.

13 0 0
                                        

CAPÍTULO 1: O FANTASMA DA MEMÓRIA

​O ar dentro daquele restaurante em Gangnam era tão espesso que parecia poder ser cortado com uma faca de prata. O luxo era agressivo; desde o brilho excessivo dos lustres de cristal até o som abafado dos sapatos de couro sobre o tapete persa. Para Lee Minho, no entanto, toda aquela opulência não passava de um cenário fútil. Ele não estava ali para apreciar a arquitetura; ele estava ali para alimentar o monstro que morava em seu peito: o rancor.
​Minho girou o copo de uísque, observando as pedras de gelo colidirem contra o vidro com um tilintar seco. Era o seu terceiro copo puro. Como um Alfa Lúpus, sua presença era naturalmente esmagadora, mas naquela noite, sua aura estava transbordando. O aroma de madeira queimada e o ozônio que antecede uma tempestade violenta emanavam dele de forma tão densa que os funcionários evitavam passar perto da mesa.

​— Ele realmente teve a audácia de colocar os pés aqui — a voz de Minho saiu como um rosnado baixo. Ele fixou o olhar em seus melhores amigos de infância, Changbin e Hyunjin. — O traidor volta ao local do crime. Eu deveria me levantar agora e ir embora.

​Changbin e Hyunjin, ambos Alfas e amigos de Minho desde os tempos de escola, trocaram um olhar de preocupação. Eles eram casados, tinham suas vidas estabilizadas e detestavam ver o amigo naquele estado autodestrutivo.

​🦖🦖🦖

​A poucos metros dali, perto do aparador de águas, Felix e Jeongin — os dois ômegas do grupo e maridos de Changbin e Hyunjin, respectivamente — travavam a mandíbula. Diferente dos Alfas, que apenas lamentavam o estado de Minho, Felix e Jeongin carregavam uma proteção feroz em relação a Jisung. Eles eram os amigos íntimos dele, os únicos que realmente sabiam o que tinha acontecido nos últimos anos.
​Felix se aproximou da mesa de Minho, seus passos firmes ecoando a tensão. Ele se inclinou, falando num tom baixo e perigoso:

​— Você não vai a lugar nenhum, Minho. Você deu sua palavra de que seria civilizado. O Jisung passou por coisas que você sequer imagina. Se você abrir essa boca para atacar, eu te juro que...

​— Você me jura o quê, Felix? — Minho soltou uma risada anasalada, levantando o olhar gélido para o ômega. — Vai me dar um sermão sobre perdão? Eu fui o noivo dele! Eu fui o cara descartado enquanto planejava um futuro! Eu tenho todo o direito de achar uma piada ele aparecer aqui agora.
​Nesse momento, as portas de carvalho se abriram. O tempo pareceu congelar. Han Jisung atravessou o batente.

​🦖🦖🦖

​Ele estava mais magro, a mandíbula mais marcada, e os olhos antes brilhantes agora pareciam pedras de ônix polido. Mas o que realmente paralisou o coração de Minho foi o que ele carregava nos braços.
​Jisung trazia um pequeno filhote no colo. Um garotinho de cabelos escuros que parecia ter cerca de quatro anos. O menino usava fones de ouvido coloridos e segurava um tiranossauro rex de borracha com força, escondendo o rosto no pescoço de Jisung.
​Ver Jisung com um filho foi como levar um soco no estômago. O rancor de Minho tornou-se um incêndio. Ele teve um filho com outro? Ele construiu a família que eu queria dar a ele?

​— Chegamos — a voz de Jisung soou calma, porém monocórdica. Ele ignorou a existência de Minho, caminhando até um canto reservado. — Ei, meu amor... está tudo bem. O papai está aqui. Pode brincar com o Dino.
​Minho, movido pelo álcool e pelo ciúme, levantou-se e caminhou até o canto de Jisung.

​— Olá, Jisung — Minho sibilou, a voz cortante. — Vejo que você andou ocupado. Onde está o grande Alfa da sua vida? Ficou entediado de você também?

​Jisung não desviou o olhar. Ele encarou Minho com uma piedade que doeu mais que qualquer insulto.

​— O pai dele morreu, Minho. E se você tivesse um pingo de decência, saberia que este não é o momento. O meu filho é sensível a pessoas... com a aura podre como a sua.

​🦖🦖🦖

​Minho estacou. A palavra "morreu" ricocheteou em sua cabeça. Ele olhou para o pequeno Yoongi, que começou a balançar o corpo para frente e para trás no colo de Jisung, emitindo um murmúrio rítmico.

​— Morreu? Conveniente — Minho sussurrou com crueldade. Ele se ajoelhou no tapete, invadindo o espaço deles. — E o menino? Ele não fala? Tem vergonha do pai que você arranjou para ele?

​Jisung explodiu com a autoridade de um pai protetor.

​— SE AFASTE, MINHO! O meu filho é autista. E se você usar a condição dele para me atingir, eu juro que você vai se arrepender.

​Foi então que aconteceu o impossível. O pequeno Yoongi tirou um dos lados do fone. Seus olhos fixaram-se em Minho com uma curiosidade magnética. O pequeno alfinha soltou o brinquedo e estendeu a mãozinha trêmula, tocando o rosto de Minho.

​— Cheiro... — Yoongi sussurrou. — Cheiro de chuva... chuva que acalma.

​Minho congelou. O toque era quente. Ele esperava gritos, mas o menino parecia estar sentindo algo nele que o próprio Minho esquecera.

​— Ele... — a voz de Minho falhou. — Ele gosta do meu cheiro?

​Jisung olhava em choque. Yoongi raramente permitia toques de estranhos, especialmente Alfas agressivos. Mas ali, o pequeno parecia hipnotizado.

​— Papai... — Yoongi murmurou, aninhando-se no pescoço de Jisung, mas mantendo a mãozinha no ombro de Minho. — Chuva...

​Minho se levantou devagar, com o coração batendo descontrolado. Ele olhou para Jisung e depois para a criança.

​— Eu não entendo — Minho sussurrou para o vazio. — Por que o filho do homem que me destruiu... me olha como se eu fosse o seu lugar seguro?

​Ele deu um passo para trás, fugindo daquele toque e do olhar de Jisung. Ele precisava de mais uísque. Precisava esquecer que, por um segundo, o filho do seu inimigo o fez sentir que ele ainda poderia ser amado.

O dinossauro do círculo - MINSUNGStories to obsess over. Discover now