Lembro-me da luz, não da luz vulgar que inunda os campos ao amanhecer, mas daquela que parecia nascer apenas para ela: suave, dourada, quase sagrada. Havia algo na forma como o sol repousava nos seus cabelos que me levava a crer, com uma convicção quase infantil, que Deus ainda caminhava entre nós.
Naqueles dias, eu era um homem completo. Chamava-me Alaric Viremont e tudo o que eu era, tudo o que pensava ser, estava ancorado em três pilares: a fé, a honra... e ela, Isolde.
Ainda hoje, após tantos séculos que já perdi a coragem de contar, o seu nome continua a ecoar dentro de mim como uma prece que nunca encontrou resposta.Vivíamos numa quietude rara, distantes da violência que lentamente se infiltrava nas fronteiras do reino. A guerra era, para nós, uma ideia distante — um rumor que chegava enfraquecido pelas colinas e pelas florestas que protegiam o nosso lar.
Permiti-me acreditar que estávamos a salvo. Que ingénuo fui! Foi o Padre Elias quem trouxe a verdade até nós. Não fui eu que procurei Deus naquele dia; foi Deus que veio bater à minha porta, usando a voz de um homem que eu respeitava desde a infância. Ele entrou no pátio com passos contidos, como se cada movimento carregasse um peso invisível. Não trazia a serenidade habitual consigo. Havia algo diferente nele, algo mais grave, mais inevitável.— Alaric — disse ele, inclinando ligeiramente a cabeça —, preciso de falar contigo.Conduzi-o para dentro. Isolde permaneceu junto à janela, imóvel, como se já conhecesse o desfecho daquela conversa antes mesmo de esta começar.— A guerra aproxima-se — disse o padre, pousando as mãos na mesa. — Já não é um rumor distante. Os homens foram convocados.Fez uma pausa.— O teu nome está entre eles.Senti o ar tornar-se mais pesado.— Há outros — respondi, tentando manter a voz firme. — Homens mais jovens. Mais preparados.O olhar dele não vacilou.
— Há poucos com a tua disciplina. Menos ainda com a tua fé.
Aquela palavra caiu entre nós como uma sentença.— Não me peças isso — disse, mais baixo agora.— Não sou eu que te peço — respondeu ele. — É Deus que chama. Voltei-me lentamente.— E se eu não quiser ouvir? Por um instante, algo nele quebrou — não totalmente, mas o suficiente.— Então viverás com o peso dessa escolha. Soltei um riso breve, vazio.— E se eu for... quem viverá com o peso do que acontecer aqui? O silêncio respondeu por ele.
E o breve desvio do seu olhar até Isolde confirmou tudo. Lembro-me da última manhã como se fosse uma ferida aberta que nunca sarou. O ar estava frio, mas não hostil. Havia um silêncio delicado, como se o mundo hesitasse em perturbar aquele momento. Isolde segurava uma carta junto à janela.— Promete-me que voltarás — disse ela, sem se virar. Aproximei-me e envolvi-a com cuidado, como se o tempo pudesse partir-se naquele momento.
— Volto sempre para ti. Era mentira. Não por má vontade, mas porque o destino não respeita as promessas feitas por homens que ainda acreditam ser ouvidos. O beijo que partilhámos foi lento e profundo, um adeus disfarçado de esperança. E depois... parti. Mas, antes da guerra, antes do sangue... fui à igreja, não por fé. Por desespero. As velas ardiam baixas, consumindo-se lentamente. O cheiro a incenso pairava no ar, pesado e quase sufocante. Durante anos, aquele fora o lugar onde tinha encontrado respostas.
Naquela noite, encontrei apenas silêncio. Ajoelhei-me diante do altar. Não como um homem devoto. Mas como alguém prestes a quebrar.— Ouve-me — murmurei, com a voz instável. — Não como servo... mas como homem. Respirei fundo, como se cada palavra exigisse algo que já não possuía.— Leva-me tudo o que quiseres. A minha força. O meu nome. O meu destino. Mas não... não a ela. Fechei os olhos com força.— Protege-a. A minha voz falhou.— Eu vou. Eu cumpro. Sangrarei em Teu nome, se for preciso. Mas mantém-na viva. Mantém-na segura. O silêncio foi imediato. Cruel... Estou a pedir-Te... pela primeira vez. Nada. Nem um sinal. Nem um eco.
Apenas se ouvia o crepitar distante das velas. Inclinei a cabeça, derrotado por algo que ainda não compreendia.
— Não me abandones. Mas já estava abandonado. Quando saí daquela igreja, algo em mim tinha mudado. Ainda não era ódio. Mas já não era fé. E, sem eu dar por isso, naquele exato momento... começava a minha queda.
*NOTA: USEM OS TRAVESSÕES COMO PAUSA ESTILISTICA/ÊNFASE E OS DOIS PRIMEIROS CAPÍTULOS VÃO SERVIR COMO TESTE*
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Quatrocentos Anos (1ªversão)
RomanceEle perdeu tudo. Na guerra, Alaric Viremont viu o amor da sua vida desaparecer... e com ela, tudo aquilo em que acreditava. Consumido pela dor, renunciou a Deus - e foi condenado a uma eternidade que nunca desejou. Agora, ele não vive. Ele permanece...
