Herdeiros da Guerra

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A chuva batia contra os vidros do prédio da Empresa Kim como se anunciasse algo inevitável.
Kimhyng estava em pé diante da janela, braços cruzados, observando a cidade lá embaixo. Luzes frias, prédios altos, pessoas pequenas demais para entenderem o tipo de poder que se movia naquele andar.
- Eles não vão parar - disse uma voz atrás dela.
Kimhyng não se virou.
- Eu sei - respondeu, calma demais para a situação. - A Empresa Jeon nunca recua quando sente fraqueza.
O pai dela, Sr. Kim, suspirou pesado e se aproximou da mesa de reuniões.
- Isso não é mais sobre negócios comuns. É máfia. É território. É sobrevivência.
Kimhyng finalmente se virou, o olhar firme, afiado.
- Então por que me chamou aqui como se eu ainda fosse uma criança?
O silêncio pesou.
- Porque você é a herdeira - ele disse. - E porque chegou a hora de pagar o preço disso.
Ela sentiu o estômago se fechar.
- Que tipo de preço?
Antes que ele respondesse, a porta se abriu. Um dos homens de confiança entrou apressado.
- Senhor... a Empresa Jeon confirmou presença. Eles aceitaram a reunião conjunta.
Kimhyng sentiu o coração errar uma batida.
Empresa Jeon.
O nome que a acompanhava desde que aprendera a andar. Desde que fora ensinada a nunca baixar a guarda.
- Quando? - ela perguntou.
- Hoje à noite.
-
Do outro lado da cidade, no topo de um prédio ainda mais alto, Jeon Jungkook afrouxava a gravata com impaciência.
- Então é isso? - ele perguntou, a voz baixa, perigosa. - Depois de anos de guerra silenciosa, eles querem sentar à mesa?
O pai dele, Sr. Jeon, permanecia sentado, expressão fria.
- Eles estão perdendo força. E nós também estamos sangrando mais do que mostramos.
Jungkook riu sem humor.
- Resolver isso com conversa agora parece quase uma piada.
- Não é uma conversa - o pai respondeu. - É um acordo.
Jungkook parou de andar.
- Que tipo de acordo?
O olhar do pai encontrou o dele.
- Um acordo antigo. Que envolve você... e Kimhyng.
O nome dela caiu no ar como um tiro.
Jungkook ficou em silêncio por alguns segundos.
- Kimhyng... - murmurou. - Faz anos.
- Vocês cresceram juntos. Confiam um no outro, mesmo fingindo que não.
- Isso foi antes de nos tornarmos inimigos.
- Isso foi antes de se tornarem herdeiros - o pai corrigiu. - Agora, vocês são a ponte entre duas guerras.
-
A sala de reuniões era enorme, fria, dominada por uma mesa longa demais para intimidade.
Kimhyng entrou primeiro. Vestia preto. Sempre preto. Não por luto, mas por controle.
Quando Jungkook entrou, os olhares se encontraram instantaneamente.
O tempo pareceu desacelerar.
Ele estava diferente. Mais duro. Mais perigoso.
Ela também não era mais a garota silenciosa que o seguia pelos corredores quando criança.
- Jungkook - ela disse, firme.
- Kimhyng - ele respondeu, com um leve inclinar de cabeça.
Formal. Distante. Mas havia algo preso entre eles... algo antigo demais para desaparecer.
Os pais tomaram a palavra. Números. Ameaças. Perdas. Mortes não mencionadas, mas sentidas.
Até que o Sr. Kim soltou a frase que mudou tudo:
- Um casamento.
O silêncio foi absoluto.
- Está brincando - Jungkook disse, a voz baixa.
- Não - respondeu o Sr. Jeon. - É a única forma de cessar os ataques e fortalecer ambas as empresas.
Kimhyng fechou os olhos por um segundo.
- Vocês estão falando de nós como se fôssemos mercadoria.
- Estamos falando de legado - o pai dela rebateu.
Jungkook se levantou bruscamente.
- E se dissermos não?
O pai dele não se moveu.
- Então assistiremos tudo que construímos ruir. E vocês herdarão apenas cinzas.
O olhar de Jungkook voltou para Kimhyng.
Ela estava séria. Controlada. Mas ele conhecia aquele olhar.
Ela estava com medo.
- Fale - ele disse, baixo, apenas para ela. - O que você quer?
Kimhyng respirou fundo.
- Eu quero que isso acabe - respondeu. - Quero que parem de morrer pessoas por decisões que não tomamos.
Ele a encarou por longos segundos.
- Então você aceita?
- Eu aceito... - ela disse, engolindo seco. - Se você aceitar.
Jungkook sorriu de lado. Um sorriso triste. Perigoso.
- Amigos desde o berço... - murmurou. - Casados para evitar uma guerra.
Ele estendeu a mão sobre a mesa.
- Eu aceito.
Kimhyng colocou a mão sobre a dele.
O toque foi breve.
Mas foi o suficiente para ambos perceberem:
aquele casamento não seria apenas um acordo.
Seria o começo de algo muito mais profundo... e muito mais mortal.

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