One

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Enseada Clara não mudou tanto quanto eu imaginei. As ruas continuam estreitas demais, o cheiro de sal ainda gruda na pele antes mesmo de chegar à praia, e o silêncio da tarde é quebrado apenas pelo som distante do mar e por vozes conhecidas.

A casa dos meus avós surge no fim da rua como se tivesse ficado presa no tempo. A fachada clara, as janelas de madeira, a varanda onde eu costumava passar horas lendo na rede do meu avô.
Minha irmã, Ayla, desce do carro assim que estacionei ele na frente da garagem e corre em direção a porta de entrada. Richard e Beatrice parecem ouvir o som do motor e aparecem na varanda antes mesmo de eu pisar no chão.

Minha avó é a primeira a descer os degraus, abrindo os braços com um sorriso que enruga ainda mais o canto dos olhos. Ayla praticamente se joga nela, meu avô vem logo atrás, mais contido, mas com o mesmo olhar atento de sempre.

— Você cresceu — ele diz, como se essa constatação fosse nova.

Me aproximo deles e aproveito para abraçar eles com força, fazia meses que não via os dois e me sentia uma péssima neta por não ter tempo de visitar eles com a mesma frequência que gostaria.
Beatrice segura meu rosto entre as mãos por alguns segundos, como se precisasse confirmar que eu estou mesmo ali. O toque dela é quente, familiar, e por um instante tudo parece exatamente como antes.

— Está magra — ela comenta, do jeito dela.

Richard apenas assente, pousando a mão em meu ombro antes de se virar para ajudar Ayla com a mochila, mesmo sabendo que ela não precisa de ajuda nenhuma.

Esvazio o porta-malas com ajuda dos dois e logo meu antigo quarto está com os armários cheios. O quarto parece menor. A cama de solteiro encostada na parede, a escrivaninha perto da janela, as marcas antigas de fita adesiva onde pôsteres costumavam ficar. Abro a janela e deixo o vento entrar, trazendo consigo o som do mar.

Ayla entra logo depois, pulando na cama.— Dá pra ver a praia daqui.— ela diz, apontando para o lado direito da casa onde conseguimos ver um recorte da areia e do mar.

Sorrio, encostando no batente da janela.— Dá sim, eu te disse.— Podemos nadar agora?

— Agora não, amanhã sim.— Respondo já sabendo que ela iria insistir no assunto.— Está tarde e combinamos que vai poder escolher o que quiser para o jantar.

Ela pergunta, já escorregando da cama.

— Posso escolher qualquer coisa?

— Qualquer coisa que exista em Enseada Clara — respondo, fechando a janela com cuidado. — E que não seja só sobremesa.

Ela faz uma careta dramática, mas não discute. Ayla nunca discute quando sente que ganhou.

Consigo ouvir a voz dos meus avós conversando e no fundo sons de panela com música baixa na cozinha, andamos juntas até lá. Beatrice está desinformando um bolo de chocolate e Richard mexendo em algo no fogão.

— Desse jeito eu vou voltar das férias com cinco quilos á mais.— comento, encostando no balcão.

Beatrice ri, um riso curto e satisfeito.— Férias servem exatamente para isso.

Richard me olha por cima dos óculos.— Você sempre foi magra demais mesmo.

Ayla sobe em um dos bancos altos da bancada, os olhos fixos no bolo como se fosse a coisa mais importante da casa.— Posso comer agora?

— Depois do jantar — Beatrice responde, firme, mas já cortando uma fatia pequena.

Olho para o lado de fora da janela da cozinha, a visão do mar do lado de fora é a mesma de que me lembro de anos atrás.— Nada mudou nessa cidade.

Beatrice para por um segundo, a faca suspensa no ar. — Mudou, sim — ela diz, sem me encarar. — Só não do jeito que você percebe à primeira vista.

Richard apenas concorda com um leve aceno de cabeça.— Daqui a pouco você vai reparar.

Desvio o olhar do mar e encaro a cozinha outra vez. Ayla já tem chocolate no canto da boca, sorrindo como se aquele fosse o melhor lugar do mundo.

— Os Castelli ainda moram aqui do lado?

— Sim, mas a Júlia morreu uns anos atrás. Agora são só o Miguel e a Sienna.

O nome dela paira no ar por um segundo a mais do que deveria.

Sienna.

Finjo naturalidade enquanto passo os olhos pelo balcão, como se a resposta não tivesse provocado nada além de curiosidade casual. Mas sinto o estômago se contrair de um jeito antigo, familiar demais.

— Sienna… — repito, mais para mim do que para eles.

Beatrice me observa por cima do ombro, atenta como sempre. O olhar dela demora um pouco mais no meu rosto, como se estivesse procurando algo que eu não pretendo oferecer.

— Vocês brincavam juntas quando eram pequenas — ela comenta, num tom aparentemente despretensioso. — Viviam entrando e saindo da casa uma da outra.

— Eu lembro — respondo rápido demais.

Lembro de tudo. Das tardes compridas na praia, do sal grudado na pele, das conversas sussurradas tarde da noite para ninguém acordar. Do dia em que nada parecia diferente até mudar.

Richard volta a atenção para o fogão, como se aquele assunto não merecesse aprofundamento. Ayla, alheia a qualquer tensão invisível, lambe o dedo sujo de chocolate.

— Ela ainda vai na praia? — pergunto, tentando manter a voz firme.

Beatrice dá de ombros. — Sempre. Quase todos os dias, costuma surfar igual a mãe fazia.

Assinto devagar, sentindo uma estranha mistura de nostalgia e receio se espalhar pelo peito. Enseada Clara, afinal, nunca foi grande o suficiente para esconder alguém de verdade.

O jantar que Ayla escolheu termina logo depois disso. Conversamos sobre coisas simples, sobre o clima, sobre o mercado novo perto da praça, sobre os nossos planos para o verão e em como as amigas da minha avó estão.

Mais tarde, quando a casa finalmente adormece, volto para a varanda sozinha. A noite está morna, e o som do mar chega mais nítido agora, ritmado, constante. Apoio os cotovelos no parapeito, deixando o vento brincar com meus cabelos.

A casa ao lado está com as luzes apagadas.

Por um instante, imagino Sienna ali dentro. Mais velha, diferente, talvez igual demais. Imagino se ela também lembra. Se pensa naquele beijo rápido, desajeitado, que mudou tudo sem que nenhuma de nós soubesse o que fazer depois.

Enseada Clara não mudou tanto quanto eu imaginei.

Mas eu tenho a sensação incômoda de que, dessa vez, talvez eu não consiga passar despercebida.

Enseada Clara Where stories live. Discover now