Eu já estive em muitas situações embaraçosas, mas ter sido salvo como uma donzela em perigo está com total certeza no topo da minha lista.
Bom, teve aquela vez em Nova York na qual um cara com manoplas gigantes atravessou o meu esterno. E como eu poderia esquecer do fatídico feriado em que um Super-herói de segunda classe tentou me desintegrar com um laser? Foram longas horas cheirando tal qual uma pipoca queimada. A regeneração do meu corpo costuma cuidar de todo o estrago físico, mas o meu orgulho? Ah, esse sim demora a cicatrizar.
No entanto, não acho que exista humilhação maior do que estar jogado no chão como um lixo em um maldito beco sujo, sangrando um líquido espesso e de tom azul metálico nada saudável enquanto a 'Miss Bondade' vem flutuando devagar na minha direção.
- Você está péssimo, Vórtex. - Disse ela, pairando a trinta centímetros daquele chão imundo. Seus cachos ruivos brilhavam em destaque sob a luz fraca e amarelada do poste.
- Isso aqui é a nova moda, Lumine, ou melhor, Charlotte. - Eu resmunguei, sentindo minha costela se soldar em um estalo seco e nojento. Essa é uma das piores partes da regeneração. Tentei cuspir aquele sangue amargo, mas tudo que consegui foi engasgar antes de responder. - O visual 'semi morto' está em alta em Paris. Mas o que faz aqui? Um gato subiu em algum telhado ou tem alguma velhinha por aqui que perdeu o rumo da farmácia? Já tem heróis de verdade cuidando dessa situação, não precisam de uma 'pirralhenta como você vindo aqui salvar o dia.
Ela pousou. As botas dela no asfalto fizeram um som suave, ao contrário do meu batimento cardíaco que decidiu fazer um solo de bateria no meu peito. Nervosismo? Talvez, eu estava esperando que ela me algemasse e me jogasse na cela mais fria de uma prisão qualquer. Afinal, era isso o que heróis como ela faziam com monstros como eu.
Mas ela não fez isso. Ela se agachou com cuidado ao meu lado, as sardas se franzindo em uma careta de preocupação que não combinava nada com nosso histórico de lutas. Mas desta vez eu estava mesmo em um estado deplorável, admito, ela me olhava com uma pena nítida, quase como se eu fosse um mero animal ferido e indefeso. Nem mesmo eu sabia quanto tempo seria necessário para o meu corpo reparar todo aquele estrago.
- Eles estão vindo, Edgar. E dessa vez eles não estão em busca de te prender como das outras vezes, eles querem terminar o serviço. Você vai para o laboratório federal.
Eu olhei em seus olhos - aqueles olhos azuis como céu em um dia de verão, um céu que eu nem tinha certeza se era digno de admirar. - e com isso percebi, o meu nervosismo não era por saber qual seria o meu destino caso algum dos outros heróis me encontrasse ali tão vulnerável. Era sobre o fato de que, pela primeira vez em vinte e seis anos de pura vilania, alguém estava me olhando como se eu fosse uma pessoa também.
- Primeiro de tudo, miss bondade, é Vórtex pra você. E segundo, por que diabos você está se importando com isso? - Perguntei, a ironia falhando em minha voz.
Ela estendeu a mão. Não para me atacar, mas para me ajudar a levantar.
- Porque eu vi você hesitar antes de assaltar aquele banco na semana passada, Vórtex. - Ela disse em um tom travesso, como se deixasse escapar o segredo de alguém. - Você salvou até mesmo o cão de guarda, seu idiota. E venha logo, antes que eu me arrependa de ser uma pessoa tão incrível.
Eu peguei a mão dela. E foi naquele momento em que eu percebi que eu estava definitivamente ferrado. Não pela polícia ou por qualquer outro herói que pudesse me prender, mas por ela. Por aquela bondade inocente que viu em mim uma humanidade que eu já nem tinha tanta certeza assim se ainda existia.
Tentei manter a postura enquanto me apoiava no ombro de Charlotte. O contraste era comicamente ridículo: um brutamontes como eu, com o uniforme rasgado e cheirando a pólvora, escorado em uma garota de uniforme impecável e um sorriso que parecia ter saído direto de um comercial de pasta de dente.
Eu podia sentir o calor de sua pele através da malha fina de seu uniforme de heroína, aquilo me irritava profundamente. Não por ser algo ruim, longe disso, era confortável. Mas sim por me lembrar que o meu corpo ainda tinha terminações nervosas que serviam para algo além de sentir dor.
