Capítulo 1 - Noctis
A Academia Blackthorn parecia respirar silêncio.
A névoa envolvia os vitrais escuros quando Jenna atravessou o portão principal com a postura ereta demais para alguém que estava começando ali.
Ela não demonstrava nervosismo.
Mas sentia.
- Ordem Noctis - anunciou a diretora após a cerimônia.
Alguns aplausos discretos.
E um olhar.
Encostado na coluna de mármore, estava Hunter.
Impecável. Frio. Observando.
Ele não sorriu.
Só inclinou levemente a cabeça, como se já tivesse decidido algo sobre ela.
Naquela mesma noite, durante a primeira reunião da Noctis, eles competiram pela liderança de um projeto estratégico.
Ela ganhou.
Ele sorriu de canto.
- Você gosta de desafiar as pessoas erradas - ele murmurou ao passar por ela.
- Só as que precisam ser desafiadas - ela respondeu.
Silêncio.
Tensão.
E foi assim que começou.
Semanas depois.
Festa privada da Noctis. Bebidas escondidas. Música baixa.
Hunter estava diferente. Rindo demais. O olhar menos calculado.
Ele se aproximou dela no terraço.
- Você sabe que eu odeio perder pra você, né?
- Eu sei.
Ele riu fraco.
E então, do nada:
- Eu amo você.
Ela piscou.
- Você tá bêbado.
- Eu tô... - ele respirou fundo - mas isso não é mentira.
Ela ficou parada. Confusa. Porque sóbrio ele agia como se ela fosse apenas uma rival.
Bêbado... ele parecia vulnerável demais.
E isso era pior.
Capítulo 2 - À Luz do Dia
Hunter não ligou às duas da tarde.
Nem às três.
Nem às quatro.
Jenna sabia que não ligaria.
Mesmo assim, às 13:59, ela estava olhando para o celular como se o destino pudesse mudar em um minuto.
Não mudou.
Na reunião da Ordem Noctis naquela noite, o ambiente parecia mais frio que o normal.
A líder distribuía estratégias. Hunter falava com precisão. Calmo. Controlado. Impecável.
Como se às 02:17 ele não tivesse sussurrado que amava alguém.
Ele não olhou para ela uma única vez.
Aquilo doeu mais do que se tivesse discutido.
Após a reunião, Jenna decidiu não fugir.
Encostou no corredor de mármore, esperando.
Ele saiu por último.
Passou por ela como se fosse só mais uma sombra.
- Você esqueceu de fazer uma ligação hoje - ela disse, sem olhar diretamente.
Ele parou.
Mas não virou completamente.
- Eu não tinha nada pra dizer.
Aquilo foi pior do que silêncio.
- Engraçado - ela respondeu, finalmente encarando ele. - Ontem você tinha.
O maxilar dele travou.
- Ontem eu estava bêbado.
- Então é isso? - ela riu baixo, amarga. - Você só é honesto quando não consegue sustentar a própria máscara?
Ele se aproxima um passo.
A tensão é quase palpável.
- Você prefere o quê? - ele sussurra. - Que eu diga isso sóbrio... e depois tenha que lidar com as consequências?
Ela sente o coração acelerar.
- Eu prefiro que você seja corajoso.
Silêncio.
O olhar dele vacila por um segundo.
Só um.
Mas é o suficiente.
- Eu não sou o tipo de pessoa que perde o controle - ele diz, recuperando a postura.
- Não. - ela dá um passo atrás. - Você é o tipo de pessoa que tem medo de sentir.
Ela sai antes que ele responda.
E pela primeira vez, Hunter fica parado no corredor vazio...
com algo que não consegue controlar.
Capítulo 3 - 02:17 (Outra Vez)
O celular vibrou.
02:17.
De novo.
Jenna ficou encarando o teto por alguns segundos antes de pegar o aparelho.
Ela já sabia.
Hunter.
Sempre nesse horário.
Ela atendeu sem falar nada.
Música alta ao fundo. Risadas distantes. Copos batendo.
