Ela cresceu convivendo com dores e cansaço sem nunca saber o motivo. O diagnóstico de uma doença grave só chega na adolescência, tarde demais para apagar os anos sem tratamento. Sozinha após perder o médico que a acompanhava, ela precisa recomeçar...
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Eu me olhava no espelho e me perguntava: "O que há de errado comigo?" "O que eu fiz para merecer isso?" Eu estava exausta, cansada de tudo. Queria sumir, mas nem para isso eu tinha tempo - eu estava atrasada para o trabalho. Trabalhava em uma empresa do setor administrativo. Não ganhava muito, mas era o suficiente para me manter e pagar meu tratamento. Afinal, eu tinha uma doença genética chamada fibrose cística, uma doença sem cura que normalmente surge na infância. Eu a herdei de minha mãe, Natália. Vesti minhas roupas de trabalho, calcei os sapatos, peguei a bolsa e saí. Hoje eu realmente não queria ir a pé, então chamei um táxi. Logo ele parou à minha frente, e eu entrei. - Bom dia, senhorita - disse o senhorzinho. - Bom dia - respondi, com um leve sorriso. Enquanto seguíamos para o trabalho, eu observava a janela coberta por pequenas gotas de água. Começou a chover, pensei. Ao chegar à entrada do prédio, paguei o táxi e desci. Mais um dia comum e, para melhorar, a chuva só aumentava. Ótimo, pensei. Entrei na empresa. As pessoas me cumprimentavam; eu respondia com acenos discretos e alguns "bom dia" quase inaudíveis. Trabalhei. Trabalhei muito. Quando percebi, já era tarde. Eu estava ainda mais exausta. E, para completar, a chuva caía com força. Vai ser difícil encontrar um táxi a essa hora e com esse tempo, pensei. - Olivia? O que você ainda está fazendo aqui a essa hora da noite? - perguntou Tina, minha amiga. - Estava terminando a última papelada. E você? - Vim pegar um dos seguranças. - Você não para, né? Sempre procurando homens para te satisfazer por um dia. - E você podia procurar um também, sabia? Anda muito depressiva esses tempos. - Não estou. Inclusive... você veio de carro? Pode me dar uma carona? - Claro! Vamos sair daqui, pelo amor de Deus. Quando cheguei em casa, fui direto para o chuveiro. Queria esquentar o corpo, mas minha cabeça parecia em brasa. Depois do banho, vesti o pijama e me joguei na cama. Passado Eu tinha apenas cinco anos quando tudo começou a desmoronar - ou talvez já estivesse desmoronado, e eu apenas comecei a perceber. Meus pais decidiram se mudar para as montanhas. Não sei se era para criar animais ou para me deixar com traumas. As primeiras agressões que presenciei foram contra minha mãe. Meu pai saía para beber na cidade e, quando voltava, voltava fora de si. Preferia que não voltasse. Ele batia nela por pura raiva, até que um dia ela não aguentou mais. Não sei como meu pai escondeu o corpo. Eu me odiava por não ter feito nada, mas o que eu poderia fazer? Eu era só uma criança. Com o tempo, o saco de pancadas foi embora, e sobrou apenas eu. Ele não me batia. Ele me espancava. Eu não queria mais sofrer. Queria me vingar. Até que, em uma noite pior que todas as outras, ele me lançou contra a parede. Caí no chão, sentindo dor por todo o corpo. Quando estava prestes a desmaiar, tirei a faca que havia escondido na roupa e a golpeei contra o pescoço do meu pai. Não sei quantas vezes. Apenas sei que foi o suficiente para ele cair imóvel no chão. Depois disso, eu também caí. Quando acordei, estava sobre o corpo dele. Levantei-me e segui até a estrada. Eu iria até a cidade e contaria o que havia acontecido. Sentia dores fortes no braço e no tornozelo. Caminhei por horas até ver um caminhão se aproximando. - Meu Deus, menina, o que aconteceu com você? - disse o homem, descendo do veículo. - Eu matei meu pai. Ele apenas me olhou e mandou que eu entrasse no caminhão. Na cidade, fomos primeiro ao hospital para tratar fraturas e um corte profundo na barriga - onde eu havia escondido a faca. Depois, seguimos para a delegacia. Fui inocentada. O caso foi considerado legítima defesa. O homem que me ajudou me levou a um orfanato para meninas, administrado por freiras que prometiam uma vida digna. Digna de ser jogada fora. Elas não tratavam ninguém bem. Quem não cumpria as obrigações do dia ficava sem comer. Eu passava mal com frequência, até que, um dia, me levaram a um médico já idoso. Foi ali que descobri minha doença, ainda criança. As freiras não queriam pagar meu tratamento. Só me davam os remédios quando a situação ficava crítica. Quando fiz dezoito anos, a primeira coisa que fiz foi ir embora daquele lugar. Com o tempo, procurei um médico que pudesse cuidar da minha doença - e reencontrei o mesmo senhorzinho de anos atrás. Durante todo esse tempo, foi ele quem cuidou de mim. Depois de sair do orfanato, foi difícil me estabilizar, mas ali estava eu: prestes a dormir em uma cama macia, em meu próprio apartamento. Presente - Acho que preciso de terapia - murmurei, quase dormindo. A tela do celular se acendeu. Era uma mensagem da filha do meu médico, responsável pela agenda dele. Era um convite para o enterro do senhor Antônio. Meu mundo parou. Entrei em choque. Tudo o que consegui fazer foi chorar. - O que eu vou fazer agora sem o senhor Antônio? - sussurrei para mim mesma, até finalmente adormecer.