Capítulo 1

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O orfanato tinha paredes velhas com tinta descascada, piso de madeira que rangia a cada passo, portas quase caindo das dobradiças e janela com vidro trincado. Não era o melhor lugar do mundo.

Me disseram que cheguei lá ainda muito nova, só um bebê. Não tinha um nome, uma data de nascimento específica ou qualquer coisa que indicasse de onde eu vinha. Me chamaram de Ivy e estipularam minha idade aproximada.

Tentaram me colocar em lares temporários, mas nenhum durou mais de um mês. Dizem que crianças barulhentas e agitadas são difíceis de lidar, mas crianças quietas demais? Essas só são estranhas. Eu era uma dessas crianças.

Ouvi as mesmas coisas várias vezes: reclusa demais, dificuldade pra confiar, silenciosa demais, ou simplicidade esquisita demais. Sem falar dos pesadelos.

Quase toda noite eu tinha sonhos que me faziam acordar gritando. Diziam que eu só queria chamar atenção no meio da madrugada, me olhavam com raiva e brigavam comigo por uma coisa que eu não podia controlar.

Aprendi a chamar o mínimo de atenção pra não incomodar ninguém, mas ninguém passou a gostar mais de mim por isso.

Eu já tinha visto alguns órfãos irem embora depois de completarem dezoito anos. De certa forma, eu já sabia que talvez fosse acontecer o mesmo comigo. Não é uma coisa que alguém realmente aceita, mas um fato que se tolera.

Pensei que aquele seria só mais um dia como qualquer outro. Nunca nem imaginaria o que iria acontecer.

***

O dia começou como qualquer outro. Eu estava sentada em um canto da parede enquanto as outras crianças brincavam. Tairn, um gato preto com olhos verdes, estava cochilando no meu colo. Vez ou outra alguém olhava na nossa direção, mas ninguém nunca se aproximava.

Ouvi a voz da Sra. Tompson, uma das cuidadoras do orfanato, se aproximando. Ela era uma senhora gentil. Tinha cabelo curto e grisalho sempre preso em um coque e sempre usava saias longas com cores claras e um óculos com lentes quadradas.

- Estas são nossas crianças.

Atrás dela estava um homem com cabelo castanho escapando por baixo de uma touca branca, pele morena, barba mal feita. Ele estava usando um moletom colorido com tons claros, calças largas e tênis brancos.

Seus olhos escuros percorreram o cômodo até pararem em mim. Ele percorreu o cômodo até se aproximar e se abaixou à minha frente, sorrindo.

- Olá - falou. Ele tinha uma voz gentil e tinha um tom cuidadoso.

Olhei para Sra. Tompson. Ela gesticulou me incentivando a continuar a conversa. Voltei a olhar para o homem.

- Oi - respondi a ele. Minha voz mal passava de um sussurro tímido.

- Como você se chama?

- Ivy.

- Que nome lindo. Eu me chamo Ether Harper.

Ele se sentou apoiado na parede ao meu lado, claramente querendo que a conversa continuasse. Eu não sabia bem o que dizer. Apenas respondia às perguntas dele. Era bom ter alguém interessado em me conhecer, mesmo que naquele momento eu ainda não soubesse o porquê.

Lua NovaWhere stories live. Discover now