Em algum lugar do Atlântico
Se alguém encontrar esta garrafa, peço apenas que a devolva ao mar depois de ler.
Escrevo sem saber se chegaremos ao destino ou se o oceano decidirá guardar nossos nomes para si. Há noites em que o navio parece eterno, e outras em que range como se carregasse segredos pesados demais para continuar flutuando.
Conheci aqui algo que nunca me foi permitido em terra firme: por algumas horas, fui livre. Não livre como prometem os ricos ou os poetas, mas livre de mim mesmo, do medo, das regras invisíveis que dizem quem devemos amar e onde devemos existir.
Talvez amanhã eu volte a ser apenas um garçom atravessando corredores estreitos, servindo vidas que nunca serão minhas. Talvez ninguém jamais saiba o que aconteceu entre as sombras deste navio. Ainda assim, não me arrependo.
Se o mar me levar, quero acreditar que ele guardará também aquilo que não pôde viver à luz do dia.
Porque houve um instante — breve como o sopro do vento sobre a água — em que eu existi inteiro.
— Michel
A bordo, em algum lugar do Atlântico
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A estibordo
Short StoryEm meio à grandiosidade e ao luxo do RMS Titanic, Michel, um jovem garçom da terceira classe, descobre um mundo de liberdade inesperada, paixões proibidas e encontros secretos que desafiam as convenções sociais da época. Entre corredores estreitos e...
