Outubro em Michigan era um daqueles meses que pareciam não decidir se queriam ser outono ou inverno. A chuva caía fina e insistente, transformando o gramado do Colégio Ábele em um tapete cinza e escorregadio. As árvores ao redor do campus ainda seguravam algumas folhas laranjas e vermelhas, mas a maioria já tinha desistido e estava espalhada pelo chão como confetes tristes. O ar cheirava a terra molhada, madeira úmida e o leve incenso que escapava da capela toda vez que a porta se abria.
Samuel Rodinger — Sam para quem tinha coragem de falar com ele — atravessava o corredor principal do prédio antigo como se o lugar inteiro pertencesse a ele. Mochila pendurada num ombro só, jaqueta jeans surrada por cima da camisa branca do uniforme (gravata frouxa, botão de cima aberto, sempre), tênis gastos que faziam barulho molhado no piso de madeira. O cabelo ruivo estava bagunçado e úmido da garoa, sardas destacadas pelo frio, olhos verdes estreitados contra o vento que entrava pelas janelas entreabertas. Aos 18 anos, no último ano do ensino médio, Sam era magro demais para o clima: ossos dos pulsos aparentes, ombros estreitos, 1,70m que pareciam ainda menores quando ele andava curvado contra o frio. Mas sua postura era ereta, desafiadora, como se dissesse "vem tentar me dobrar".
Ele não era bem-vindo ali desde os sete anos. O Ábele era um colégio cristão conservador, com regras escritas em placas douradas nas paredes: "Pureza de corpo e mente", "Honra a Deus em tudo", "Casamento é entre um homem e uma mulher". Sam tinha aprendido cedo que ser diferente custava caro.
Chamavam-no de "ruivo esquisito", "demônio sardento", "problema ambulante". O bullying não era só físico — era verbal, constante, disfarçado de "conselho cristão". Professores o olhavam com pena ou reprovação; alunos cochichavam quando ele passava; o diretor já o chamara para "conversas de orientação" tantas vezes que Sam nem contava mais. Mas ele nunca se curvou. Revidava com sarcasmos afiados que faziam os professores engasgarem e os alunos rirem por trás das mãos. Era sua armadura.
Inclusive, já pensara até em se mudar de escola algum dia, porém reconsiderou isso pela exigência dos pais.
Naquela tarde, ele estava atrasado para a aula de teologia avançada (de novo). O professor já devia estar marcando falta. Sam corria pelo corredor, tênis chiando, quando esbarrou em algo sólido. Muito sólido.
O mapa da escola voou. Folhas amassadas caíram no chão molhado, espalhando-se como confetes molhados.
— Ei, cuidado, porra! — Sam resmungou, recuperando o equilíbrio e quase caindo de bunda no piso.
O garoto à frente dele piscou, surpreso, olhos azuis grandes arregalados. Alto. Muito alto. Pelo menos 1,90m, ombros largos que esticavam a camisa do uniforme, uma barriguinha macia que não escondia a força natural do corpo robusto, braços grossos cruzados como se pedissem desculpas por ocupar tanto espaço. Cabelos loiros cacheados úmidos da chuva, rosto redondo e fofo, com bochechas rosadas e um sorriso tímido que parecia pronto para se abrir inteiro. Ele era o tipo de garoto que parecia feito para abraçar cachorros e ajudar velhinhas a atravessar a rua — um golden retriever humano perdido num temporal.
— Desculpa! Eu... eu sou novo. Tava tentando achar a sala 204 e... — Ele se abaixou rápido para pegar o mapa, mãos grandes tremendo um pouco de nervosismo. — Você tá bem?
Sam ficou parado um segundo, olhando para cima (precisava olhar para cima). O garoto era enorme comparado a ele. Mas havia algo naqueles olhos azuis que não era julgamento, não era pena, não era desprezo. Era... bondade pura. Inocente. Quase infantil.
— Tô ótimo — Sam respondeu, voz rouca de irritação fingida. Pegou o mapa das mãos dele antes que o outro se machucasse mais. — Bem-vindo ao Ábele. O inferno com hinos e regras.
O loiro riu, um som baixo e nervoso, coçando a nuca com uma mão grande.
— Eu sou Leonardo. Leo. Meus pais me transferiram de Ohio. Eles são pastores, então... aqui é tipo o lugar certo, né?
Sam ergueu uma sobrancelha, sardas dançando com o sorriso torto que ele deu.
— Lugar certo pra quê? Pra fingir que não sente nada? Pra rezar até esquecer que é humano?
Ele devolveu o mapa, dedos roçando de leve os do outro. Leo pegou, corando até as orelhas.
— Ah... eu não... quer dizer, obrigado pelo mapa.
Sam deu um passo para trás, mas não sem antes notar como Leo parecia aliviado por alguém ter falado com ele sem desprezo. Como se fosse a primeira conversa normal desde que chegara.
— Sala 204 é ali no fim do corredor, vira à esquerda depois da capela. Não se perde de novo, filhote.
Leo piscou, confuso.
— Filhote?
Sam já estava indo embora, mas virou de lado com um sorriso malicioso, olhos verdes brilhando.
— É. Você tem cara de quem precisa de alguém pra mostrar onde fica a saída de emergência. Ou onde esconder quando o pastor começar a falar de pecado.
Leo ficou parado no corredor, mapa na mão, sentindo o coração bater um pouco mais rápido do que o normal. Pela primeira vez desde que chegara ao Ábele, alguém o olhou sem pena ou julgamento. Alguém o olhou... de verdade. E aquele alguém era um ruivo sardento, magro e afiado, que parecia carregar o mundo nas costas e ainda assim sorrir como se nada pudesse derrubá-lo.
Sam, do outro lado do corredor, sentiu algo estranho no peito. Uma faísca. Uma curiosidade perigosa. Ele balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento.
"Não. Não vai rolar. Ele é certinho demais. Vai quebrar na primeira semana."
Mas enquanto entrava na sala de aula atrasado, o gosto amargo da rotina foi um pouco menos amargo. Porque, pela primeira vez em anos, alguém tinha olhado para ele e dito "desculpa" em vez de "afaste-se".
E isso, no Ábele, era quase um milagre.
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Sortudamente Sam
General FictionNo Colégio Ábele, uma escola cristã conservadora em Michigan, Samuel Rodinger é o rebelde ruivo que desafia todos com sua língua afiada e cicatrizes disfarçadas de fé. Quando Leonardo Hyger, o perfeito filho de pastores, chega para reafirmar sua cre...