- Você sempre atende - a voz dele saiu mais baixa do que o normal.
- Você sempre liga.
Silêncio.
Ela conseguia imaginar o jeito que ele estava: encostado em alguma parede, postura relaxada demais, olhar menos calculado.
- Eu tentei não ligar hoje - ele murmurou.
Ela soltou um riso curto.
- Tentou?
- Eu fiquei olhando pro celular às duas da tarde.
O coração dela falhou por um segundo.
- E?
- E eu não consegui.
A resposta veio simples. Crua.
- Não conseguiu o quê? - ela insistiu.
Silêncio.
A música ao fundo diminuiu.
- Dizer aquilo sóbrio.
O peito dela apertou.
Ela fechou os olhos.
- Então para de dizer quando está bêbado.
- Eu não estou tão bêbado assim.
- Hunter.
Ele suspirou.
- Eu odeio o jeito que você me faz sentir.
Ela engoliu seco.
- E como eu te faço sentir?
Outra pausa.
Mais longa.
Mais pesada.
- Fora de controle.
O quarto ficou pequeno demais.
- Eu não pedi isso - ela respondeu, mais baixa.
- Eu sei.
O tom dele não era arrogante. Era vulnerável.
E isso era perigoso.
- Se eu disser amanhã - ele começou - você vai acreditar?
Ela ficou em silêncio.
Porque a verdade era que ela queria acreditar. Mas não sabia se conseguiria.
- Liga às duas - ela disse, finalmente. - Sem música. Sem plateia. Sem desculpa.
Do outro lado, ele respirou fundo.
- Você vai atender?
- Sempre atendo.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Não era raiva.
Era tensão.
- Boa noite, Jenna.
Ele nunca chamava ela pelo nome.
Ela percebeu.
- Boa noite, Hunter.
Ela desligou.
O relógio marcava 02:23.
E pela primeira vez, ela não sabia o que queria que acontecesse às duas da tarde.
Capítulo 4 - Às Duas da Tarde
13:58.
Jenna estava sentada na biblioteca da Noctis com um livro aberto que ela não lia.
O celular estava virado para baixo sobre a mesa.
Ela fingia indiferença.
Mas cada segundo parecia alto demais.
13:59.
O coração começou a bater mais rápido.
14:00.
Nada.
Ela respirou fundo.
Claro que não.
14:01.
O celular vibrou.
O som foi baixo, mas para ela pareceu ensurdecedor.
Número dele.
Sem música ao fundo. Sem barulho. Sem risadas.
Silêncio.
Ela deixou tocar três vezes antes de atender.
- Oi.
A voz dele estava diferente.
Limpa. Firme. Sóbria.
- São duas da tarde - ele disse.
Ela quase sorriu.
- Eu sei.
Silêncio.
Não havia desculpa agora.
- Eu pensei no que você disse - ele continuou.
- Sobre?
Ele hesitou.
Era quase imperceptível. Mas ela percebeu.
- Sobre eu só dizer certas coisas quando estou bêbado.
Ela não facilitou.
- E?
Respiração do outro lado.
Mais pesada do que deveria ser.
- Eu não gosto de perder o controle.
- Isso não é novidade.
- Mas com você... eu perco.
O coração dela acelerou.
Mas não era suficiente.
- Isso ainda não é o que você disse ontem.
Silêncio.
Longo.
Doloroso.
Ela fechou os olhos, esperando.
Esperando que ele fosse corajoso.
- Eu não posso dizer isso agora.
A frase caiu como algo quebrando.
Ela abriu os olhos.
- Por quê?
- Porque se eu disser... - ele respirou fundo - eu não posso fingir depois.
Ali estava.
O medo. O orgulho. A máscara.
Ela sentiu algo dentro dela se partir, mas manteve a voz firme.
- Então continua fingindo, Hunter.
- Jenna-
- Não. Você teve sua chance.
Ela desligou.
O telefone ficou pesado na mão.
