“Nascemos como promessas enterradas sob a pele. Para a medicina dos homens, somos carne e osso; mas para as leis da terra, somos solo.”
“Quem não tem jardim próprio aprende a ler todos os outros.”
Ginny Natnicha aprendeu a ler as rachaduras da alma aos cinco anos. Enquanto a professora sorria e dizia que estava tudo bem em casa, Ginny sentia o jasmim queimado, um cheiro acre, sintético e doce demais, emanando dos pulsos da mulher. Era o odor da negação.
Aprendeu aos doze, quando o perfume de madressilva e mel de uma colega de classe flutuou pela sala de informática, revelando uma paixão nova antes mesmo que a garota soubesse o nome do que sentia. Aprendeu aos dezoito, quando sentiu pela primeira vez o odor inconfundível de galhos apodrecendo dentro de alguém: uma mulher cujo sistema botânico havia entrado em colapso após a perda de um filho. Ali, Ginny entendeu que a medicina exata podia curar infecções, mas nada sabia sobre o Definhamento da alma. Nem todo inverno vem do luto romântico; alguns vêm do puro vazio.
Enquanto a maioria das pessoas desabrocha na mocidade, exibindo jardins em relevo que abraçam braços e costas como tatuagens vivas de pólen e cor, Ginny nasceu solo batido.
Sem sementes, sem promessas, sem o 'ânimo botânico' que o mundo exige para considerar alguém completo. Uma Seca.
Mas foi justamente esse vácuo que a tornou a melhor apotecária da cidade.
Porque quando você não tem o próprio perfume, consegue sentir o de todos os outros com clareza. Ela aprendeu a distinguir o adocicado da paixão da euforia química, o amargo da traição, do cansaço físico. E, acima de tudo, aprendeu a identificar o cheiro metálico e pesado da madeira que morre em pé quando alguém desiste de si mesmo.
Ginny reconhecia a desistência a quilômetros de distância.
Naquela tarde de fevereiro, o brilho azul do monitor de sua loja parecia mais frio que o normal. Quando a sineta de bronze da Hortus tocou, o cheiro de uma primavera assassinada invadiu o recinto antes mesmo da cliente. Ginny não precisou olhar para cima para saber que, do outro lado do balcão, havia alguém cujo jardim interno não estava apenas murcho, estava sendo devorado pelo inverno.
Ginny estava de costas, as mãos mergulhadas em terra úmida, quando o cheiro entrou na loja antes da mulher.
Limpou as mãos no avental de lona e virou-se devagar, já sabendo que o que veria seria difícil. Sempre era.
A mulher era alta. Traços mestiços que Ginny reconheceu imediatamente, asiáticos e ocidentais entrelaçados numa geometria quase dolorosa de tão perfeita.
Maçãs do rosto altas e afiadas. Olhos amendoados de um tom mel que, sob a luz fraca da loja, pareciam estar apagando. Cabelos escuros presos num coque levemente desmanchado, como se tivessem sido arrumados às pressas, com mãos que tremiam.
Ela usava seda. Uma blusa cor marfim de mangas compridas até os pulsos, fechada até o pescoço mesmo no calor que começava a pressionar as janelas da Hortus. Calças de linho soltas. Sapatos fechados. Tudo escolhido para cobrir.
Mas Ginny não precisava ver. Ela sentia.
A visitante não se moveu por longos segundos. Ficou ali, parada como uma estátua de marfim, os olhos percorrendo as prateleiras repletas de garrafas âmbar, os feixes de raízes secas pendurados no teto, os potes de cerâmica com símbolos antigos pintados à mão. Havia algo de frágil na forma como ela segurava a alça da bolsa de couro contra o ombro.
Ginny deu um passo à frente, e a tábua do chão rangeu suavemente. A mulher piscou, como se acordasse.
“Boa tarde.” Ginny disse, mantendo a voz baixa, profissional, gentil. A mesma voz que usava com todos que entravam ali carregando dores invisíveis. “Posso ajudá-la?”
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Grafting Souls - (GinJay Shortfic)
FanfictionDuas mulheres em polos opostos da sobrevivência: uma que floresceu demais e outra que nunca desabrochou. Quando a ciência falha e o solo desiste, resta apenas o calor proibido de um enxerto. Porque, as vezes, para a vida brotar na carne, é preciso...
