Conforme as últimas notas da música divina deixavam os canos do grande órgão no centro da igreja, os fieis cantavam juntos ao coral, num uníssono abençoado, honrando nosso Deus.
— E lembrem-se... — Falei, minha voz já estava um pouco rouca. — Nosso Encontro de Adolescentes com Cristo, o famoso EAC, ocorre neste sábado. Sei que todos os jovens estão muito ansiosos, mas não se esqueçam de todo o motivo do evento... — Estava prestes a continuar quando olhei para a direita e percebi Diego me encarando adagas, me dei conta de que já havia passado vinte minutos de nosso horário, portanto, apenas observei o luminoso lustre acima e sorri. — O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós. — Todos responderam em harmonia.
Enquanto o público deixava seus assentos e os músicos recolhiam seus instrumentos, Diego se aproximou de mim, seus olhos castanhos cintilavam com a iluminação da igreja, o garoto tinha dezesseis anos e era um dos servidores do altar, ou como as pessoas normais chamam, um coroinha.
— Uma ótima celebração, padre, mas talvez seja bom ficar mais atento ao horário. — Ele disse.
— Estou te impedindo de ir para algum lugar? — Brinquei enquanto caminhávamos pelo corredor central do templo. — Alguma garota?
— O quê? Não! — Diego respondeu, envergonhado. — Talvez um pouco atrasado pro meu jogo de vôlei, mas só isso! — Suas bochechas estavam avermelhadas, segurei o riso.
— Não me deixe te segurar mais nenhum minuto, vá para o seu jogo. — Finalizei.
— Tem certeza? — Ele perguntou.
— É claro. — Respondi. Havia um certo brilho nos olhos dos jovens que eu não sabia ao certo dizer o que era, aquilo me intrigava profundamente, uma incandescência jovial que talvez representasse o desejo de conhecer, a maravilha da vida ou a paz da despreocupação. Ou muito provavelmente Diego fosse mesmo encontrar uma garota.
Após a missa, estava organizando meus pertences para sair quando ouvi passos se aproximando, eram suaves e lentos, eventualmente, me virei e me deparei com uma figura familiar.
— Ah olá, Ozias. — Ele me cumprimentou. Era Sebastião Salgado, o Bispo de nossa diocese, era um pouco velho, seus cabelos já eram brancos como a neve, suas roupas eram alvas, além de grandes e confortáveis, como um grande roupão.
— Boa noite, Dom Sebastião. Não sabia que o senhor estava na cidade. — Respondi e ergui meu braço para lhe dar um aperto de mão.
— Cheguei algumas horas atrás, ficarei aqui por alguns dias. Assisti um pouco de sua celebração, que continua clara e espetacular como sempre.
— Muito obrigado, sabe que estou sempre contente de fazer parte dessa comunidade. — Respondi, terminando de guardar minhas coisas. Estava prestes a sair quando avistei Sebastião encarando um quadro na parede: era uma recriação da 'Última Ceia' de Leonardo Da Vinci feita de painéis de vidro, a 'pintura' era reluzente, entretanto, tinha uma grande rachadura que saía de seu canto inferior até o centro. — Ah, me desculpe. Não tinha visto que isso estava quebrado. — Falei.
— Não, não. Não acho que está quebrado, na verdade, acho as rachaduras deram ao quadro um novo significado. — Sebastião respondeu. Nós dois ficamos mais alguns segundos encarando a arte na parede até fecharmos a catedral e seguirmos nossos caminhos.
Após a missa, tinha combinado com alguns amigos de nos encontrarmos em um pequeno restaurante para conversarmos um pouco, e foi exatamente para lá que fui. O estabelecimento era bem iluminado, ficava próximo do centro e servia pratos diversos, seu nome era em espanhol, mas, se não me engano, a tradução literal era 'Sonho Guloso'.
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Getsêmani
General FictionAinda há espaço para boas almas no mundo, ou será que todos são corrompidos pela crueldade do homem e a impiedade da natureza? Getsêmani é uma história de fantasia que acompanha a odisseia de Ozias Ramos, um eclesiástico virtuoso que descobre que o...
