"Existem dois tipos de homem que voltam a um lugar que quase os matou: o corajoso e o idiota. A diferença entre eles é que o corajoso sabe exatamente o que está fazendo."
Mike Harlan não sabia.
- MIKE HARLAN -
A televisão estava ligada para ninguém.
Esse era o tipo de detalhe que resumia bem a vida de Mike Harlan: coisas funcionando sem propósito, ocupando espaço sem justificativa, iluminando paredes que já não precisavam de luz. A tela azulada pulsava no escuro da sala como um coração preguiçoso, jogando sombras nas pilhas de papel, nas garrafas vazias, no cinzeiro transbordante que havia muito tempo havia deixado de ser uma solução e virado parte do problema.
Era 28 de outubro de 2000.
Três dias antes do Halloween.
Três dias antes da data que, para Mike, não era feriado nem tradição nem desculpa pra comer doce. Era apenas o aniversário de algo que nunca foi celebrado e nunca seria.
Ele estava no sofá como quem não havia chegado, mas também nunca saído - jogado numa posição que combinava exatamente com a forma de um homem que havia desistido de achar conforto e simplesmente topado com ele por acidente. A manga da camisa havia subido durante a noite, revelando a cicatriz no antebraço direito: uma linha fina, já velha, que ele raramente olhava e nunca explicava. A barba estava num estágio que não era visual, era auditivo - o tipo de coisa que faz barulho quando esfregada na palma da mão. As olheiras eram tão fundas que pareciam fisionomia, não sintoma.
O pesadelo o abandonou no meio, como sempre fazia.
Não era o tipo de sonho que conta uma história do começo ao fim. Era o tipo que despeja fragmentos com violência clínica e deixa o corpo resolver o resto. Uma lona vermelha balançando no vento. O cheiro doce de pipoca misturado com algo que não devia estar ali. Uma risada que começava como criança e terminava como outra coisa. Sapatos grandes demais sobre um chão molhado. Um grito que não chegou a ser grito.
Mike abriu os olhos rápido demais.
A respiração veio curta, seca, produtiva demais para a hora - o tipo de respiração que o corpo faz quando confunde "acordar" com "sobreviver". Por um segundo, aquele segundo estranhíssimo de desorientação total, ele não sabia onde estava. Reconheceu o sofá. O cinzeiro. A janela entortada. A caixa debaixo da mesa.
Certo. O apartamento. Terça-feira. Ainda não morreu.
Ele levou a mão à testa.
- Merda - disse, para ninguém, com a voz de alguém que havia esquecido como funcionava a própria voz.
A televisão, indiferente a toda essa tragédia pessoal, mostrava um apresentador sorrindo. Depois uma propaganda. Depois uma vinheta de notícias já fora de hora. O gotejar da pia preencheu o espaço entre um programa e outro como uma trilha sonora que ninguém havia pedido mas que havia ficado no contrato.
Mike ficou deitado por mais uns minutos que não contou.
O apartamento não se importava com isso.
Quando ele finalmente se levantou, o piso frio entrou pelos pés descalços como um aviso de que o dia havia decidido começar de qualquer jeito, com ou sem a cooperação dele. Ele se moveu até a cozinha com a deliberação de alguém carregando peso invisível - não devagar por cansaço, mas devagar porque apressado não ia mudar o destino do dia.
A torneira escorreu fria. Ele bebeu direto dela sem procurar copo, sem procurar toalha, passando as mãos molhadas pelo rosto com um gesto que era ao mesmo tempo higiene e resignação. No espelho rachado acima da pia - rachaduras que ele nunca havia mandado consertar porque havia outras prioridades que também nunca havia resolvido - um homem de vinte e cinco anos o encarou de volta com cara de quarenta.
Ele sustentou o olhar por três segundos.
Depois desviou.
Havia um limite pra quanto tempo um homem aguenta a própria cara na segunda-feira de manhã, e Mike havia descoberto empiricamente que esse limite era três segundos.
De volta para a sala. A televisão mudou de canal sozinha por interferência e por um momento a imagem tremeu, e Mike viu - pelo canto do olho, sem querer ver - uma fantasia colorida na tela. Alguma propaganda de Halloween. Alguma coisa brilhante e alegre e completamente errada.
Ele desligou sem olhar direito.
O controle bateu na mesa com mais força do que pretendia.
O silêncio que veio depois não era calmo. Era o tipo de silêncio que acontece quando algo foi cortado no meio.
O apartamento de Mike Harlan era o tipo de lugar que os psicólogos adorariam e que os porteiros odiavam. Não era sujo exatamente - havia um padrão de organização que só fazia sentido para ele, como a maioria dos sistemas desenvolvidos em isolamento. As garrafas de whiskey vazias na parte esquerda do parapeito da janela, por exemplo, não estavam ali por desleixo. Estavam ali porque do lado direito havia luz suficiente para ler e do lado esquerdo havia penumbra suficiente para não reparar nelas.
O mural improvisado na parede da sala era a versão adulta de um vício que havia começado quando ele tinha dezessete anos e havia decidido entender o que havia acontecido com ele aos sete. Barbante vermelho ligando pontos num mapa que parecia loucura para qualquer um de fora e parecia sistema para ele. Nomes: Happy Inc. Frank Harmon. Carl Harmon. Betty. Datas: 1982. 1985. 2000. Perguntas escritas em caneta vermelha que havia desbotado mas que ele havia passado por cima de novo com caneta nova, como se a pergunta precisasse ser lembrada da própria importância.
O que a polícia não viu?
E, logo abaixo, acrescentado em noite de insônia:
Ou o que não quis ver?
No chão, junto à mesa, havia uma caixa de papelão que era a peça mais honesta do apartamento todo. Nenhuma pretensão de ordem. Nenhuma racionalização. Só uma etiqueta escrita à mão em caneta preta, numa caligrafia que tentava ser casual e não conseguia:
SMILELAND / NÃO ABRIR EM DIA RUIM.
Era o tipo de humor que só faz graça quando você está sozinho às três da manhã e a alternativa é chorar. Mike havia escrito aquilo num dos momentos melhores dos últimos anos - o que diz muito sobre como eram os momentos piores.
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AS SOMBRAS DE GIGGLECORP: Coulrophobia
ActionAS SOMBRAS DA GIGGLECORP: Coulrophobia ⚠️ Classificação: +18 Contém: terror psicológico intenso, violência gráfica, linguagem forte e temas perturbadores (trauma, desaparecimentos e medo de palhaços). --- Sinopse Mike passou anos tentando esquecer. ...
