Como eu pude chegar aqui?

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Sabe uma coisa que alguém que vem de uma família do crime organizado nunca vai falar para você? Bem… nada, na verdade. Se você também não for alguém de uma família do crime, dificilmente vai ficar sabendo de algo real e relevante sobre o assunto. A não ser que venha de um traidor. Traidores não são muito bem vistos de onde eu venho.

Mas vou falar algo sobre pertencer a uma família do crime que vocês não sabem (mas deve ser muito óbvio) — não podemos namorar com qualquer pessoa.

O que é algo um tanto complicado para mim. Porque… eis outra coisa que vocês não sabem. A gente se atualiza no mundo também. Sabiam? Aquelas coisas que vocês viam em filmes como O Poderoso Chefão estão por fora — mais ou menos.

Não saímos por aí com correntes de ouro e fuzis de diamante, gritando com imagens para quem quiser ver. Nem mesmo aquele lance dos carros são iguais. Não andamos com Aston Martins caríssimos, dando gorjetas generosas para os manobristas cuidarem. Eu, por exemplo, dirijo um SW4 blindado. É muito comum. Ser blindado é obrigatório e não opcional. Embora eu tenha um motorista. Muito clichê, eu sei.

Ser o filho mais novo de uma família do crime organizado traz algumas regalias.

Estou me perdendo nos pensamentos, algo que vão ver que faço com frequência.

Como ia dizendo, a família avança junto com o mundo e as tecnologias. Vocês não vão conhecer o meu pai como o líder de toda uma cadeia de tráfico de entorpecentes e outras cositas a mais. Vocês vão conhecê-lo como um grande empresário dono de uma indústria farmacêutica de sucesso.

Praticamente a mesma coisa, eu sei.

Vocês não vão me conhecer como o filho mais novo de um grande magnata do mundo do crime. Vão me conhecer como o filho mais novo de um grande empresário dono de uma indústria farmacêutica de sucesso. E influencer digital. Modelo. E que faz alguns bicos como ator nas horas vagas.

Não é querendo me gabar, mas tem muita gente querendo namorar comigo. E não estou só falando das pessoas que me seguem no Instagram e no Tiktok. Estou falando de outros modelos, influencers, atores, cantores e etc. Meu irmão mais velho tem a teoria de que eles sentem que há alguma coisa oculta em mim e se atraem pelo perigo implícito.
Eu acho que eu só devo ser lindo pra caralho.

Eu tenho o direito de achar isso, sou a cara do meu pai e sei que ele é lindo.
A questão é que as pessoas me querem. Eu não quero muito as pessoas de volta. Posso contar nos dedos o número de modelos, influencers, atores, cantores e etc que tenham chamado a minha atenção. Eu acho que é porque eu tenho tão soldado dentro de mim a distância que tenho que manter o mundo exterior da minha vida íntima e pessoal de verdade que acabo criando um bloqueio emocional.

Meu irmão fala que eu faço cú doce.

— Para sua casa ou para a casa do seu pai? — Senhor Teuchi está com o sorriso de sempre quando sento no banco traseiro do meu próprio carro.

— Para a casa do meu pai.

As palavras saem com um suspiro e eu consigo ver o olhar solidário do meu motorista pelo retrovisor.

Meu pai vai comer o meu fígado com uma torradinha, como ele faz com aquele maldito foie gras nojento. Mesmo sabendo que minha mãe vai interceder por mim, não há muita esperança.

A gravata aperta minha traquéia quando passamos pelo portão da residência Namikaze com o Ultra T. Ultra T é o meu carro, embora o senhor Teuchi se recuse a chamá-lo assim. Todo mundo se recusa a chamar assim.

Meu irmão pergunta quando é que eu vou deixar de ser um tongo. Meu segurança disfarça um sorriso (eu secretamente acho que ele também acha que o carro parece com o alien do Ben 10) e o segurança do meu irmão fica com o olhar fixo na minha cara, demonstrando todo o desgosto que é possível demonstrar sem ofender o filho do chefe dele.

UnwrittenWhere stories live. Discover now