Lilium é uma coletânea de contos sáficos sobre encontros que mudam destinos.
Entre toques hesitantes, olhares demorados e sentimentos que florescem em silêncio, cada história revela mulheres que se descobrem no amor.
Como lírios que nascem mesmo nos...
Notas de autor: Bem nunca escrevi contos e resolvi dar uma chance, não sei se alguém vai ler isto. Mas quero que fiquem sabendo que esses contos foram feitos da forma mais nua e crua que consegui. Muito carinho e dedicação envolvido.
Boa leitura~
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Capítulo Um
O ar seco e gélido que eu inspirava e expirava parecia tão insuficiente naquele momento e tudo a minha volta parecia um pesadelo, meus olhos ardiam totalmente irritados pela minha falta de sono, meu corpo estava tão tenso como se estivesse esquecido que meu corpo pudesse ser muito mais que carne, osso e pele. Eu queria gritar o mais alto que eu pudesse, no entanto era como se um nó estivesse formado em minha garganta, tão angustiante e ao mesmo tempo silenciosamente incômodo.
Os gritos por detrás da porta do meu quarto aos poucos só aumentavam, era impossível fingir que no dia seguinte os encararia como se nada tivesse acontecido. Mesmo abraçando os meus joelhos, que estavam machucados, aos poucos me acostumava com a ideia de que talvez aquela briga se prolongasse mais do que o esperado. Eu sabia muito bem o motivo daquilo tudo, oh como eu sabia, mais do que me orgulhar de recordar.
As paredes do meu quarto nunca conseguiram abafar o som de dentro e muito menos o som vindo de fora, e com essa dádiva era impossível eu fazer algo escondido ou ficar sem saber do que acontecia naquela casa. Sabe, eu realmente tentei, porém sou muito maior que esse ossos e carne, e eu sou o motivo desta briga que aos poucos vem perdendo o sentido, se é que tinha algum.
O meu medo foi substituído pelo sentimento de culpa, eu sabia muito bem o que tinha feito esses anos e não os culpo pelo sentimento de decepção. Todos me tem tantas expectativas positivas sobre mim, e eu sinto muito mesmo, mas acho que o máximo que até agora consegui foi decepcionar enquanto falhava miseravelmente. Não sei quando comecei a ser assim ou até mesmo a tornar-me quem eu sou, mas acredito que meu passado me moldou conforme os acontecimentos. Todos querem que eu "seja normal", mas o que se encaixa no padrão dito da normalidade?
Não consegui deixar de esboçar um sorriso, tudo isso chegava a ser tão cômico se não fosse a pura realidade, e eu realmente tenho um horrível senso de humor. Isso normalmente incomoda as pessoas ao meu redor, ainda consigo lembrar-me da vez em que ri no funeral de meu tio-avô enquanto minha tia-avó chorava histericamente. Em minha defesa eu estava tão nervosa e foi uma reação genuína como resposta, por todas as vias, a minha família bastante zangada comigo não acabou aceitando a minha explicação para isso.
Levantei-me tão rapidamente e pude sentir uma leve tontura, ignorei isso indo de encontro a porta de meu quarto. Fiquei por alguns segundos na frente da porta como se algo fosse acontecer de especial e por uns segundos pensei se eu estivesse em época de aulas certamente estaria bastante ferrada, eu tinha muita sorte (ou azar) pela bomba ter explodido no início das minhas férias. Enchendo meus pulmões com ar e coragem abri a porta rapidamente, deparando-me com minha mãe e meu padrasto.