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"SEXTA? Ah que maravilha!" Foi o primeiro pensamento que veio na minha cabeça quando abri os olhos. Sexta-feira, final de semana, para mim é uma grande bênção, significa que só preciso trabalhar hoje e não vou precisar ser escravo por dois dias. É o melhor motivo pra você levantar da cama, arrumar ela com carinho, escovar os dentes com força para que misteriosamente fiquem brancos (funciona, na minha cabeça funciona) e dar um grande sorriso em frente ao espelho. É dia também de fazer o melhor café da vida e de tomar o melhor banho frio.
Dizendo assim, até parece que meu emprego é cansado, não é? Pra eu estar tão feliz por não ter que trabalhar... Mas não, eu só gosto de exagerar. Trabalho em uma floricultura na esquina da rua de casa, não são nem dois minutos de caminhada. Minha lista de afazeres é simples: cortar talos, embalar buquês e tirar fotos pro Instagram. Mas acredite, fazer isso todos os dias te dá duas coisas: um grande tédio, inicialmente, e cansaço. Cansaço de ficar no tédio.
Eu não sei por que ainda tô reclamando. Reclamo de ter o emprego mais fácil de ganhar dinheiro nesse país? É... eu fico inconformado às vezes também!
Acredito que amo o meu emprego o mesmo tanto que o odeio. Porque eu adoro as confusões sensoriais cedo pela manhã: tomar café, café amargo da Dona Lúcia, e ao mesmo tempo sentir o perfume doce das flores, todas encaixotadas nas prateleiras, tomando sol. É o meu arco-íris quadrado.
Aprecio olhar para todos os cantos e ver que está tudo limpo e arrumado. Isso me dá uma paz enorme (mérito do meu perfeccionismo e da minha mania de limpeza), e Dona Lúcia também ama, minha patroa.
Curto também como minha autoestima se eleva só por saber que não sou o único que acorda com a cara amassada. Soa estranho, mas é reconfortante olhar nos rostos dos clientes. Me sinto como médico, consigo dar um diagnóstico quase automático, dizendo para todos ali (no pensamento) que todo mundo precisa dormir mais. E por último, e não menos importante, adoro o fato do meu horário de almoço ser três horas. Sou privilegiado.
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Com três horas livres, dava tempo de comer, assistir um vídeo no YouTube, fazer as atividades de casa do dia anterior, tomar banho (de novo, amo tomar banho) e ainda chegar na escola antes do sinal.
E sabe qual é o lado bom de morar em uma cidade pequena? Sim, existe uma parte boa. É que tudo fica muito perto de casa: a escola, o trabalho, o parque que já está há mais de dois anos em reforma, e a cafeteria mais bonita desse mundo. Tudo no mesmo bairro. É mesmo um paraíso. De casa até a escola são uns oito minutos a pé, quando não tô com pressa. Se for mais rápido, uns seis. Então eu vou andando pra bater a meta de passos diários.
As tardes, independente do dia da semana, são sempre um desastre. Por quê? Porque eu preciso ir pra escola. Tá, não são todos os dias, obviamente tem sábado e domingo, meus dias favoritos. A escola em si não é tão ruim. Não é um grande pesadelo. Sempre tiro notas altas, não falto, sou elogiado pelos professores. Ruim é ficar sozinho, olhar pros lados e não ter ninguém pra conversar.
Quem dera eu fosse um grande extrovertido, daqueles que falam com todo mundo, que puxam assunto das profundezas do reto só pra continuar a conversa. Eu, quando muito, observo quem tem esse talento natural.
Não quero parecer depressivo. Eu tenho amigos! Uns três ou quatro, vai depender da sua definição de amizade. A questão é que eu não sei fazer amigos. São coisas diferentes. E tá tudo bem! Poucas pessoas aguentariam horas de conversa sobre romcoms de diretor francês e o quanto eu fico impressionado com a singularidade de um buraco negro. Nem todo mundo tem bom gosto e curiosidade suficiente sobre a vida.
Minha solitude é um castelo que me protege das tempestades e guerras, mas que também me aprisiona do mundo lá fora. E de dentro dele, eu ainda consigo ver alguma beleza, principalmente nos dias de paz e sol.
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Às sextas-feiras são servidos misto quente (pão, queijo e presunto na chapa) com suco natural, geralmente suco de goiaba ou suco de maçã, na merenda escolar. Você come tudo isso em menos de três minutos, então é um exagero o recreio durar vinte. E eu ficava dezessete minutos em pé, vendo todo aquele povo desesperado fazendo filas enormes na cantina.
Eu conhecia de vista cada um, de longe. Como o Matheus, o nerd da biblioteca que eu sempre pegava livros do Carl Sagan emprestado. O Felipe, que era filho da zeladora, ajudava a mãe a limpar as salas depois da aula (às vezes eu participava). E o Victor, que era viciado em basquete e só vinha para a escola nas aulas de educação física. Esses são os meus amigos, e a gente furava a fila pra sempre ser um dos primeiros.
Mas nesse dia, nessa semana, foi a primeira vez que eu vi alguém e não reconheci. Tá, eu não quero parecer estranho. Não digo que memorizei cada traço das pessoas ao redor, não! Sabe a sensação de você olhar pra essa pessoa e você só não sabe quem é? É isso. Por favor, não me achem estranho!
Diante disso, o cabelo dela era lindo, devia gastar uma boa grana com shampoos. Provavelmente novata, o que é raro ter novato na escola no meio do ano letivo. É mais fácil você ver rostos novos no início.
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Dias que fui feliz.
RomanceÍcaro só queria dias simples: trabalhar na floricultura, cumprir a rotina e não morrer de tédio. Até perceber que nem todo dia é igual. E às vezes, uma única pessoa já é suficiente pra quebrar tudo.
