Helena nunca teve medo de espelhos.
Cresceu ouvindo que espelhos guardavam energias, que não se deveria dormir de frente para eles, que cobri-los durante tempestades era prudente. Sempre achou exagero. Espelhos eram apenas vidro e prata. Reproduziam o que estava ali. Nada além.
Era terça-feira. Chovia fino, insistente. O apartamento estava silencioso, como se a chuva tivesse engolido todos os outros sons do mundo. Helena saiu do banho e parou diante do espelho do banheiro, ainda envolta na névoa quente do vapor.
Passou a toalha pelos cabelos.
Olhou para si mesma. Cansada. Olheiras suaves. Boca neutra.
Ela inclinou levemente a cabeça para a direita. O reflexo inclinou também.
Então, quase por impulso, Helena esboçou um pequeno sorriso - desses que não chegam aos olhos. Um teste bobo, sem motivo.
Baixou os lábios.
Foi quando percebeu.
O reflexo ainda estava sorrindo. Por um segundo a mais.
Não era um sorriso grande. Não era grotesco. Era sutil. Quase imperceptível. Mas estava ali - sustentado por uma fração de tempo que não pertencia ao movimento dela.
Helena congelou.
Piscou.
O reflexo piscou junto.
Ela respirou fundo. Aproximou-se mais do espelho, examinando cada detalhe do próprio rosto.
- Impressão - murmurou.
Talvez tivesse sido o vapor. Talvez sua mente estivesse cansada demais.
Dormiu pouco nos últimos dias.
Desligou a luz e foi dormir.
Mas naquela noite sonhou com vidro.
Nos dias seguintes, evitou pensar no ocorrido. Trabalhou, respondeu e-mails, almoçou com colegas. A vida seguiu com sua normalidade previsível.
Ainda assim, algo havia mudado.
Começou a evitar olhar diretamente para superfícies reflexivas. Elevadores. Vitrines. A tela escura do celular.
Na sexta-feira, porém, aconteceu de novo.
Estava no quarto, ajustando um brinco antes de sair. O espelho grande do guarda-roupa refletia seu corpo inteiro.
Ela respirou fundo. Sorriu.
Dessa vez, observou atentamente.
Parou. E viu.
O reflexo demorou. Outra vez.
Não foi imaginação.
O sorriso no espelho permaneceu quando o dela já havia desaparecido. Não por muito - talvez um segundo inteiro agora. Mas suficiente.
E o mais perturbador: O sorriso parecia... diferente.
Não era o mesmo que ela havia feito.
Esse era mais amplo.
Mais íntimo.
Mais consciente.
Helena sentiu o estômago contrair.
Deu um passo para trás.
O reflexo também.
Mas, por um instante mínimo - mínimo demais para ser seguro - teve a impressão de que os olhos no espelho a observavam com algo que não era mera reprodução.
Ela começou a testar.
Movimentos rápidos.
Gestos inesperados.
YOU ARE READING
O processo de desaparecimento.
Short StoryEm dez contos sombrios e psicológicos, eu conduzo o leitor por uma jornada inquietante através do próprio eu. Cada história desmonta uma camada da existência humana: o reflexo que age sozinho, o corpo que sufoca, o espaço que aprisiona, as emoções q...
