Whisky

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Seoul.
2 de outubro de 2025.

Uma noite quente. Taehyung, sentado numa cadeira alta, quase colada ao balcão, segurava um copo de whisky. O copo permanecia igual há 40 minutos, desde que o havia pedido.

Intocável, cheio pela metade. O gelo já havia virado água.

Praticamente todos os dias, desde que havia retornado do Iraque, em 2008, passava suas noites no bar de um homem que havia virado amigo.

Não eram amigos que saíam juntos ou que faziam grandes churrascos em família. Não... Eram amigos que, em silêncio, entendiam a dor um do outro.

Seu cabelo agora um pouco mais longo, tingido, mas sempre muito bem arrumado. Costume de seus anos militares.

Sua roupa mais casual, mas sempre muito bem passada. Pensada. Calças soltas e blusas largas, jaquetas de couro. As roupas largas escondiam mais do que o corpo. Escondiam o tremor ocasional de suas mãos. O coturno pesado no chão parecia mais um hábito do que uma escolha.

O 38 em sua cintura, no cós de sua calça de moletom. Ninguém ali sabia de sua arma. Memórias de guerra. Segurança.

A música era baixa, quase imperceptível. O som fraco de copos batendo nas mesas bem postas de madeira, o barulho de garrafas que Yoongi limpava à sua frente. Sempre perto. Silencioso.

Taehyung ouvia sempre tudo com muita atenção, atento às entradas dos homens no banheiro, às risadas altas das mulheres bêbadas, ao tocar leve do sino toda vez que alguém adentrava o ambiente.

Tudo muito calculado, assustado.

Ou talvez nem tanto...

Ao longe, havia um observador. Olhos grandes, que brilhavam tanto que refletiam a luz como um diamante bruto. Dentes frontais um pouco avantajados, quase como um coelho. Vestia uma camiseta polo branca, calça jeans escura e tênis surrados, mostrando o desgaste. Tatuado, forte, alto.

— Guggie! — chamou Hoseok, forçando Jungkook a retirar os olhos do desconhecido. — Ai, de novo de olho no esquisitão? O cara senta sempre no mesmo lugar! Nunca bebe. Medonho!

— Aish... que chato. E daí que ele senta sempre ali? Pode ser... sei lá. Emocional! — recém-formado em psicologia, um menino observador. Não calculista, dócil. — Ele é bonito, olha com jeitinho, Seokkie! — agarrado ao braço do melhor amigo, chacoalhou-o com uma delicadeza amiga, voltando toda sua atenção para o desconhecido.

Hoseok revirou os olhos. Toda semana, após o trabalho, era arrastado por Jungkook para o bar. Normalmente aos fins de semana, já que, durante a semana, fazia plantões puxados, procurando dinheiro, não diversão.

— Você está sendo observado. Jovens. — alertou Yoongi, de costas. Colocava suas garrafas à mostra como quem admirava prêmios, ouro. — Porra, eu ainda abro uma adega.

— O quê? Crianças? Desde quando você permite isso aqui? — Taehyung, arrancado de seus pensamentos, de suas lembranças, franziu o cenho. — Um... código? Devo pegar a arma?

Sem esperar respostas, sua mão direita foi imperceptivelmente para a cintura, pronta para puxar a arma. Sempre preparado. Sempre defensivo. Como uma rocha, nada o alcançava.

Yoongi riu, quase alto. Quase chamando atenção. Virou-se com calma, como se estivesse com a paz apoiada nos ombros.

— Jovens, Taehyung. Um em específico sempre te olha de longe... Talvez interesse. Gosta de homens? — ousado, sem conhecer muito sobre a vida de seu, até então, amigo, questionou. Não tinha mais medo ou receio das respostas curtas e ignorantes de Taehyung; eram rotineiras. Ele demonstrava como foi ensinado.

Depois da guerra, vocêWhere stories live. Discover now