A tempestade havia começado ainda durante a descida pelas estradas da floresta.
Liana percebeu primeiro pelo cheiro.
Terra molhada. Pinheiros úmidos. Maresia atravessando o vento frio que entrava pelas frestas da carruagem escura enquanto os cavalos avançavam lentamente entre árvores enormes e antigas demais.
O reino de Valdarya não parecia com nenhum dos outros territórios da União.
Não havia estradas iluminadas. Não havia cidades movimentadas. Não havia ouro pendurado em pontes ou torres brancas tentando impressionar visitantes.
Tudo parecia... silencioso.
Floresta. Pedra. Névoa. Mar.
E aquilo deixava alguma coisa inquieta dentro dela.
Sentada diante da janela parcialmente embaçada, Liana observava sombras das árvores atravessarem o vidro enquanto tentava ignorar o peso sufocante do vestido ainda preso ao corpo depois da cerimônia.
O casamento.
A palavra fazia vontade de rir e vomitar ao mesmo tempo.
Casamento.
Como se aquilo tivesse sido escolha.
Ela apertou os dedos contra o tecido claro sobre o colo, sentindo os anéis frios em suas mãos enquanto tentava não pensar no olhar satisfeito do pai durante a cerimônia diante da União.
Como se tivesse fechado um excelente acordo comercial.
Como se tivesse vendido um cavalo raro.
Ou uma arma.
Ou qualquer coisa que não respirasse.
A carruagem balançou levemente ao passar por uma parte mais irregular da estrada.
Do lado oposto, Rainha Serena Valemont permanecia em silêncio absoluto desde que deixaram o salão principal horas antes.
A coroa negra repousava parcialmente torta sobre os cabelos escuros agora levemente úmidos pela chuva anterior. O pesado manto real ainda cobria seus ombros, mas parecia mais uma armadura cansada do que símbolo de poder.
Ela olhava pela própria janela. Distante. Perdida em algum lugar inacessível.
Dezoito anos.
Liana ainda não conseguia acreditar naquilo.
A rainha mais temida da União das Sete Coroas tinha dezoito anos.
E mesmo assim... havia algo profundamente antigo nela.
Não no rosto.
Serena era jovem demais para o peso que carregava nos olhos.
Mas no silêncio.
No jeito como ocupava espaço sem fazer esforço. Na postura constantemente alerta. Na exaustão escondida embaixo de toda aquela frieza controlada.
Ela parecia alguém que nunca dormia completamente.
Liana desviou o olhar imediatamente quando percebeu que estava observando tempo demais.
A última coisa que queria era sentir curiosidade pela mulher com quem havia sido obrigada a se casar.
Do lado de fora, o mar finalmente apareceu entre as árvores.
Escuro. Violento. Prateado sob os relâmpagos distantes.
E então Liana viu a casa.
Não.
A construção.
Ela surgiu lentamente entre a névoa no alto dos penhascos como algo arrancado de uma pintura antiga: pedra escura, janelas douradas pela luz interna, torres pequenas cobertas de hera, e atrás dela...
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As Correntes da Coroa
FantasíaSinopse Quando o poderoso warlock Kael Voss oferece a própria filha em casamento diante da União das Sete Coroas, Liana acredita estar assistindo ao fim da própria liberdade. Vendida como moeda política, ela espera encontrar na jovem Rainha Serena V...
