1- A carta

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O porto nunca dorme; ele apenas troca de máscara.

Durante o dia, cheira a peixe recém-pescado e corda molhada. Há passos apressados, ordens gritadas contra o vento, moedas trocando de mãos antes mesmo que o sol atinja o ponto mais alto. À noite, tudo muda. O ar fica mais denso, pesado de sal e álcool barato e os marinheiros começam a falar alto demais, a rir demais, a confiar demais. Aprendi cedo que confiança é coisa cara — e que, quando alguém a espalha sem cuidado, sempre existe alguém disposto a recolher o excesso.

Encosto-me atrás de uma pilha de caixas úmidas, sentindo a madeira áspera arranhar minhas costas através do tecido. A maré está baixa, deixando o cais exposto, escorregadio, traiçoeiro para quem anda sem prestar atenção. Os passos ecoam mais do que deveriam. O menor descuido denuncia.

Perto do cais, consigo ver três marinheiros, já meio tortos pelo álcool. O primeiro gesticula demais, os braços abrindo o ar como se lutasse contra um inimigo invisível; o corpo balança perigosamente próximo da água. O segundo ri alto, exagerado, a cabeça jogada para trás, cuspindo espuma de cerveja enquanto descreve uma mulher que, pelo jeito, existe apenas na versão embriagada da memória dele. O terceiro... esse é o meu favorito. Quieto demais. Confiante demais. A bolsa pendurada solta no cinto, pesada o suficiente para denunciar que não está vazia.

Inclino levemente a cabeça, avaliando o ritmo dos risos, o tempo entre um gole e outro, a distância entre eles e a água. Alguns homens se tornam perigosos quando bebem, outros apenas se tornam oportunidades.

Idiotas.

Respiro fundo. O ar entra frio, corta a garganta, e sai morno contra meus lábios. Meu corpo entende antes da minha mente. Os músculos se soltam, ficam precisos. Minha atenção afia como lâmina recém passada na pedra. O coração acelera, não descontrolado, apenas o bastante para me lembrar que estou viva.

Não faço isso por diversão. Digo isso a mim mesma sempre. Mas existe algo ali. Uma faísca, uma euforia silenciosa que cresce no exato segundo em que sei que tudo depende apenas de mim.

Nesse instante, não há passado. Não há lembranças. Não há fogo. Só o agora. Espero a melhor oportunidade.

O riso mais alto vem como eu sabia que viria, explodindo da garganta do mais bêbado deles. Risadas largas sempre engolem pequenos ruídos. Um erro sutil desaparece dentro delas.

Eu me movo. Um passo calculado, apoiando o pé na parte menos úmida da madeira. Depois outro, sincronizando meu ritmo com o balanço natural do cais. O capuz cobre meu rosto, meu corpo se encaixa nas sombras projetadas pelas lanternas penduradas, distorcidas pelo vento. O cheiro de peixe seco mistura-se ao de alcatrão e cerveja derramada. As tábuas rangem sob o peso dos três, mas sob o meu quase não reclamam. Ao longe, os navios respiram com a maré.

Aproximo-me por trás do mais quieto. Ele inclina a cabeça para ouvir algo que o amigo diz. O movimento puxa o cinto ligeiramente para frente. A bolsa balança, exposta. Consigo ouvir a respiração dele agora, pesada de álcool, distraída.

Minhas mãos não tremem.

Primeiro, encosto de leve, como se tivesse esbarrado por acidente. O suficiente para ele atribuir qualquer sensação ao amigo ao lado. Enquanto isso, dois dedos já encontram o cordão da bolsa. Não puxo de uma vez. Afrouxo o nó. Sinto a fibra ceder sob a unha. Espero outro riso. Outro gesto exagerado. Então deslizo.

Um puxão firme, curto, preciso.

O peso familiar cai na minha palma como se me reconhecesse. Seguro contra o corpo, escondo sob o manto em um único movimento fluido. Não corro. Não viro a cabeça. Dou dois passos para trás, desaparecendo pelo mesmo caminho por onde vim.

Pronto. Ele ainda está rindo.

