Capítulo 1 - O Templo

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O som das correntes nunca cessava. Arrastavam-se pelo corredor, metálicas, lentas... como se o lugar respirasse por elas. Pouco som além disso era ouvido; aquele ambiente havia sido cautelosamente pensado. As celas eram escuras, nem mesmo a pouca iluminação do sol chegava àqueles que jaziam naquele antro.

Era uma detenção, e os pensamentos de Tanis traíam-na a todo instante.

O local em que foi posta tinha pouco espaço; todavia, havia uma cama em que pudesse repousar. Ela estava deitada, sozinha, apenas ouvindo pequenos ruídos nas celas ao lado — não havia celas em frente.

O ambiente era claustrofóbico e solitário. As pessoas que ali estavam não tentavam se comunicar. Cada qual estava rezando para seu próprio deus e pedindo por misericórdia.

— Por favor, eu não vi execução nenhuma — suplicava a mulher — eu estive dentro da minha casa durante toda semana, minha filha está muito doente e... meu marido se foi... ele...

O choro se tornou alto o suficiente a ponto de Tanis conseguir ouvir os soluços que seguiam.

— Meu marido foi levado, ela só tem a mim.

Ouvia-se choro carregado de desespero.

Houve pedido de clemência.

Não se ouvia a resposta do sentinela.

Não havia direito de defesa ali; eles acusavam e julgavam — às vezes nem isso.

Ouviu-se um barulho de espada sendo retirada da bainha. Tanis colocou sua mão nos ouvidos. Era presumível o que se seguiria.

O som que Tanis conseguiu ouvir foi um pequeno movimento de correntes e um engasgo...

— Eles cortaram a garganta dela — murmurou ainda com a mão nos ouvidos.

Não foi possível sentir cheiro de sangue; aquela execução estava ocorrendo em uma cela distante na qual Tanis estava. Mas algo estava próximo.

— Trouxeram ela para cá porque falou algo que não deveria, e eu... me pegaram tentando conjurar uma criatura.

As pessoas que ali estavam detidas eram aquelas que haviam falado demais, perguntado demais. E havia um outro grupo que fazia algo que era considerado o pior crime em Glavenir: praticar conjurações.

A mulher que acabara de ser executada, Tanis a conhecia...

Tanis começou a ouvir passos perpassando pelo corredor, mas não era em direção à cela em que ela estava. O barulho que ela percebeu era sádico.

Era o corpo da mulher sendo arrastado.

Tanis percebeu que havia retirado a mão dos ouvidos por um breve momento e tornou a tapá-los.

— Não se prestam a carregar a pessoa, não nos é oferecido um mínimo de explicação e dignidade — murmurou consigo.

Ela se indagava o porquê de as execuções ocorrerem em sigilo, de não haver espetáculo. Quem sumia jamais voltava para dizer o que havia ocorrido.

Subitamente, ela começou a concluir:

— Tudo isso é calculado — pensou ela, controlando a respiração; a intenção é que não saibamos de onde vem, quando vem e como irá acontecer — e se irá acontecer, balbuciou consigo.

Tanis se pegou absorta naqueles pensamentos, que foram interrompidos pelo que via na frente dela.

Um sentinela estava ali. Parado. Olhando diretamente para ela, sem expressões, sem movimentos.

Seus olhos procuraram os dele. Ela estava trancada, com os pés e mãos amarrados entre si. Estava impotente. Não era covarde, mas também era humana. Mordia a boca naquele momento; um gosto de sangue era sentido por ela.

GLAVENIR - O NÚCLEO - VOLUME IStories to obsess over. Discover now