E pela primeira vez, ele tinha ligado sóbrio...
E ainda assim, tinha escolhido o silêncio.
Na reunião da Noctis naquela noite, o clima estava estranho.
Um dos membros comentou casualmente:
- Engraçado como distrações podem enfraquecer até os melhores estrategistas.
Os olhos se voltaram para Hunter.
Ele manteve a postura. Frio. Impecável.
Mas Jenna percebeu.
Ele estava desconcentrado.
E pela primeira vez...
Não era por causa da bebida.
Capítulo 6 - O Terraço
A reunião terminou tarde demais.
Hunter saiu primeiro.
Sem olhar para ninguém. Sem falar com ninguém.
Mas ele não foi para o dormitório.
Ele subiu.
As escadas que levavam ao terraço eram pouco iluminadas, silenciosas demais depois do caos da festa.
Ele sabia que ela estaria lá.
E ela estava.
Encostada na mureta. O vento bagunçando o cabelo. O som da música distante, abafado.
Ela não se virou quando ouviu a porta abrir.
- Você sempre escolhe a Ordem - ela disse, antes mesmo que ele falasse.
Ele parou a alguns passos de distância.
- Não começa.
Ela riu, mas não era leve.
- Eu nem precisei começar. Você terminou sozinho.
Silêncio.
O vento entre eles parecia mais alto do que deveria.
Ele se aproximou.
- Você acha que é simples?
Ela virou finalmente.
Os olhos dela estavam brilhando - não de lágrimas, mas de algo mais perigoso.
- Não. Eu acho que você é covarde.
Aquilo acertou.
Ele travou o maxilar.
- Você não entende o que está em jogo.
- Então me explica.
Ele abriu a boca.
Fechou.
Porque explicar significava admitir.
E admitir significava tornar real.
Ela se aproximou agora.
Diminuindo o espaço. Diminuindo as defesas.
- Você me liga de madrugada como se eu fosse seu segredo favorito...
- Mas à luz do dia eu viro seu erro estratégico.
A respiração dele ficou mais pesada.
- Eu nunca te tratei como erro.
- Não? Então por que você sempre me solta quando alguém aparece?
A pergunta ficou cravada no peito dele.
Ela estava perto demais agora.
O cheiro dela. O calor. A raiva misturada com algo que não era raiva.
- Porque se eu não soltar... - ele murmurou.
Ela ergueu o queixo.
- Se você não soltar o quê?
Ele segurou o rosto dela.
Dessa vez não foi impulsivo.
Foi decidido.
- Eu não paro.
O coração dela disparou.
- Então não para.
O mundo ficou em silêncio.
Sem música. Sem Ordem. Sem regras.
Só eles.
Ele se inclinou.
Lento. Sem pressa. Sem plateia.
A respiração deles se misturando.
A poucos centímetros.
E pela primeira vez...
Ele não parecia dividido.
Ele parecia decidido.
Mas então-
A porta do terraço abriu.
Passos.
Vozes.
Hunter soltou ela imediatamente.
Como se tivesse sido queimado.
A máscara voltou em segundos.
Frio. Distante. Controlado.
Ela ficou parada.
Sentindo o abandono antes mesmo dele acontecer.
Dois membros da Noctis apareceram na entrada.
Olharam para os dois.
Silêncio avaliativo.
- Interrompemos algo? - um deles perguntou.
Hunter nem piscou.
- Não.
A palavra saiu limpa. Calculada. Segura.
Ela sentiu como se tivesse levado um tapa.
Não.
Era isso que eles eram?
Não?
Ela respirou fundo.
- Não mesmo - ela confirmou.
Mas dessa vez, quem virou as costas primeiro foi ela.
E ele não foi atrás.
Porque metade dele queria.
E a outra metade tinha medo de ser visto querendo.
-
Lá embaixo, alguém já estava mandando mensagens.
Rumores estavam deixando de ser rumores.
E agora não era mais só sobre desejo.
Era sobre poder.
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mentiras sóbrias, verdades embriagadas
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