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Prólogo.

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Marina – Ou Nina, como todos a chamavam – sempre teve tudo o que quis. Uma casa lotada de amor, uma família unida e a oportunidade de aproveitar cada momento da infância como se fosse o último.

Não soube exatamente quando as coisas começaram a mudar, o tempo passou de forma cruel: rápido, quase impiedoso. Os traços infantis deram espaço a um rosto maduro, mas ao se ver no espelho Nina sempre encontrava aquela criança que amava explorar o mundo e tinha uma lista de sonhos para cumprir durante toda a sua vida.

E a adolescência vem como um furacão. Há uma necessidade quase urgente de tentar viver como se o amanhã não existisse e experimentar o que o mundo pode oferecer. O problema é que, quando se é jovem, você acaba perdendo tempo observando tudo e esquece o principal: Olhar para si mesmo.

Os sintomas apareceram discretos, sutis demais.

Até a barriga começar a crescer e a dor – que antes era quase inexistente, começar a tomar conta de cada pedaço da menina. – e involuntariamente Marina perdia o brilho e a força, sendo tomada pelo medo de não entender o que acontece, e, ainda pior, onde aquilo poderia levá-la.

O senso de urgência rondava a cabeça da menina, não sabia o que acontecia consigo, porém entendia o quão grave deveria ser a partir do momento em que começou a ver a vida mais cinza, mais pesada – como um grande fardo a ser carregado.

Não se lembrava exatamente do dia que foi encaminhada para o hospital, era tarde da noite, conseguia sentir o vento gelado ultrapassando as frestas da janela e pela primeira vez em muito tempo, se encolheu.

Foi no momento desse gesto que Nina sentiu o quarto diminuir, era muito difícil colocar os pés no chão porque dessa forma sentia como se fosse o momento em que a dor escolhia reverberar por todos os ossos de seu corpo.

Era algo profundo, que nunca tinha sentido isso antes – na sua longa vida de 14 anos – houve um último grito, fraco mas que ainda assim, clamava pela mãe. Quando sentiu tudo escurecer pela primeira vez não sentiu medo, mas sim esperança de que tudo aquilo que sentia, mas não conseguia nomear, conseguiria passar de vez.

O hospital cheirava a álcool e analgésico, como um corte profundo que trouxe Marina de volta a realidade, a grande janela do quarto dava uma visibilidade assustadora do que acontecia lá fora. A cada músculo que movia, descobria um novo fio que era conectado ao seu corpo, olhava ao redor, assustada, como se tivesse sido arrancada de um sonho bonito e levada ao mais profundo dos pesadelos.

Do outro lado, ainda era possível ouvir todos os barulhos de São Paulo, o som dos carros buzinando, as pessoas que ainda andavam apressadas por todos os cantos. Ainda era possível ver a vida acontecendo para todo mundo, menos para ela.

Sua mãe dormia encolhida na poltrona demasiado pequena para um acompanhante e Nina já conseguia ouvir que com certeza ela reclamaria de dores nas costas pela manhã. A genitora não dormia serena, pelo contrário, os olhos estavam pressionados demais, como, se inconscientemente, tentasse entender que aquilo era apenas um sonho ruim.

Um terço pequeno passava por suas mãos, as contas maiores estavam firmes. Marina conhecia aquele gesto como ninguém, era o jeito delicado que denunciava quando Ana orava intensamente. Era o jeito que ela tentava se agarrar à fé quando as coisas começavam a dar errado.

E lá no fundo, como se uma voz sussurrasse, a mais nova já entenderia que tudo isso tinha apenas uma razão: Ela.

Reparou com mais clareza nos detalhes da mãe, a luz baixa do quarto destacava alguns pontos que talvez nunca tivesse reparado no dia-a-dia, a pele estava mais pálida, talvez mais fria. Os olhares caídos denunciavam o cansaço e o peso de não ter mais trinta e poucos anos.

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⏰ Last updated: Mar 16 ⏰

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