Prólogo

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“Quando a primeira lágrima cair.”

Lembro-me bem da sensação de estar em uma montanha-russa; mãos suadas, coração acelerado, medo e então adrenalina.

Não foi tão diferente como naquele dia.

Antes de entrar naquele lugar, senti como se precisasse enfrentar a maior montanha-russa que pudesse existir, dessas enormes que fazem curvas e alcançam lugares tão altos e inimagináveis. Me senti assim, de corpo trêmulo, adrenalina e, principalmente, medo.

Muito medo.

Quando saí daquele lugar, me senti zonzo, com a visão turva e o estômago embrulhado. Eu poderia colocar tudo para fora a qualquer momento.
Porém, eu me privei disso. Mesmo tão frágil e de passos falhos, eu ainda tentei ser eu, tentei ser forte.

Lembro-me também da sensação de luto, de que algo em mim morreu, meus sonhos, vontades, desejos… Naquele instante, tudo se foi, como se, em uma passagem rápida pelo meu ser, se tornasse agora apenas uma lembrança, restando somente meu corpo, minha carne.
Tal qual também está partindo, se esvaindo aos poucos, quebrando e secando. Sugando tudo de mim, me matando.

Eu posso ouvir, mesmo depois de meses, os olhos atentos em mim, os aplausos a cada passo muito bem ensaiado e pensado, os suspiros quando Black Swan alcançava suas melhores notas, a intensidade e os arrepios em minha pele por estar fazendo o que sempre sonhei, mergulhando em um oceano tão calmo, me levando a níveis que me causavam as melhores alucinações.
Estar no palco era o que me preenchia, me cativava e me orgulhava. Era o que me transformava.
Emergindo a cada nota daquele violino tocando tão alto, eu me entregava, dando tudo de mim — a minha alma, meu corpo, minha mente.
Porém, em um mar tão calmo e acolhedor, uma onda gigante me atingiu, me cobriu e me destruiu, como se eu não fosse nada.
Os aplausos já não se ouviam mais. Os suspiros de emoção agora eram de desespero e preocupação. Os olhos marejados já não eram mais de admiração, e sim de medo.
Foi então nesse momento, em meio ao palco do teatro Alla Scala, com mais de duas mil pessoas, que começou o início do fim da minha vida.

— Você tem osteossarcoma. É um câncer raro que afeta os ossos; no seu caso, o das duas pernas, dos pés ao início e fim do seu fêmur. Ele não está em um estágio avançado. Podemos iniciar com uma cirurgia na tentativa de remover o tumor sem afetar tanto o seu tecido ósseo e a desenvoltura dos membros afetados. Você tem chances de se recuperar bem e voltar a dançar.

Desse lugar eu saí e me aprofundei no mais duro desespero, na dor da alma, dessas que sufocam e te perturbam. Senti como se tudo ao meu redor se tornasse um borrão, sem som, sem cor, sem luz. Fui sufocado, por mãos tão fortes que eu só desejei partir o quanto antes. Quis esquecer.

A primeira lágrima caiu, mas quando vi nos olhos dele as mesmas lágrimas e o mesmo peso que elas tinham, eu quis ter esperança.

Ansiava te reencontrar.

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