- Sabe que isso que está fazendo é um crime federal, não é? - Eu resmunguei, enquanto ela me ajudava a mancar devagar para fora daquele beco fedorento. - "Auxílio e cumplicidade a um supervilão charmoso." Dá uns dez anos de reclusão e a perda da sua carteirinha de Miss bondade da cidade, sabia?
Charlotte soltou uma risadinha, o som foi como um soco em meu estômago. Um soco de pelúcia, mas ainda assim um soco.
- Primeiro, você não é charmoso, Edgar. Você está com um pedaço de vergalhão saindo da sua panturrilha. Segundo, eu não estou te ajudando. Estou te levando para um interrogatório... privado. Ah, eu não me chamo 'Miss bondade', é Lumine.
- Sei, senhorita Miss Bondade. E onde será esse interrogatório? No seu quarto? Porque eu já vi esse filme, ele geralmente termina com menos roupas e mais ação.
Ela parou de andar e me olhou. Aqueles olhos azuis não tinham um pingo de malícia, apenas uma determinação irritante.
- No meu esconderijo. E se você abrir a boca para fazer mais uma dessas suas piadinhas sujas, eu juro que uso o meu poder de manipulação de densidade para fazer essa sua língua pesar uns dez quilos!
- Justo. - Eu disse, levantando as mãos em rendição. - E só para constar: eu não salvei aquele cachorro. Eu só... usei ele como escudo humano. Bem, que não era tão humano assim. Foi algo tático.
- Aham. Por isso que você deu um biscoito para ele antes de sair correndo?
Eu revirei os olhos e continuamos nosso caminho. Enquanto caminhávamos por entre as sombras, fugindo das luzes vermelhas e azuis que iluminavam algumas ruas daquela cidade tão entediante, o silêncio caiu entre nós. E foi em meio a esse silêncio que uma velha amiga decidiu bater na porta, aquela melancolia rotineira de quem já se acostumou com as brincadeiras de mal gosto do universo. E bem, aquela parecia exatamente com mais uma delas.
Eu olhava para a mão dela que ainda segurava a minha. A pele dela era jovem, talvez um pouco pálida, mas cheia de uma vida que tinha um prazo de validade. Eu, por outro lado, era apenas um erro estático. Alguém que o universo considerou tão insignificante que esqueceu de dar um prazo para acabar. Já vi impérios caírem e peças de roupas ridículas voltarem à moda umas três vezes. Eu sempre vou continuar aqui, regenerando cada uma das minhas células, enquanto ela...
Charlotte tropeçou em um desnível da calçada, me tirando de meus devaneios ao soltar um "ops" baixinho e rir do próprio desastre enquanto tentava recuperar o equilíbrio. Ela era tão... temporária.
- Por que você está me olhando com essa cara de quem viu um fantasma? - Perguntou, arqueando uma sobrancelha ao me encarar.
- Estava pensando que se você vai carregar o maior peso morto da sociedade, vai precisar de botas melhores. - Menti, com a rapidez de quem já domina a arte das mentiras a décadas... talvez séculos.
- Engraçadinho. Estamos quase chegando, tente não morrer até chegarmos lá. Você já está sujando todo o meu novo uniforme com esse seu sangue azul esquisito.
- É sangue nobre, sua plebeia. - Rebati, mas apertei sua mão um pouco mais forte quando senti outra costela voltar ao lugar.
Eu sabia o que estava acontecendo. Era o começo do fim. O vilão estava sendo salvo pela heroína, e a piada final seria por minha conta: o universo fará com que eu me apaixone pela única coisa que eu não posso manter pra sempre.
Foder a minha vida deve ser a brincadeira favorita de seja lá quem for que controle este mundo, esquecer de dar um prazo para a minha morte já não é o suficiente?
Mas, olhando para aqueles cachos ruivos sob a luz da lua, decidi que, por hoje, apenas por hoje, o suspense de "quem vai nos matar primeiro?" era mais fácil de lidar do que a certeza de que vou sobreviver a ela.
ESTÁS LEYENDO
Enquanto o céu for azul.
Romance" E no final, pude ver seus olhos azuis brilharem uma última vez ao me olhar. Em outras vidas, desejo te encontrar de novo, e quando nossos olhares se cruzarem; Vou voltar imediatamente para aquela época em que éramos apenas dois jovens acreditando...
