Thiago sempre foi um garoto que vivia acompanhado, e nem falo de pessoas mesmo. Ele sempre imaginava alguém que era o seu amor. Deixava um espaço na cama, na rua andava com uma mão fechada como se tivesse outra a segurando.
Ele não entende o porquê, mas sempre fez isso. Vivia imaginando cenários românticos e queria vivê-los.
Queria muito.
Ansiava por aquilo.
Ele era normal, tirando essa parte que escondia de todos.
Ele jogava basquete, era até bem amigo dos pais, puxava "eiei!" no meio do parabéns de aniversário... sabe? Comum.
Tá.
Comum também é uma palavra muito forte.
- Bom dia, Thaysa!
- Thiago.
Sussurra.
Imperceptível.
Bom, ele era um cara trans.
Hora da educação sexual!
Pessoas trans são as que não se identificam com o gênero imposto ao nascimento.
Se eu nasci com o gênero imposto feminino mas não me identifico com ele, sou um homem trans. Se nasci com o gênero masculino e não me identifico, sou uma mulher trans.
Não "viramos" homem ou mulher! Afinal não se vira nada, só nos entendemos e mudamos como podemos pra se sentir mais a gente.
- Quantas vezes vai demorar até você corrigir ela? - Pietra, sua amiga, pergunta enquanto a mão pintada com caneta pega mais salgadinho. - Sério, você já mudou seu nome e tal.
Pietra tinha cabelo cacheado meio ruivo, usava aparelho desde o ano passado e estava com o uniforme branco da escola, o qual marcava forte os peitos, afinal ela não era magra.
- Ela é uma vaca mesmo.
- Já tô acostumado com a Ana Clara.
- Hmm.
A escola Antonieta Azul de Rubens era grande. De terreno, ocupava meio quarteirão, mas era toda num nível só.
- Tá, eu te respondo: é uma merda corrigir tudo toda hora. - soltando os punhos que estavam fechados, pega o salgadinho na mão da garota - E ela sabe.
- Tá, se você não vai, quem sou eu. Será que a fila já diminuiu?
- Sei lá, mesmo com salgadinho vai comer?
- Oxi, os meninos levaram metade do negócio!
- Por que será, hein!? Falei que era pra ter ficado na sala.
Ele quase podia ouvir sua mãe o corrigindo:
"QuE éRaMoS pRa TeR"
Suspiro.
- A tia nunca deixa ficar lá.
Ela dá de ombros.
As salas eram dois corredores diferentes: um pro fundamental I e o outro, interceptado pelo pátio, pro ensino médio. Os dois cercados e com portão de grades. O pátio era grande e só tinha uma cobertura, sem paredes. Meio prisão e muito mato.
- Ô Dudu! A fila tá grande?
A voz afina pra perguntar pro menino magro e loiro.
- Tá não, mas já, já a tia deixa de servir.
Eles não tinham nada a ver, mas a Pietra tinha uma quedona por ele.
Eu? Acho nada dele além de ser um padraozão. As meninas matam por ele.
- Valeu.
Ele acena e continua andando pro lado direito do terreno enorme.
- Tá vendo? Vamo lá.
Me levanto da grama e vou atrás dela, né.
Aqui temos a fama da melhor escola de Céu Azul, porque a fundadora da cidade deu aula e "fundou" a escola.
A fila tava pequena, mas porque era carne de soja.
Aquelas pedrinhas cheias de nervo que chamam de carne moída.
Eu normalmente nem como. Só fico suave na grama que tem sombra. Se der sorte, a Pi tá comigo.
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Robbers
RomanceThiago sempre dormiu com a mão fechada, segurando uma mão que não existe. Ele é um cara trans tentando sobreviver ao ensino médio, ao basquete e a um acordo idiota que fez por um milkshake. Agora a menina do time vai dormir na casa dele pra eles...
