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PRÓLOGO

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A decisão está tomada. A mente, clara como o céu em um dia sem nuvens.

Sento à beira da cama, respiro fundo e olho ao redor, absorvendo cada detalhe do quarto.

A luz da manhã deu lugar a um breu avermelhado, que se filtra pelas cortinas, indicando que o eclipse solar chegou ao seu ápice.

O cheiro de café fresco ainda paira no ar, mas é incapaz de sobrepor o rançoso aroma do sangue que escorre lentamente sobre o lençol outrora branco, gotejando ao chão como o tic-tac de um relógio cansado.

Ponho-me ao lado do pequeno corpo deitado em posição fetal. O viro de barriga para cima, desdobro suas pernas e apoio seus bracinhos ainda quentes sobre o peito imóvel.

Descalço seus tênis encardidos e observo, surpresa, o quão pesados eles são.

Ajeito o travesseiro com cuidado embaixo de sua cabeça… E pronto, agora parece apenas descansar de mais um dia agitado.

Poderia acreditar nisso se não fosse pelo ferimento de bala um pouco acima da nuca, ainda jorrando sangue, e pelos olhos tão opacos, um deles até ligeiramente estrábico. Não tenho coragem de fechá-los, embora saiba que nunca mais verão a luz.

Aprecio o calor e a textura do metal do revólver contra a pele do meu rosto, enquanto minhas memórias divagam entre o passado e o presente, amarrando tudo em um único nó. Lágrimas, sorrisos, ambições, mentiras que alimentam outras mentiras...

Estou tão... cansada. Cansada de fingir. De tentar sobreviver dia após dia neste palco imundo.

Não importa o quão boa uma peça seja, se ela se prolongar mais que o necessário, o público se enfada, se levanta e vai embora.
As cortinas precisam fechar. Faz parte do espetáculo.

A verdade é que já não há mais espaço para essa dor. Mesmo antes de toda esta desgraça, as noites insones se tornaram uma rotina corrosiva.

Me olho no espelho, e o rosto que me encara me causa repulsa.

Chega.

Juízo posto.

Pena irrevogável.

O cano da arma parece ter sido moldado para minha boca.

Sinto a pressão do gatilho em meu dedo enquanto brinco de procurar o limite até o disparo. A violência do gesto é contraditória à suavidade da certeza que me envolve.

Contemplo o quarto pela última vez, e um sussurro de alívio atravessa meu ser. Talvez por estar prestes a encontrar a paz que vejo refletida nesses olhinhos que não só me encaram, mas me convidam ao vazio.

Sou tomada por uma calma que desafia a lógica.

E então, numa ação íntima e devastadora, um estalo abafado grita:

— Fechem a última cortina!

Aperto o gatilho.

PARADOXO SANGRENTO Stories to obsess over. Discover now