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O Amuleto de Prata

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O barulho do trem de carga era o único som capaz de abafar as memórias de Seo Changbin. Quatro anos servindo como fuzileiro naval na costa leste haviam deixado marcas profundas. Cicatrizes invisíveis que se manifestavam em noites sem sono e sobressaltos a cada barulho mais alto. Ele ainda conseguia fechar os olhos e ouvir o zumbido dos morteiros. O cheiro de terra queimada. O desespero da noite em que sua unidade foi emboscada e ele perdeu companheiros de farda.

Mas, no bolso de sua jaqueta militar gasta, ele carregava o motivo de ainda estar respirando. Era uma fotografia analógica pequena, um pouco amassada nas bordas. Nela, um rapaz de cabelos longos sorria espontaneamente enquanto pintava uma tela em um jardim ensolarado. Changbin havia encontrado aquela foto perdida nos escombros de um bunker destruído. Durante os piores bombardeios, quando o céu parecia desabar, ele olhava para aquele sorriso. Tornou-se seu amuleto da sorte. Uma promessa silenciosa de que a beleza ainda existia no mundo.

De volta à vida civil e sem rumo, Changbin seguiu a única pista que tinha: a inscrição quase apagada no verso da foto: "Ateliê Hwang – Gyeongju".

Gyeongju era uma cidadezinha pacata, cercada por montanhas e campos verdes. Quando Changbin caminhou pelos portões do casarão antigo que funcionava como canil e ateliê de arte, seu coração acelerou. Um homem alto, vestindo um avental sujo de tinta acrílica e com os cabelos amarrados em um coque frouxo, tentava acalmar dois grandes pastores alemães.

Era ele. Hwang Hyunjin.

— Pois não? Posso ajudar? — Hyunjin perguntou, afastando os cães com um sorriso caloroso. O estômago de Changbin revirou. Era exatamente o mesmo sorriso da foto.

Changbin travou por um segundo. O peso dos traumas e a timidez o fizeram mudar de rumo na última hora. Ele não podia simplesmente entregar a foto.

— Eu... vi a placa lá fora — Changbin começou, a voz um pouco rouca, mantendo uma postura firme, mas os olhos baixos. — Vocês estão precisando de ajuda com os cães e a manutenção do espaço?

Hyunjin o avaliou por um instante. Notou a jaqueta militar, as mãos calejadas, mas também o olhar terrivelmente cansado de quem carregava o mundo nas costas.

— Para falar a verdade, sim — Hyunjin respondeu, limpando as mãos no avental. — Cuidar do canil da minha avó e do meu ateliê sozinho está me enlouquecendo. Meu nome é Hyunjin.

— Changbin. Seo Changbin.

— É um prazer, Changbin. Você é da região? — Hyunjin perguntou com curiosidade genuína, dando um passo à frente.

— Não. Só... estava de passagem e decidi procurar um lugar calmo para trabalhar — Changbin respondeu de forma contida. Ele olhou de relance para o jardim, tentando processar que estava finalmente diante de sua tábua de salvação. — Posso começar quando você quiser.

— Que tal agora? — Hyunjin sorriu, indicando o celeiro. — Venha, vou te mostrar onde guardamos as ferramentas.

A conversa fluiu de forma mansa. Nos dias seguintes, Changbin integrou-se à rotina do local com uma eficiência impecável. Ele consertou cercas e organizou o estoque de ração. Aos poucos, outras pessoas que faziam parte daquela comunidade começaram a aparecer.

Em uma manhã de sol, Changkyun, um amigo de longa data de Hyunjin, chegou ao casarão acompanhado de sua esposa, S/N, e do filho do casal, o pequeno Jooheon, de apenas quatro anos. O garotinho corria pelo gramado com as bochechas vermelhas, segurando um avião de brinquedo.

— Hyunjin! — S/N chamou, acenando enquanto trazia uma cesta com broas de milho frescas. — Trouxemos o café da manhã.

— Obrigado, S/N! — Hyunjin respondeu, saindo do ateliê. Ele olhou para o lado e chamou o novo funcionário. — Changbin, venha cá. Quero que conheça uns amigos.

Changbin aproximou-se devagar, sentindo-se um pouco deslocado com a energia familiar e calorosa. Changkyun estendeu a mão para ele com um aceno firme de cabeça.

