Capítulo 1

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Eu me chamo Ciara, um nome incomum, escolhido em meio aos devaneios da minha mãe enquanto ainda estava grávida de mim. Segundo ela, foi inspirado na "Kiara", do filme da Disney, O Rei Leão. Dizia que, quando eu crescesse, precisaria ser uma leoa, exatamente como ela.

Quando criança, eu achava aquilo o máximo. Hoje, porém, observando minha mãe com outros olhos, percebo que não desejo me tornar nada parecido com ela. Então prefiro interpretar meu nome pelo que ele realmente significa: Ciara, de origem irlandesa. Garota sombria. Obscura.

O que, honestamente, combina muito mais comigo.

Minha vida nunca esteve sequer próxima do que poderia ser considerada comum. Minha mãe, Madson, engravidou de mim aos dezesseis anos, depois de uma noite com um desconhecido mais velho que conheceu em um show do Nirvana. O que, por si só, explica muita coisa sobre mim. Minha personalidade, meu temperamento e, principalmente, minha obsessão quase doentia por rock.

Eu nunca conheci meus avós. Muito menos meu pai. Tudo o que tenho dele é uma fotografia já amarelada pelo tempo, onde aparece abraçado à minha mãe naquele show. A única vez em que se encontraram. Às vezes encaro a foto por minutos, tentando encontrar em seu rosto algum traço meu, como se isso fosse preencher a ausência colossal que ele deixou sem nem saber da minha existência.

Durante toda a minha vida, minha única família foi minha mãe. Embora, na maior parte do tempo, ela pareça mais uma adolescente inconsequente presa no corpo de uma mulher adulta.

Ela não trabalha. Vive obcecada pela própria aparência e por homens ricos o suficiente para sustentar o estilo de vida que acredita merecer. Desde os meus cinco anos, ela desaparece durante semanas. Vai para outras cidades, outros estados e, às vezes, até outros países, sempre atrás de algum novo relacionamento surgido no Facebook ou de outro homem disposto a bancá-la por algum tempo.

Como nunca teve um emprego fixo, aprendeu a sobreviver dependendo dos outros. Antes de ir embora, costuma encher parcialmente os armários, deixar algumas compras básicas na geladeira e se despedir com um beijo distraído na minha testa, como se aquilo bastasse para compensar sua ausência.

"Se cuida", ela sempre diz.

Considerando que hoje tenho dezessete anos e praticamente me criei sozinha, acho que fiz um trabalho razoavelmente bom.

Eu tive certa ajuda de uma vizinha do bairro, Rosana. Às vezes, ela aparecia lá em casa e me ensinava coisas básicas: cozinhar, limpar a casa direito, lavar minhas próprias roupas. Pequenas coisas que uma mãe deveria ensinar à filha sem que fosse necessário o auxílio de uma estranha.

Rosana nunca dizia aquilo em voz alta, mas eu percebia em seus olhos a piedade silenciosa que sentia por mim. E eu odiava. Não a ela, exatamente. Odiava a sensação de parecer abandonada diante dos outros.

E foi justamente por isso que abandonei a escola aos quatorze anos. Não porque eu fosse burra ou incapaz de aprender, muito pelo contrário. Apenas me sentia miseravelmente deprimida naquele ambiente. Cercada por adolescentes que ainda tentavam moldar suas personalidades artificiais para impressionar uns aos outros, enquanto me julgavam de forma não tão silenciosa, professores exaustos e aquelas carteiras cinzentas que pareciam sugar qualquer resquício de vontade de existir.

Então decidi estudar em casa. Passava horas mergulhada em livros que pegava emprestados em uma pequena biblioteca próxima dali. No fim, aprendi muito mais sozinha do que jamais aprenderia dentro de uma sala abafada cheia de gente barulhenta fingindo saber quem era.

Hoje é dia 23 de maio de 2008 e, surpreendentemente, minha mãe está em casa. Quieta há algumas semanas. Às vezes penso estar lentamente perdendo a sanidade por não ouvir, ao menos uma vez por dia, alguma de suas lamentações dramáticas sobre precisar encontrar um "pai" para mim ou sobre como morreria de tédio se passasse tempo demais sem atenção masculina.

    Crossing Lines - Tom KaulitzHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora