Olivia
Cinco meses podem parecer uma eternidade quando o seu mundo desaba, mas para mim, pareceram um único e contínuo segundo de queda livre. Eu costumava acreditar que a carreira de uma mulher era construída sobre pilares de competência, noites em claro e estratégia. Eu estava errada. No meu caso, bastou o ego de um homem que pensava ter o mundo sob seus pés, e uma secretária com menos escrúpulos do que eu para que toda a minha trajetória fosse reduzida a uma nota de rodapé suja e fofoca corporativa.
O café na minha caneca já estava frio, o gosto amargo combinando perfeitamente com a manhã cinzenta de Montreal que eu observava pela janela do meu pequeno apartamento. Eu havia fugido para cá não apenas pelo anonimato, mas pelo frio. O frio parece anestesiar a humilhação de ser chamada de "alpinista social" por pessoas que nunca viram o meu esforço. Lá fora, a neve caía em flocos pesados, dançando de forma caótica antes de se acomodar sobre o asfalto da Rue Saint-Denis. Era o tipo de inverno que expulsava as pessoas das ruas e as obrigava a encarar suas próprias mentes. Para mim, era o refúgio perfeito.
Mudar-se de Toronto para Montreal não foi uma escolha estratégica de carreira; foi uma fuga desesperada. Eu precisava de uma fronteira linguística, de um clima que combinasse com o meu estado de espírito e de um lugar onde o nome "Olivia Carter" não evocasse olhares de julgamento ou sussurros de "ela subiu na empresa porque estava na cama do herdeiro".
Meu novo apartamento era um reflexo fiel desse meu novo eu: minimalista ao extremo. Poucos móveis, muitas caixas que eu ainda não tinha coragem de abrir e um silêncio que, às vezes, chegava a zumbir nos ouvidos. Não havia quadros nas paredes, não havia porta-retratos com fotos de família ou do meu antigo noivado. Eu havia deixado tudo para trás, incluindo a versão de mim que acreditava em finais felizes e em lealdade.
Viver aqui era como estar em uma câmara de privação sensorial. O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio de tijolos escuros, com o pé-direito alto e janelas que pareciam deixar o vento uivar mais alto do que o necessário. Eu passava os dias organizando pastas no computador que ninguém via, apenas para manter a ilusão de que eu ainda tinha algum controle sobre a minha vida.
Eu olhei para o e-mail novamente.
Montreal Northblades.
Era irônico. Eu havia fugido para o silêncio, mas estava prestes a pedir um emprego no lugar mais barulhento da cidade. Um estádio de hóquei era feito de gritos, impacto e adrenalina, era tudo o que eu vinha tentando evitar. Mas, olhando para aquela neve caindo, percebi que o silêncio estava começando a me sufocar.
Eu precisava do barulho. Precisava do desafio. E, mais do que tudo, precisava provar para mim mesma que a minha inteligência não dependia do sobrenome de nenhum homem ou de um anel de noivado que agora provavelmente estava no fundo de algum lixeiro em Toronto.
Apertei os dedos em volta da caneca. Se Montreal queria me dar um recomeço, eu o aceitaria de braços abertos. Mesmo que isso significasse mergulhar de cabeça no ninho de marmanjos superestimados que era a liga de hóquei.
Eu só precisava de uma chance. E os Northblades tinham acabado de me dar uma.
De: Departamento de Gestão de Talentos – Montreal Northblades
Para: Olivia Carter
Assunto: Convite para Entrevista: Gerência de Engajamento e Branding
Minha relação com o hóquei sempre foi de uma indiferença educada, mas em Montreal, ignorar os Northblades era como tentar ignorar a própria gravidade. Eles não eram apenas um time, eram uma instituição moldada em gelo, sangue e um prestígio secular que nenhuma crise era capaz de arranhar. O e-mail à minha frente era o reflexo exato desse poder, formal, cirúrgico e carregado com o peso de uma organização que movimentava milhões e administrava a paixão febril de uma nação inteira.
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Off the ice
RomanceEla entrou no gelo para contar histórias, mas não esperava se tornar uma delas. Entre as luzes da arena, câmeras ligadas e a violência elegante do hóquei profissional, Olivia tenta sobreviver ao caos dos Northblades enquanto registra a alma do time...
