O Peso do ar

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O despertador não tocou; ele rugiu. Pelo menos, foi assim que meus ouvidos receberam o zumbido mecânico às seis e quinze da manhã.

Atirei a mão cega em direção à mesa de cabeceira, derrubando um livro e um copo vazio antes de finalmente esmagar o botão que calou o alarme. O silêncio que se seguiu deveria ter sido reconfortante, mas em vez disso, revelou uma sinfonia enlouquecedora. Eu podia ouvir o gotejar lento da torneira no final do corredor, o zumbido elétrico da geladeira no andar de baixo e, bizarramente, o arranhar minúsculo de patas de um esquilo correndo pelos galhos do carvalho no quintal.

Sentei-me na cama de supetão, esfregando o rosto com as duas mãos. Minha respiração estava curta, presa no peito, como se o ar do meu quarto tivesse de repente se tornado espesso, carregado de uma umidade metálica que eu nunca tinha sentido antes.

O peso do ar, pensei, tentando puxar o oxigênio para os pulmões com mais força. Parecia antes o resquício de uma tempestade elétrica que ainda não havia desabado.


Hoje era o primeiro dia do meu último ano escolar. A lógica dizia que minhas mãos trêmulas e o peito apertado eram apenas sintomas da ansiedade pré-formatura, o pavor de provas, candidaturas a universidades e despedidas iminentes. Mas meu corpo dizia outra coisa. Meu corpo agia como se estivesse se preparando para uma guerra.

Caminhei até o banheiro com os pés descalços tocando a madeira fria do piso. Cada passo parecia mandar uma vibração sutil subindo pelos meus ossos. Quando acendi a luz e olhei para o espelho, prendi a respiração. Minhas pupilas estavam tão dilatadas que a íris castanha parecia apenas um anel fino, e por um milissegundo, jurei ter visto um brilho dourado reluzir no fundo delas. Pisquei com força, balançando a cabeça.

- É só o cansaço, Ayla - sussurrei para o vidro, mas o som da minha própria voz me assustou. Estava diferente. Um pouco mais rouca, um pouco mais grave.


Desci as escadas vestindo minha calça jeans favorita e um suéter largo, tentando me agarrar a qualquer migalha de familiaridade. A casa estava imersa naquela luz cinzenta e fraca do início da manhã. O cheiro de café coado costumava ser a primeira coisa a me dar bom dia, mas hoje, ele veio acompanhado de notas distintas: o grão torrado na prateleira, a umidade da terra nos vasos de planta da janela, o cheiro de ozônio e ferrugem vindo do encanamento antigo.


Meu avô estava sentado à mesa da cozinha. Ele não lia o jornal, não olhava para o celular. Apenas fitava a porta da frente com aquela postura militar que ele nunca perdia, mesmo vestindo um roupão de flanela desgastado. Suas costas eram retas como uma tábua, os ombros largos sustentando o silêncio.


majestoso e quase intimidador que sempre o cercava.

- Bom dia, Vô - eu disse, puxando uma cadeira e tentando abafar o ruído que o pé de madeira fez contra os azulejos. Para minha surpresa, o som me causou um leve enjoo.


Ele virou a cabeça devagar. Os olhos dele, cinzentos e profundos, me esquadrinharam de um jeito que cortou toda a neblina da minha mente. Havia um peso naquele olhar. Ele sempre foi um homem protetor, o pilar que me sustentou desde que não me lembrava mais de meus pais, mas hoje ele me olhava não como uma neta prestes a ir para a escola. Ele me olhava como se estivesse avaliando minha constituição física.

- Dormiu bem, Ayla? - a voz dele ecoou na cozinha. Grave, controlada.

- Acho que sim - menti, servindo-me de uma xícara de café quente. Notei que minha mão tremia levemente e me apressei em apoiar a xícara na mesa. - Só estou um pouco ansiosa. Último ano, sabe como é.

Meu avô assentiu muito lentamente. Ele ergueu a própria xícara, bebeu um gole longo e manteve os olhos em mim. Havia um cheiro vindo dele que eu nunca havia conseguido categorizar antes, mas hoje, de forma absurda, meu cérebro processou como: madeira antiga, pedra molhada e autoridade.

Esse último não era um cheiro, eu sabia disso, mas era exatamente a sensação que invadia minhas narinas.

- Não ignore seus instintos hoje - ele disse, a voz abafada pelo vapor do café. - O mundo é maior do que as paredes do colégio. Se sentir que algo está errado, não duvide de si mesma.


Franzi a testa, parando a torrada no meio do caminho para a boca.

- Quer dizer, cuidado para não esquecer a combinação do armário?


Um sorriso muito breve e sem dentes curvou os lábios marcados por rugas de expressão.

- Vá para a aula, minha menina. E leve o casaco grosso. O clima vai mudar drasticamente hoje.

Olhei pela janela para o céu de um azul pálido, sem uma única nuvem. Não fazia sentido, mas não debati. Peguei minha mochila, o casaco pesado que ele mandou, e saí pela porta da frente.

O trajeto curto até a escola, que eu fazia a pé há três anos, pareceu uma jornada através de uma floresta desconhecida. O asfalto exalava o cheiro de borracha queimada de carros que haviam passado horas atrás. O vento, antes apenas um incômodo gelado no rosto, agora me trazia um mapa invisível do bairro: grama recém-cortada a dois quarteirões, pão assando na padaria da esquina, o suor de alguém correndo do outro lado da rua.


A Lua Carmesim Where stories live. Discover now