- Ojiisan! Ojiisan! Conta de novo! Conta de novo!
O pequeno, corria pelo chão de madeira da cabana, um futon sobre os ombros, antes de se sentar com pressa em frente a lareira. O homem mais velho, sorri deixando seu cachimbo de lado, para dar atenção à criança.
- De novo? Você não enjoou ainda? - riu baixo, balançando a cabeça.- Bem, acho que não tem problema contar mais uma vez.
Sua voz cansada, tinha um tom carinhoso, apesar da rispidez do tempo. Rindo baixo, a mulher idosa saiu da cozinha, xicaras de chá em mãos e um pequeno bule de porcelana, se sentando no sofá. Seu olhar calmo, dizendo muito, sobre o quanto aquilo era uma cena comum.
- Há muito tempo, um jovem camponês muito pobre vivia sozinho em uma cabana nas montanhas cobertas de neve. Um dia, ao caminhar pelo vale congelado, ele ouviu um choro doloroso. Era um lindo grou, um Tsuru de asas brancas como o inverno, preso em uma armadilha de caçador. As cordas cortavam suas penas, e o sangue manchava a neve de vermelho.
A criança suspira, parecendo tão emocionado quanto a primeira vez, seus olhos grandes, nem piscavam, focados no homem mais velho com atenção. Sabiamente, a mulher encheu uma xicara entregando ao marido, em seguida, se sentando no tapete ao lado do neto.
-O camponês, que tinha um coração mole e justo, correu até o animal. Com as mãos trêmulas pelo frio, desfez os nós e libertou o Tsuru. A ave abriu suas grandes asas, olhou fixamente nos olhos do homem com profunda gratidão e voou em direção ao céu cinzento, desaparecendo entre as nuvens.- fez uma pausa bebendo um gole de chá para molhar a garganta. - Naquela mesma noite, uma terrível nevasca castigou a montanha. Alguém bateu à porta do camponês. Ao abrir, ele encontrou uma jovem mulher, trêmula e coberta de neve, incrivelmente bela e de passos silenciosos. - o homem olhou para a esposa, piscando um olho com bom humor, sendo repreendido pela mulher da mesma forma. Sem perder o ritmo da história, continuou:
- Ela pediu abrigo contra o frio, o camponês, por ser bom, não negaria esta caridade a qualquer pessoa, mas a beleza da mulher fez com que acreditasse que deixá-la dormir em sua pobre cabana seria realmente uma honra. Atraídos um pelo outro, instantaneamente apaixonaram-se. "Eu serei sua esposa", disse a mulher. O jovem ficou surpreso e com medo de sua situação precária, dizendo: "Eu sou muito pobre, e não poderei sustentá-la." A bela mulher respondeu, apontando para um pequeno saco, "Não se preocupe, temos muito arroz", e começou a preparar o jantar. O jovem ficou confuso, mas feliz, e os dois começaram então uma nova vida juntos. E o saco de arroz, misteriosamente manteve-se sempre cheio.
A criança, focada na história, nem percebia os olhares que os mais velhos trocavam, parecendo repetir o que o Ojiisan falava, gravando tudo na memória.
- A noiva era delicada, atenciosa e tinha tanta disposição para o trabalho quanto era bonita, e assim eles viviam muito felizes. Mas o camponês, que já tinha muita dificuldade em viver sozinho, ficou muito preocupado em não conseguir cobrir as despesas de sua nova vida de casado. Percebendo sua preocupação, a esposa perguntou se poderia construir-lhe um quarto de tecelagem, disse ao marido que produziria um tecido especial, então poderia vender para ganhar algum dinheiro. - parou de falar com uma pausa dramática, bebericando o chá.- Mas ela alertou, que precisaria fazer seu trabalho em segredo, e que ninguém, nem mesmo ele poderia vê-la tecer. O camponês construiu então outra pequena cabana nos fundos de sua casa, e quando ficou pronto, ela disse: "Você tem que prometer nunca espreitar-me." Dito isso, se trancou no quarto. Lá, ela trabalhou durante dias, e o jovem pacientemente esperou. Por dias, ouvia-se apenas o som do tear trabalhando no quarto escuro (ton-karari, ton-karari).- Fez a imitação do som, usando uma careta boba, que fez sua esposa e neto rirem. - Quando ela saiu, trazia nas mãos um tecido de beleza divina, brilhante e macio. Eles o venderam por um bom preço e conseguiram comida para o inverno. Mas o mistério consumiu o coração do homem. Na terceira vez que ela se trancou, a curiosidade foi maior que a sua palavra. Ele abriu uma fresta da porta...
O pequeno prendeu a respiração, os olhos arreglados, enquanto esperava, o tom de suspense, o fazendo esquecer que segurava uma xicara de chá.
-Lá dentro, não havia uma mulher. No lugar dela, um grou depenava as próprias penas com o bico, tecendo-as fio a fio no tear para criar o pano brilhante. Ao perceber que havia sido descoberta e que o marido havia quebrado a promessa e a confiança, a Tsuru chorou. Ela voltou à forma humana apenas para se despedir, dizendo que o feitiço havia sido quebrado. Ela abriu as asas e voou para sempre, deixando o camponês sozinho com o arrependimento de ter quebrado sua palavra, e perdido o amor de sua vida.
Matthew, suspira, seus olhos de criança, brilhando, enquanto imaginava, toda a lenda em silencio. O idoso, olhava para ele, com orgulho aparente em seus olhos, feliz por vê-lo tão imerso e pensativo. Como de costume, pigarreou, para chamar a atenção do pequeno de volta, enquanto dizia em tom sábio:
- O Tsuru nunca esquece quem o ajuda, isso por que a lealdade é o laço mais precioso entre duas almas. Assim, como a confiança... valorizar essas duas coisas, é a parte mais importante da vida.
