cap¹

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Acordei às 5 da manhã como de costume. Levantei a tapa-olhos rosa de pelinhos e me sentei na cama, espreguiçando com cuidado para não acordar a fera.

Sim, a fera. Minha gatinha Marie. Por mais que seja uma bola de pelos brancos, macios e cheirosos — com o lacinho cor-de-rosa na cabeça combinando com a coleira de glitter pendurada no pescoço — não se engane: ela é um demônio quando quer. Ontem mesmo derrubou meu vidro de essência de morango só porque ousei dormir cinco minutos a mais.

Me levantei e logo tomei meu banho. Como todo ritual matinal: cuidei do meu cabelo longo e ondulado, passei creme com cheirinho de baunilha e me perfumei com a mesma fragrância de sempre: morango e baunilha. Me maquiei leve — só um corretivo, rímel e gloss cor de rosa claro — e vesti minha roupa: saia quadriculada rosa e branca, meia-calça preta, suéter cinza clarinho e meu par de coturnos brancos. Hoje fazia 16 graus lá fora. Peguei minha mochila juntamente com a bolsa de balé e desci para o andar de baixo.

Dei de cara com minha mãe, Natalie: uma cópia minha mais vivida, com seus longos cabelos ondulados e pretos e os mesmos olhos grandes que herdei. Ela já estava na cozinha, com a caneca de café na mão e um sorriso preguiçoso.

— Bom dia, meu amor. Quer que eu te leve hoje? Vou levar a Morgana. — Ela me serviu duas torradas com geleia de framboesa.

— Bom dia, mãe. Pode ser. — Sorri fraco, mordendo um pedaço do pão crocante enquanto a franja caía sobre meus olhos.

— Bom dia, gente. — Morgana apareceu descendo as escadas com a fúria silenciosa de quem acordou de mau humor. Seus cabelos vermelhos chamativos estavam presos num rabo de cavalo desajeitado. Vestia sua camiseta favorita do Metallica — a da turnê de 92 — uma jaqueta de couro vermelha e botas coturno pretas. Minha irmã tem onze anos, personalidade forte e é totalmente diferente de mim. Às vezes tenho a impressão de que ela saiu de um filme dos anos 80 e eu, de um comercial de sabonete.

— Morgana, meu anjo, come no carro porque a gente está atrasada — disse mamãe, correndo em busca da bolsa e das chaves.

Tomei todo o café de uma vez, fazendo cara feia com o amargo na minha boca. Me levantei da cadeira, peguei minhas bolsas às pressas. Morgana me acompanhou, quase tropeçando nos próprios pés.

Já no carro — um Ford Focus prata que minha mãe se recusa a trocar —, ela começou com o discurso de sempre:

— Você precisa criar coragem pra dirigir, s/n. Tem carteira desde os dezesseis.

— Eu sei, mãe. Mas tenho medo de estacionar esse trambolho. E de dirigir. E de outras coisas também.

Ela riu, balançou a cabeça. Morgana, no banco de trás, já estava terminando um pão de queijo congelado que esquentou no micro-ondas de última hora.

Cinco minutos depois, estávamos na escola. Desci do carro, me despedi de mamãe com um beijo no rosto e ajustei a alça da mochila no ombro.

— Você vai ter balé hoje? — perguntou Morgana, que estava quieta até agora, mexendo no celular.

— Vou. Por quê?

Ela deu de ombros, aquele jeito misterioso de quem sabe de algo que eu não sei, e seguiu caminho na direção do bloco do fundamental.

Parei em frente ao portão principal para encontrar Larissa. Minha melhor amiga desde o primário. Também é estrangeira aqui no Canadá — nós duas nos mudamos na mesma época, sétimo ano, e grudamos como se fôssemos irmãs que o mundo separou. Ela tem a personalidade mais parecida com a da Morgana do que com a minha: atrevida, barulhenta, dona de uma risada que ecoa pelo corredor inteiro. Mamãe vive perguntando como nós nos damos bem. Eu respondo que os opostos se atraem. E que ela me empresta as blusas legais.

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⏰ Last updated: Apr 04 ⏰

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