— Isso mesmo, mãe! Acredita? — Digo, enquanto apanho a bolsa das costas e jogo para outro. — Nossa, ainda bem que me notaram rápido. Se passasse mais uma semana sem dinheiro, eu iria morar no olho da rua. — continuo. Tiro os tênis e jogo para o outro canto da sala — Sim, eu sei que tenho que tomar cuidado. Mas não se preocupe, eu sei me virar. É uma casa bonita, grande e elegante. Vou ter uma virada de vida lá.
Me jogo no sofá, colocando todo o meu peso contra o couro ressecado que veio junto ao apartamento, ou posso chamar isso aqui de cubículo?
— Também te amo. Beijos!
Desligo o celular e coloco na mesa de centro da sala. Respiro fundo, o ar entrando lentamente nos pulmões, preenchendo o espaço. Acabo de receber uma proposta de trabalho que vai me pagar bem, me dar estadia e, além de tudo, é dentro da cidade. Desde que me mudei há 3 semanas, se não encontrasse um emprego, teria que voltar para São Paulo. É, a cidade que nunca dorme, inclusive os moradores. Minha mãe que me perdoe, mas aquilo não é pra mim e nunca será. Sempre visei o interior, a paz longe da cidade grande. Pode ser em qualquer horário sem me preocupar em ser assaltada ao por o pé pra fora. Dormir sem barulho de trânsito na minha janela em qualquer hora do dia. Estar aqui hoje é um sonho se tornando realidade, e com esse emprego, minha vida vai finalmente mudar.
Pego novamente o celular e releio a mensagem que recebi logo apos a ligação. O endereço é de um bairro que não conheço, visto que ainda não tive a oportunidade de conhecer bem a cidade. Jogo o endereço no google maps, mas algo me surpreende, a casa está borrada na imagem. Não há imagens de anos anteriores também. Ah, normal, já me ocorreu antes. O que importa é eu conseguir chegar lá. O trajeto está dando 40 min de distância, daria uma boa caminhada se eu não fosse de mala e tudo.
Sair da casa da minha mãe, deixar minha irmã, que é minha confidente, e meu namorado para trás não foi nada fácil. Talvez a decisão mais difícil da minha vida até o momento, mesmo tendo apenas 20 anos. Troquei o conforto da minha casa pela minha vontade de vencer na vida, e é isso que estou designada a fazer. O que me conforta é o apoio que tenho deles. Claro, foi uma choradeira desgraçada na semana que ia me mudar, no dia e antes de entrar no carro, mas saber que eles confiam e acreditam no meu potencial, é o que me faz ter força de seguir. Ser babá no começo dos 20 é apenas a porta de entrada pro meu futuro, pois com esse salário vou poder começar minha faculdade de pedagogia, que também tem nessa cidadezinha.
A cidade é pacata, tranquila e não aparenta perigo. Ruas tranquilas, o povo é educado e cordial. Me sinto em casa desde o primeiro momento que pisei aqui.
Bom, conforme conversei com Márcia, está combinado de eu começar amanhã. Na verdade, eu já conversei com ela há uma semana, mas apenas hoje me deu o retorno confirmando que fui aprovada. E apenas hoje dei a notícia para minha mãe, Bernardo e amigos.
Estou bem empolgada e ansiosa, tanto pelo começo do novo ciclo da minha vida, quanto pelo nervosismo que vou ter que morar na casa para cuidar das crianças. Márcia e o marido estão em viagem, e voltam apenas no mês que vem. Enquanto isso, fico em casa com as crianças.
ESTÁS LEYENDO
A Casa 1307
AcciónUma proposta de emprego perfeita. Boa demais, talvez. Aos 20 anos, tudo o que Nina quer é recomeçar. Longe de São Paulo, do caos, do barulho e de tudo que ficou para trás, uma nova cidade pequena parece exatamente o que ela precisa para finalme...