— Hyunjin me disse que você tem sido uma salvação por aqui, Changbin. Sou o Changkyun. Esta é minha esposa, S/N, e o pequeno furacão ali é o Jooheon.

— É um prazer — Changbin respondeu, apertando a mão dele.

Jooheon parou de correr, olhou para as botas militares de Changbin e depois para o rosto dele. Sem medo nenhum, o menino estendeu o aviãozinho de plástico.

— Você sabe consertar a asa? Ela tá frouxa — pediu a criança, com a voz infantil.

Changbin piscou, pego de surpresa. Lentamente, ele se agachou para ficar na altura do menino. Suas mãos, que já haviam segurado fuzis em cenários de horror, pegaram o brinquedo com extrema delicadeza. Com um leve estalo, ele encaixou a peça no lugar.

— Pronto, soldado. Pronto para voar de novo — disse Changbin, exibindo um raríssimo e sutil sorriso.

— Obrigado! — Jooheon gritou, saindo correndo pelo quintal simulando o barulho de um motor.

S/N sorriu, tocando o braço de Changkyun.

— Acho que o Jooheon já fez um novo melhor amigo. Você quer tomar café conosco, Changbin?

— Eu agradeço, de verdade, mas ainda preciso terminar de limpar as baias do fundo — Changbin recusou educadamente, sentindo que precisava de um momento para digerir tanta normalidade. Ele ainda se sentia um intruso em um mundo tão pacífico.

Hyunjin observou Changbin se afastar em direção ao canil. Havia algo naquele homem que o intrigava profundamente. Uma mistura de força bruta e uma vulnerabilidade que parecia clamar por proteção.

Mais tarde, no final do expediente, Hyunjin encontrou Changbin sentado na varanda do celeiro, observando o pôr do sol. Ele trazia duas canecas de chá e estendeu uma para o ex-militar, sentando-se ao lado dele, respeitando uma distância confortável.

— Você foi muito gentil com o Jooheon hoje — Hyunjin começou, a voz mansa, olhando para o horizonte alaranjado. — Ele costuma ter medo de estranhos, mas gostou de você.

— Crianças têm um faro bom — Changbin comentou, segurando a caneca quente entre as mãos.

— Elas não sabem o que é a maldade do mundo ainda. É bom ver isso.

Hyunjin guardou silêncio por alguns segundos, absorvendo as palavras dele.

— Você fala como se tivesse visto muita maldade, Changbin.

Changbin olhou para o chá, os nós de seus dedos ficando brancos pelo aperto na caneca. As memórias da lama, do frio das trincheiras e do som dos alertas de bombardeio ameaçaram voltar.

— Eu servi no exterior. Quatro anos na infantaria da marinha — confessou ele, a voz baixa. — Vi coisas que nenhuma pessoa deveria ver. Às vezes... é difícil esquecer o barulho.

Hyunjin sentiu o peito apertar de compaixão. Sem forçar intimidade, ele apenas mudou a postura, aproximando seu ombro do de Changbin, oferecendo um apoio silencioso.

— Eu não consigo nem imaginar o que você passou — Hyunjin disse, olhando de lado para o perfil marcante de Changbin. — Mas fico feliz que tenha escolhido Green Valley. Se você precisar de silêncio, aqui tem de sobra. Se precisar conversar... eu também estou aqui. Eu gosto da sua companhia, Changbin.

Changbin virou o rosto para olhar para Hyunjin. Sob a luz dourada do entardecer, as feições do pintor eram ainda mais bonitas do que na fotografia que guardava no peito. O interesse que Changbin sentia não era mais apenas pela imagem que o salvara na guerra; ele estava genuinamente fascinado pela doçura, pela paciência e pelo perfume de tinta e baunilha que emanava de Hyunjin.

— Obrigado, Hyunjin — Changbin respondeu, e desta vez seu sorriso foi um pouco mais aberto, transmitindo uma gratidão sincera. — Eu também gosto de estar aqui. Com você.

A conexão entre os dois deu o seu primeiro passo firme ali, na varanda, sob o céu de Green Valley. Era o começo de um entendimento calmo, onde o passado doloroso de um soldado começava a encontrar o recomeço nos olhos de um artista.

Um Homem de Sorte - HyunbinStories to obsess over. Discover now