Dou meia-volta antes que o mundo perceba o que aconteceu. Não corro para não chamar a atenção. Caminho tranquila, misturando meu ritmo ao do porto, até virar uma esquina e desaparecer entre os barris. Só então deixo escapar um sorriso pequeno. Sobrevivência tem gosto de vitória quando dá certo.

Deixo o porto para trás enquanto as lanternas começam a rarear e o barulho vira eco distante. O caminho até a vila é conhecido demais para exigir atenção, mas nunca simples o bastante para eu relaxar. A trilha sobe levemente, contorna o morro, e a cada passo o cheiro de sal dá lugar à terra úmida e à madeira velha.

A vila surge aos poucos, como sempre. As casas ficam afastadas umas das outras, como se ainda respeitassem um espaço que não existe mais. Muitas estão reconstruídas, remendadas, erguidas às pressas com o que deu para salvar. Outras ficaram do jeito que estavam desde aquela noite. Esqueletos de madeira que ninguém teve coragem de derrubar.

Passo por paredes escurecidas, por vigas expostas, por portas que nunca mais foram substituídas. Algumas marcas de fogo permanecem visíveis, mesmo depois de anos — manchas que não saem, não importa quanta chuva caia. As pessoas evitam olhar. Eu não.

Minha casa fica no pé do morro, como sempre ficou. Ela ainda está de pé, mas carrega as cicatrizes com menos pudor que as outras. O telhado foi consertado só o suficiente para não cair, mas as tábuas são de cores diferentes, encaixadas sem cuidado estético algum. A parede lateral é ainda mais escura, marcada pelo incêndio antigo. Não tentei esconder. Nunca tentei.

Empurro a porta e entro. A sala me recebe com o mesmo cheiro de madeira envelhecida e cinza antiga, algo que nunca saiu completamente das paredes. O espaço é simples: uma mesa central, um banco comprido, algumas prateleiras improvisadas e tudo tem marcas de uso. Marcas de sobrevivência.

O banco ainda range quando alguém senta — eu mesma, na maioria das vezes. A mesa carrega riscos profundos, feitos com faca, quando não havia paciência para tábua. Um canto da parede ainda mostra um tom mais claro, o lugar onde antes pendiam as peles que meu pai trazia da caça.

Nada foi recolocado ali.

Sigo para a cozinha, que é quase uma continuação da sala. O fogão improvisado ocupa o mesmo lugar de sempre e uma panela repousa sobre ele, vazia. O cheiro ali muda — há menos poeira e mais gordura antiga, mais lembrança. O chão foi limpo tantas vezes que a madeira ficou opaca.

Meus olhos vão, sem querer, para o ponto perto da parede onde um tronco havia caído anos atrás. Não há mais nada ali agora. Nenhum tecido ou mancha recente. Nada que denuncie o que ficou.

Aperto a bolsa roubada com mais força ao passar. A cozinha é o único lugar que não consigo ficar.

Cruzo o corredor estreito e sigo para o quarto. A porta range baixo quando empurro. O espaço é pequeno, funcional. Há uma cama desgastada pelo tempo encostada na parede e cobertas dobradas com cuidado excessivo. Há um baú no canto onde guardo algumas roupas e flechas, o pouco que realmente importa. Minhas armas ficam encostadas na parede perto da cama, ao alcance da mão e, do outro lado, há uma pequena mesa de madeira, desgastada pelo tempo, com uma cadeira no mesmo estado. Era a mesa da minha mãe. É aqui que eu paro de fingir que o dia não pesou.

Fecho a porta atrás de mim e apoio as costas nela por um instante. O roubo ainda pulsa no meu corpo — aquela euforia quente, aquela sensação de controle. Sobrevivência pura.

Mas a vila nunca me deixa esquecer o porquê de precisar fazer isso.

Caminho até a mesa pequena e tiro a bolsa do marinheiro. As moedas fazem um som seco ao cair. Conheço aquele som. Ele significa comida por mais um dia, talvez dois.

É nesse momento que sinto algo estranho em minha mão. Havia um papel. Aparentemente estava em meu bolso junto com a bolsa. Mas a pergunta que fica é: quem o colocou aqui?

Abro o papel e leio. E, nesse momento, tudo muda. 

Ecos do ritual antigoOnde histórias criam vida. Descubra agora