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Capitulo unico.

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Kim chamou Chay para a festa numa terça-feira à noite, enquanto o ômega tentava se concentrar num acorde menor que não queria se encaixar na música. Ele apareceu na porta do quarto de Chay sem avisar — o que já era um evento raro o suficiente para fazer o coração do mais novo disparar — e o olhou daquele jeito que sempre o desarmava: como se Chay fosse um problema que ele ainda não tinha resolvido, mas que já consumia tempo demais de seus pensamentos.

— Veste algo decente — ele disse, jogando uma caixa escura na cama. Dentro, um paletó de veludo cor de vinho, macio como pele de animal. — Amanhã, oito horas. Não me faça esperar.

Chay abriu a boca para perguntar onde, para quem, por que ele, mas Kim já tinha virado as costas. Seu cheiro ficou pairando no ar alguns segundos depois que ele saiu — cedro e pimenta preta, com aquela nota escura de algo que Chay nunca aprendeu a nomear, só a sentir. Como um incêndio longe demais para queimar, mas perto o bastante para aquecer.

Chay sabia o que Kim estava fazendo. Kim não perguntava. Kim anunciava. Era a maneira dele de proteger e controlar o ômega ao mesmo tempo, duas faces da mesma moeda de prata que ele nunca deixava ninguém tocar. E Chay? Ele apenas alisou o paletó com os dedos, sentindo o tecido frio sob as pontas, e sorriu sozinho no silêncio do seu quarto.

Porque, sim, ele era fraco. Fraco por Kim. Fraco do jeito que só um ômega pode ser fraco por um alfa que nunca aprendeu a pedir, só a tomar. Mas o que Kim não sabia — o que ninguém sabia — é que Chay também aprendera a tomar. Só que ele fazia isso devagar, com paciência, deixando o alfa pensar que a corda estava na mão dele.

Na noite seguinte, a chuva já ameaçava desde o fim da tarde, quando saíram da garagem da mansão Theerapanyakul. Kim dirigia em silêncio, uma das mãos no volante e a outra descansando sobre a coxa de Chay, os dedos longos e quentes mesmo através do tecido da calça. O ômega observava o reflexo das luzes da cidade escorrendo pelo vidro molhado, e pensava que talvez existisse um deus em algum lugar disposto a lhe dar pequenas tréguas assim: Kim ao seu lado, o mundo lá fora reduzido a manchas coloridas, e a certeza fugaz de que, por alguns minutos, ninguém os procurava.

Mas deuses também se distraem.

O barulho veio primeiro como um estalo seco, depois como um zumbido irregular que fez o volante tremer nas mãos de Kim. Ele praguejou baixo — algo em tailandês que Chay não entendeu completamente, mas que soou obsceno o suficiente para fazê-lo corar — e guiou o carro para o acostamento com uma calma que pareceu ensaiada. Talvez fosse. Kim nunca fazia nada sem controle, nem mesmo quando perdia o controle.

— Pneu furado — ele anunciou, como se Chay não tivesse ouvido o estrago. — Fica aí.

Chay ficou. Viu a silhueta alta de Kim se destacar contra os faróis acesos enquanto ele contornava o carro, a chuva já engrossando, transformando seus cabelos escuros em fitas coladas na testa. As costas da camisa branca começaram a escurecer em segundos, a água encontrando caminho por baixo do paletó que ele não teve tempo de apertar. Por um momento, apenas um momento, Chay achou que tudo se resolveria. Kim resolveria. Kim sempre resolvia.

Depois, ele abriu o porta-malas.

E congelou.

A chuva não parou de cair enquanto Kim ficou ali parado, as mãos apoiadas na borda do compartimento vazio, a cabeça baixa. Chay viu seus ombros subirem e descerem numa respiração profunda — aquela respiração que ele usava quando estava a três segundos de quebrar alguma coisa, ou alguém. Quando ele finalmente voltou para a porta do motorista, seu rosto estava uma máscara de gelo, mas os olhos... os olhos queimavam.

— Sem macaco — ele disse, baixo, sentando-se sem fechar a porta, deixando a chuva invadir o carpete. — Aquele filho da puta do mecânico deve ter esquecido. Ou feito de propósito. Vou descobrir.

Outras Formas de Queimar.Stories to obsess over. Discover now