Eu Sei Que Você Está Aqui

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No começo era só uma brincadeira idiota. Eu, Momo, particularmente gosto de surpresas.


Sana descobriu que conseguia subir pela lateral da minha casa usando o muro baixo do vizinho e a árvore do quintal. Ela descobriu a tranca fraca.


Um dia entrou, ficou escondida dentro do meu guarda-roupa e esperou eu sairdo banho.

Quando eu abri a porta para pegar o pijama, ela pulou.

Eu quase morri do coração.

Ela riu tanto que caiu sentada no chão. Eu xinguei, depois ri também. Foi muito improvável. Muito a cara dela.

"Você nunca suspeita de nada", ela disse, satisfeita demais com o próprio plano.

Eu chegava em casa e sentia antes mesmo de ver. A janela pouco desalinhada. O cheiro dela preso nas roupas. Um cabide balançando.

Eu fingia que não sabia.

Passava pelo quarto. Sentava na cama. Mexia no celular. Esperava.

Às vezes eu falava alto de propósito.

"Hoje foi um dia chato."

Silêncio dentro do guarda-roupa.

Eu sorria sozinha.

Comecei a provocar também. Demorava mais para abrir. Mudava a ordem das coisas. Uma vez troquei todas as roupas de lugar só para confundir o esconderijo dela.

Quando eu finalmente abria a porta, nossos olhos se encontravam e era sempre o mesmo instante, aquele meio segundo antes do riso explodir.

Eu passei a gostar ddisso.

Gostar de saber que ela atravessava a cidade, subia pelo muro, entrava no meu quarto só para me assustar, esperando por mim.

Comecei a deixar a janela destrancada de propósito.

Ela nunca pediu.

Mas nós duas sabíamos.

Uma vez perguntei quanto tempo ela ficava ali antes de eu chegar.

"Depende", ela respondeu, deitada na minha cama depois da brincadeira. "Às vezes uma hora. Às vezes mais."

"E você não fica entediada?"

Ela virou o rosto para mim.

"Eu gosto de te esperar."

Eu ri. Achei intenso. Poético até.

O jogo começou a ficar mais elaborado.

Eu entrava e dizia em voz alta: "Eu sei que você está aqui."

Às vezes ela estava. Às vezes não.

Isso tornava tudo mais interessante.

Eu passei a esperar aquele frio leve na barriga quando girava a maçaneta do quarto. Passei a sentir falta quando ela não vinha por dois dias seguidos.

Até que, numa quinta-feira, eu tive certeza.

Ela estava lá.

O quarto tinha aquele silêncio estranho.

Eu sorri antes mesmo de acender a luz.

"Você está ficando muito previsível.", eu provoquei.

Nenhuma resposta.

Eu caminhei devagar até o guarda-roupa. Toquei na porta.

"Eu sei que você está aí."

Abri.

Sana estava caída entre minhas roupas.

De lado. Estranhamente imóvel.

Meu primeiro pensamento foi que ela estava exagerando no susto. O melhor de todos.

Eu ri.

"Essa é nova."

Nada.

Meu riso foi diminuindo.

Eu me ajoelhei, toquei o braço dela.

Gelado.

"Sana?"

O quarto parecia pequeno demais de repente.

Eu segurei o rosto dela e virei um pouco.

Os olhos estavam fundos e abertos. Um Corte profundo no pescoço sangraava.

Meu estômago afundou.

Foi então que eu percebi.

Ela não estava encostada no guarda-roupa.

Eu nunca tinha verificado o fundo dele.

Nunca tinha olhado além dela.

Porque o jogo sempre terminava quando eu encontrava Sana.

Mas agora havia mais espaço do que deveria haver.

As roupas penduradas não encostavam na madeira.

Havia mais além disso.

Eu levantei os olhos devagar.

Atrás dela.

Entre meus casacos.

Um homem estava agachado com algo, refletindo a janela, em sua mão.

Imóvel.

Tão imóvel que parecia parte da estrutura.

Os olhos fixos em mim.

Meu cérebro demorou um segundo inteiro para entender o que estava vendo. Porque aquilo náão fazia parte do jogo.

Ele levou o dedo à boca.

Como aviso.

Silêncio.

Eu ainda segurava Sana, sentindo a cabeça dela contra meu bbraço sangrento.

Eu fiquei imóvel.

Porque qualquer movimento parecia dar início a algo irreversível.

Ele começou a se levantar devagar.

E eu entendi que o pior não era o fato de ele estar ali.

Era o fato de que, até aquele dia, eu tinha amado a sensação de alguém escondido no meu guarda-roupa esperando por mim.

E agora eu nunca mais conseguiria entrar naquele quarto do mesmo jeito.

A porta continuava aberta.

O silêncio continuava pesado.

E era a última vez que aquela brincadeira existia, até porque ele estava me apontando uma faca para mim.

Eu Sei Que Voce Está Aqui - SaMo One ShotHistórias para pegar e não largar. Descubra agora