuros brilham. Os dentinhos pequenos aparecem num sorriso tão largo que fecha os olhos.

- Aí eu vou ficar rica!

- Muito rica - eu confirmo, com aquele tom sério que ela adora quando eu finjo que tô levando ela a sério.

Emily me olha por um segundo, os olhinhos escuros estreitando levemente - o mesmo jeito que minha mãe faz quando tá desconfiada de alguma coisa. É impressionante como criança pequena copia os adultos sem perceber.

- Mais rica que você? - ela pergunta, inclinando a cabeça.

Eu solto uma risada baixa pelo nariz, balançando a cabeça devagar enquanto afundo um pouco mais na água morna. A água sobe até meu queixo, e eu apoio a nuca na borda da piscina, sentindo o concreto quente contra a pele. O céu tá tão azul que quase dói de olhar.

O PREÇO DE SOBREVIVER - DARYL DIXONHistórias para pegar e não largar. Descubra agora