CAPÍTULO 1 - O ESTILHAÇO DO REI-SOMBRA

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Dizem que essa história nunca foi contada inteira. Ela chegou até nós em pedaços — como a própria lâmina. São partes esquecidas, distorcidas e repetidas por gente que não entende o que está dizendo, mas sente. E sentir, às vezes, é o suficiente. 

Antes de qualquer forma, havia a Chama. Não luz, não calor. Vontade. 

Ela não obedecia leis, não seguia ordens e não precisava de nada para existir. Criava, consumia, persistia. E, por um erro — ou talvez por um capricho —, ela tocou o mundo doshomens. Ninguém sabe dizer ao certo quando começou, apenas que, em algum lugarque a memória já perdeu, uma garota encontrou algo que não deveria existir.

Ele não parecia vivo, mas também não estava morto. A pele pálida refletia a luz como vidro quebrado e havia algo sob ela — algo que se movia devagar demais para ser sangue. Anya não recuou. Não por coragem, mas por instinto. E quando tocou nele, o mundo mudou de escala.

— Por quê? — a voz não veio doar; veio de dentro, como um incêndio tentando falar.

Anya não soube responder de imediato. Apenas apertou mais a mão contra o peito dele, sentindo a pulsação do impossível.

— Porque você estava morrendo— ela disse, enfim. 

Isso foi o suficiente. O vínculo não nasceu do amor; nasceu da escolha. E escolhas têm peso. Saycrow aprendeu rápido demais o que eram os humanos: instáveis, contraditórios e capazes de destruir justamente o que amam. Mas Anya lhe ensinou outra coisa. Ensinou que nem tudo precisava ser controlado. Que algumas forças só precisavam ser sentidas.

Ele acreditou. Esse foi o erro.

Para protegê-la, Saycrow fez algo que não poderia desfazer. Ele não criou uma arma; ele se dividiu. A lâmina não era metal, era ausência. Um vazio moldado para conter o que ele não podia mais segurar sozinho. Cada vez que ele a usava, menos dele permanecia inteiro. Quando entregou a espada para Anya, não foi um gesto de presente; foi uma rendição. Ela não entendeu na hora, mas segurou o peso mesmo assim.

E o universo percebeu. O que brilha demais sempre atrai o que rasteja.

O primeiro deles se chamava Varok, mas o nome importava pouco. Antes dele, outros desejaram. Depois dele, outros desejariam. Varok não era exceção; era apenas o rosto que a humanidade escolheu para sua fome de controle. E o controle exige destruição. A aldeia caiu rápido — fogo, som e gente que não teve tempo de entender o que estava acontecendo. Sem a lâmina, Saycrow não lutou. Não porque não pudesse, mas porque não havia cálculo que salvasse aquilo.

Ele foi levado. Dizem que a dor não o quebrou porque ele já estava quebrado muito antes dos gritos começarem.

— A Chama não se curva — ele disse, mesmo quando a voz já não sustentava o corpo. — Ela consome.

Varok sorriu, achando que tinha o tempo a seu favor. Ele não tinha.

Anya voltou, mas não era mais a mesma garota da floresta. A lâmina a reconheceu antes de qualquer um. O que ela carregava agora não era apenas amor; era decisão. Ela atravessou o que estava de seu mundo sem hesitar. Não salvou a todos. Nem tentou. Ela só foi até ele.

Quando o encontrou, não dissenada. Não precisava. Encostou a mão no peito dele e, por um instante, a Chama respondeu. Mas não de graça. O que ela deu para aquela força não voltaria jamais.

A batalha que veio depois não é lembrada da mesma forma por todos. Alguns dizem que foi luz; outros, que foi silêncio. Varok morreu — isso é consenso —, mas antes de partir, deixou algop ara trás. Uma falha. Anya não caiu na hora, e isso foi o pior. Ela ainda teve tempo de olhar para ele e sorrir antes de a luz se apagar.

Saycrow tentou tudo. Forçou a Chama, quebrou o próprio limite, negou o fim com cada átomo de sua vontade. Mas algumas coisas não negociam.

Quando ela morreu, o mundo não acabou. Ele acabou.

O que restou não amava, não hesitava, não sentia. Corrigia. Ele não destruía por ódio.
Ele apagava o que insistia em se repetir. Planeta por planeta, erro por erro,até não sobrar nada que lembrasse quem ele um dia foi. Foi então que surgiualguém. Ninguém sabe de onde, ninguém sabe por quê. Só se sabe que ele nãotentou vencer Saycrow; ele o entendeu. E fez o único movimento possível. Dizemque havia cansaço em seus olhos, como se aquela não fosse a primeira vez quechegava tarde demais. Ele não ergueu a lâmina como um herói. Ergueu como alguém que já conhecia o preço.

A lâmina se partiu. Não como uma falha, mas como uma escolha. Fragmentos espalhados, memória quebrada, consciência presa no aço. Silêncio. 

Um deles caiu aqui. Na Terra. E desde então, espera. Não por alguém digno, mas por alguém disposto a pagar o preço.

Fragmentos da Chama: Protocolo KrauserStories to obsess over. Discover now